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“Os alemães ocuparam a Hungria em Março. Em Maio, começaram a deportar cem mil judeus por semana. Os comboios da morte tinham prioridade sobre os combois militares. (…)”. As palavras são de Elie Wiesel (1928-2016), que morreu este sábado, e foram ditas em conversa com François Mitterrand, publicada num livro intitulado Memória a Duas Vozes, editado em Portugal no ano de 1995 pela Dom Quixote.

Nasceu em 1928 em Sighet, na altura húngara e actualmente romena. Filho de pai romeno e mãe húngara, sobreviveu a dois campo de concentração (Auschwitz e Buchenwald), para onde foi levado, quando era adolescente, juntamente com a família. A família morreu e só conseguiu começar a escrever sobre as trevas desse tempo dez anos depois de ter sido libertado. Antes ainda foi para Paris trabalhar como jornalista.

Assumiu-se durante toda a sua vida como uma das testemunhas fundamentais do Holocausto. Alguém que procurou perpetuar a memória da monstruosidade. Por respeito, para que não se repetisse. Sabia, até porque era um atento espectador da História, que isso não era impossível.

Partilha na mesma conversa com o na altura presidente francês: “Quando penso na tragédia dos judeus húngaros, fico próximo do desespero. Porque em Washington, em Londres ou Estocolmo sabia-se. Podiam ter-nos prevenido; não o fizeram. Chegados a Auschwitz estávamos perdidos; mas podíamos ter sido salvos”.

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Durante uma série de investigações ficou a saber que importantes jornais dos EUA, país para onde foi viver em 1956, como o New York Times – o mesmo que lhe dedica agora um extenso obituário – e o Washington Post já se referiam ao mais famoso campo de concentração nazi. A situação era também conhecida do presidente Roosevelt.

Apesar de todos os questionamentos e perplexidades, nunca se revelou ressentido nesse esforço de manter acesos os acontecimentos medonhos e na sua defesa dos direitos humanos. Era um homem que, antes de mais, apesar dos seis milhões de judeus assinados, procurava o bem. Sempre ancorado nos seus primeiros anos de vida, de onde nunca saiu realmente. “Para nós, judeus, o começo é uma necessidade fundadora. O início preocupa-nos mais do que fim. Como dizia Walter Benjamim, mergulhamos no futuro às arrecuas”.

Procurava-se no passado. Era a criança que nele persistia a determinar, muitas vezes, o curso da sua acção e era por elas que se empenhava na causa dos Direitos Humanos, denunciando as violações ocorridas em territórios tão distintos como o Camboja, a Bósnia, o Ruanda ou o Darfur. “Quase diria que é essa criança que me julga. É feliz agora? Foi feliz outrora? São estas as perguntas que faço a mim próprio”.

Acreditava que quem escuta uma testemunha do Holocausto também se torna também numa testemunha. Propagou, ao lado de intelectuais como Primo Levi, Simon Wiesenthal e Jorge Semprún, uma luta contra o olvido e o alheamento. Apelou à empatia, à tolerância e à compaixão em cinquenta livros – o mais conhecido é La Nuit depois traduzido para várias línguas, entre elas o decisivo inglês – em conferências, vindo a receber o Premio Novel da Paz em 1986. Discordou de Hannah Arendt quando esta, ao escrever sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém assinalou a “banalidade do mal”, caracterizando-o como o oficial nazi como o cumpridor de um dever sem autonomia e consciência, e sublinhou aquilo que considerou ser a passividade dos judeus.

Sempre ligado a Israel, fundou com a mulher, Marion Rose, a Fundação Elie Wiesel para a Humanidade, uma das instituições vítimas da fraude colossal de Bernard Madoff (perdendo 15 milhões de dólares). Reconhecido pelo congresso dos EUA, repreendeu Ronald Regan por este ir visitar um cemitério alemão onde estavam sepultados alguns oficiais nazis.

Até ao final da sua vida, manteve a identificação azul-esverdeada no antebraço esquerdo, através da qual era identificado no campo de concentração: A-7713 (a do pai, à sua frente na fila, era A-7712). “Se eu sobrevivi foi por alguma razão”, disse em 1981, revelando a consciência de que outra pessoa poderia ter sido salva. Foi a partir dessa convicção que se tornou um dos mais persistentes porta-vozes de uma dor que não se apaga.

Nuno Costa Santos, 41 anos, escreveu livros como “Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco” ou o romance “Céu Nublado com Boas Abertas”. É autor de, entre outros trabalhos audiovisuais, “Ruy Belo, Era Uma Vez” e de várias peças de teatro.