A notícia chegou até à Índia. Em junho um casal foi filmado a ter relações sexuais numa praia fluvial de Paredes de Coura. Mais do que a questão do sexo em público, o ato foi concretizado à frente de uma menor de seis anos. O caso despertou, por isso, a atenção mediática e fez com que a justiça retirasse a menina à mãe de 41 anos, residente em Guimarães. Tanto o homem — que não é o pai da criança — como a mulher foram indiciados por abuso sexual de menor e a investigação está entregue à Polícia Judiciária de Braga.

“A exposição ao ato sexual é um ato que entra em conflito com o desenvolvimento normal da criança, do ponto de vista da sua identidade sexual e enquanto pessoa”, explica ao Observador Joaquim Manuel da Silva. O juiz de direito da secção de família e menores do Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste reflete que, quando a liberdade e autodeterminação sexual da criança é afetada, tal constitui um crime punido com pena de prisão. O mais importante, diz o juiz, passa por apurar responsabilidade parental.

De tão insólita, a notícia em causa chegou a ultrapassar as barreiras nacionais, ocupando espaço em jornais britânicos e até indianos. Mas não é preciso ir tão longe para refletir sobre ela. Ainda que as situações sejam proporcionalmente diferentes — pela idade das crianças e também pelo cuidado e intenção dos progenitores –, é possível que alguns pais se questionem sobre se podem ter sexo na presença dos mais novos, isto é, no mesmo quarto onde dormem os filhos quando ainda são bebés.

Para Sónia Morais Santos, autora do blogue Cocó na Fralda, a resposta é afirmativa, ainda que haja algumas limitações à mistura. Ao Observador, a blogger explica que os seus quatro filhos dormiram no quarto dos pais até completarem seis meses de idade, pelo que o casal reacendia a chama debaixo dos lençóis quando estes “dormiam profundamente” e estavam “quietinhos”.

“O berço era muito alto, era impossível ver o quer que fosse. E para mim seria um completo turn off saber que o meu filho poderia ouvir alguma coisa”, conta a também jornalista do outro lado da linha do telefone. E se a ideia de um dos filhos ouvir os pais em pleno ato sexual a incomoda, a situação inversa não deixa de fazer semelhante confusão: “Barulhinhos de um bebé desmontam qualquer clima que possa existir”, atira Sónia.

E exemplo de que o casal é discreto foi a reação dos filhos de cada vez que a mãe contou que estava grávida:

Questionam sempre: ‘Mas vocês fazem isso quando?’. Quando tivemos a Madalena [filha mais nova, com um ano e meio], um deles perguntou-me: ‘Vocês fizeram aquilo outra vez?!’. Tem graça eles pensarem que o sexo é só para ter filhos.”

Sexo sim, mas à porta fechada

Para a pergunta colocada no título não existe uma “resposta única e verdadeira”, palavra da psicóloga infantil Inês Afonso Marques, que lidera a equipa infanto-juvenil da Oficina de Psicologia. Ainda assim, é possível opinar: “Se pensarmos que a sexualidade remete para uma questão de intimidade, de partilha de um casal, faz todo o sentido que seja vivida em privado. O facto de esta acontecer na presença de uma criança ou de uma pessoa é algo que, por princípio, não deve acontecer”.

A sexóloga Vânia Beliz, que já antes explicou ao Observador a importância da educação sexual e de como esta deve começar em casa, defende também que a “relação sexual deve ficar restrita a situações de intimidade”, pelo que “não é adequado que as crianças a possam presenciar”.

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Nestas circunstâncias é preciso ter em conta a idade da criança, como quem diz o grau de perceção das coisas que se passam à sua volta. Inês Afonso Marques é a primeira a dizer que um bebé não tem consciência do que acontece, pelo que, considerado os bebés que até aos seis meses partilham o quarto com os pais, e desde que o casal se sinta à vontade para tal, ter relações no mesmo espaço acaba por ser algo mais consensual. Vânia Beliz acrescenta que essa perceção depende muito do desenvolvimento de cada criança, sendo que até aos dois anos esta poderá não ter grande capacidade de compreensão.

“Em idades mais precoces as crianças não têm a capacidade de entender o ato sexual”, continua a psicóloga clínica e terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva. “Muitas vezes, o ato pode até ser confundido com agressividade e zanga entre os pais, em vez de carinho e afeto. A partir dos dois anos é plausível que todos os gestos e momentos possam ser assumidos como atos de agressividade de um corpo contra o outro”, explica, referindo-se a dinâmicas de casal mais intensas. Na opinião da profissional, ter relações na mesma divisão onde esteja o filho, mesmo que com meses de vida, é sempre de evitar, até porque “nunca se sabe quando uma criança está a dormir”. “Não é desejável que isso aconteça, o ato sexual é suposto ser íntimo e não deve ser exposto a uma criança.”

Mas qual é, mediante a situação em causa, o risco que os mais novos correm? Sofia Nunes da Silva defende que tal depende sempre do contexto em que as coisas acontecem e também da sua frequência:

Uma coisa é um acontecimento esporádico, outra é a criança ser exposta a uma situação destas com frequência e quase de uma forma repetida, sem qualquer proteção, no sentido em que o ato sexual ocorre como se ela não estivesse lá. Neste caso diria que é uma negligência.”

E quando pais e filhos praticam o “co-sleeping”?

