Antigamente, os filmes também iam de férias. Durante muito tempo, e até alguns anos depois do 25 de Abril, era tradicional não haver estreias durante o Verão. Em Lisboa, assim como a cidade se esvaziava de pessoas, também os cinemas ficavam sem filmes novos, e todos, grandes e pequenos, seletos e populares, viviam de reposições. Quando o verão acabava, e as pessoas voltavam à cidade, começava uma nova temporada de estreias. Tudo isso já passou, e agora o verão é um tempo forte de estreias, mas a aposta recente de algumas distribuidoras na reposição de grandes filmes em cópias novas nesta época estival traz-nos um sabor desses tempos idos. E que reposições têm sido as deste Verão: na semana passada, “Barry Lyndon”, de Stanley Kubrick. Esta semana, outra obra-prima, “Dersu Uzala”, de Akira Kurosawa, estreado em 1975, o mesmo ano da de Kubrick (Em Portugal, intitulou-se “Dersu Uzala — A Águia das Estepes”).

No início dos anos 70, as coisas não corriam de feição para Akira Kurosawa. Tinha abandonado a superprodução de guerra “Tora! Tora! Tora”, co-produzida pelos EUA e pelo Japão. O seu novo filme, e primeiro a cores, “Dodeskaden”, era um fracasso comercial e de crítica. E não conseguia arranjar financiamento para os seus projetos junto dos estúdios e dos produtores nipónicos. Profundamente deprimido, o cineasta tentou suicidar-se, mas foi um ato falhado. As boas notícias chegaram finalmente, sob a forma de uma proposta da Mosfilm, os estúdios estatais soviéticos, para rodar um filme na URSS, a adaptação de “Dersu Uzala”. Um livro que o autor de “Os Sete Samurais” já tinha tentado filmar, sem sucesso, nos anos 50, no Japão.

[Veja o “trailer” americano original de “Dersu Uzala”]

Anos mais tarde, nas suas memórias, “Something Like an Autobiography”, Kurosawa referir-se-ia metaforicamente à sua experiência de ir filmar “Dersu Uzala” à URSS como a viagem de “um salmão japonês a um rio russo para lá fazer caviar”. E que caviar produziu essa jornada. O filme passa-se no início do século XX, na Rússia czarista, adaptando o livro de Vladimir Arseniev, um engenheiro militar enviado em missão de levantamento topográfico para os confins da zona asiática do país, com um pequeno grupo de soldados, onde travou amizade com Dersu Uzala, um velho e experimentado caçador nómada da tribo Goldi. Este tornou-se no guia dessa primeira expedição de Arseniev, efetuada no inverno, e de uma segunda, poucos anos mais tarde, feita no verão.

[Veja o novo “trailer” europeu do filme]

https://youtu.be/BrIelGSRCjo

Através da improvável mas efusiva e profunda amizade que se forma entre o capitão Arseniev ((Yuri Solomin), o homem da cidade, culto e de espírito científico, e Dersu Uzala (Maxim Munzuk, actor nascido na região), o prático e experimentado caçador nativo, que vive na natureza e da natureza, e salva a vida do militar por duas vezes, Akira Kurosawa filma uma grande aventura de exploração em paragens remotas, fazendo lembrar quer o “western” clássico, quer os livros de Júlio Verne que se inscrevem neste género e passam numa época próxima. E esta aventura é também um poema cinematográfico de uma beleza esmagadora na sua descrição de uma natureza que pode ser belíssima e mortífera, e é a terceira personagem da história; e de uma grande e tocante nobreza de sentimentos, expressa na relação que se estabelece entre Arseniev e Uzala, e na forma como este ensina aqueles que guia a conhecer, sentir e respeitar o mundo natural, e a ser generosos para com quem percorre as mesmas paragens ou vive do que elas lhes dão.

[Veja cenas do filme]

O filme tem várias sequências inesquecíveis, como aquela em que Dersu Uzala e Arseniev se salvam de uma tempestade no rio gelado, quando o caçador constrói um abrigo improvisado usando o tripé do teodolito do militar e os juncos que crescem nas margens; ou o momento de recorte fantástico em que sol e lua surgem no céu ao mesmo tempo, sobre a vastidão árida de uma estepe que esmaga a presença humana. A história vai ganhando um tom elegíaco quando o caçador percebe que está a perder a vista, e com ela a capacidade de ganhar a vida e de sobreviver na natureza, e Arseniev o convida para morar com ele e a família, na cidade. Lá, Dersu Uzala entristece e definha por não estar habituado a viver em sociedade e fechado entre quatro paredes. É o prenúncio do fim de um modo de vida errante, árduo, auto-suficiente e sintonizado com o mundo natural e animal, com os seus