Apesar de não haver uma só maneira de pensar sobre o assunto, as psicólogas e sexóloga fazem questão de salientar que há sempre cuidados a ter, mesmo quando a intimidade entre o casal acontece noutra divisão. Diz Sofia Nunes da Silva que os pais não vivem sozinhos, pelo que começar por trancar a porta é uma iniciativa a ter em conta (além de controlar a intensidade do barulho). Em causa estão os conceitos de privacidade e espaço próprio tanto dos pais como dos filhos, em igual medida.

“Bater à porta é muito importante e previne ocasiões desprevenidas”, assegura a terapeuta familiar, salientado que esta é uma aprendizagem que deve ser adquirida desde cedo. “É muito bom que haja uma delimitação de espaços. É bom que as crianças sejam ensinadas desde cedo que há uma linha de espaço que não deve ser invadida”, continua, fazendo questão de referir que a imposição de limites aos mais novos é uma forma de lhes dar segurança e tranquilidade.

E o que acontece quando uma criança se esquece de bater à porta e entra inadvertidamente no quarto dos pais? A primeira coisa a fazer, diz Vânia Beliz, é salientar que a criança não bateu à porta e só depois — embora não imediatamente a seguir — tentar perceber o que ela acha que viu. “Mesmo que a criança não tenha percebido nada, deve-se explicar que não se entra no quarto dos pais sem bater”, afirma a sexóloga. A isso acrescenta que, na sua opinião, os mais pequenos devem ir para o seu quarto o mais depressa possível, uma vez que “o quarto dos pais é um espaço íntimo, que não deve ser invadido”. Vânia diz ainda que, pela sua experiência, muitas mulheres têm dificuldade em relaxar, sendo que há mães que deixam de atingir o orgasmo precisamente por pensar que as crianças possam ouvir alguma coisa.

Para cima da mesa vem, então, o conceito de co-sleeping, que basicamente consiste no facto de uma criança dormir na cama dos pais, uma realidade elogiada por uns e contestada por outros — ao Observador, Mário Cordeiro chegou a dizer que “salvo casos diagnosticados como patológicos em termos de saúde mental por pedopsiquiatras, acho profundamente errado”. A afirmação do pediatra tem em conta os perigos de asfixia e o aumento da incidência da morte súbita.

Para o bem ou para o mal, ela [a criança] está cá fora desde que nasceu, pelo que tudo o que seja ‘branquear’ essa realidade funciona como um impedimento ao crescimento saudável e tranquilo das crianças”, justifica Mário Cordeiro.

Sobre isso Sofia Nunes da Silva não tem papas na língua e diz, sem rodeios, que à partida o co-sleeping é mau: “Acho péssimo a todos os níveis, sobretudo para o desenvolvimento individual da criança.” Já Inês Afonso Marques recorda que quem defende esta prática consegue enumerar um conjunto de vantagens para pais e filhos. “Há famílias em que isso acontece com grande satisfação para todos e outras em que é forçado”, argumenta, referindo que, tendo em conta o último caso, as crianças correm o risco de perder autonomia nas suas rotinas e de ficar demasiado dependentes dos pais. A psicóloga infantil faz ainda uma ressalva ao afirmar que o co-sleeping não tem de ser necessariamente um entrave à intimidade do casal, até porque o momento a dois não se cinge ao quarto e à noite.

A importância da educação sexual

Se por um lado se fala das relações sexuais entre dois adultos, por outro importa explorar a ideia da educação sexual que, repita-se, deve começar em casa. Mas antes de saltar para esse tópico, convém abordar, mesmo que ao de leve, a sexualidade. Já antes Vânia Beliz, uma das autoras do livro A Viagem de Peludim, explicou ao Observador que muitas pessoas confundem o conceito em causa.

Quando falamos no desenvolvimento psicossexual das crianças, falamos da satisfação que existe desde o momento em que ela nasce, à gratificação que sente quando é alimentada e cuidada, e isso não tem nada que ver com genitalidade nem com a sexualidade adulta em que normalmente pensamos quando esta palavra está em causa. As pessoas esquecem-se de todas as outras variáveis que estão à volta da sexualidade. (…) Tudo o que tenha que ver com a forma como nos relacionamos com os outros, e não apenas com sexo ou com a prática sexual, está englobado na sexualidade.”

A sexualidade é algo que se vai construindo, acrescenta a terapeuta familiar Sofia Nunes da Silva. “Tem muito mais que ver com afeto e comunicação, bem como com a construção de relações seguras. Nesse sentido, os pais falam sobre sexualidade com os filhos mesmo quando acham que não o fazem.” Exemplo disso é quando se diz aos filhos para cumprimentar alguém acabado de chegar a casa — tudo isto representa a construção da tal identidade sexual.

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“Esta questão da educação sexual e do despertar para a educação sexual passa por várias fases. Uma criança de dois, três anos começa a ter um interesse diferente no seu próprio corpo e começa a fazer perguntas”, adianta a também psicóloga Inês Afonso Marques. E o que fazer quando, efetivamente, começam a surgir as primeiras dúvidas por parte dos mais pequenos? A ideia passa por os pais responderam da forma mais franca possível tendo em conta a idade das crianças. Mais do que isso, importa que sejam elas a colocar as questões sem que os pais caiam no erro de antecipar os temas. Fundamental é também não fazer do tema um tabu, nem falar com os filhos num tom e registo ansiosos.

Foi precisamente isso o que fez Sónia Morais Santos com o filho mais velho, de 14 anos. A blogger conta que já teve “a conversa” com o adolescente, embora feita sem grandes aparatos. Sónia recorda-se de ter abordado a questão das relações sexuais protegidas e de responder a algumas dúvidas do filho. “Não ficou embaraçado. Nós falamos à vontade, mas não à vontadinha.”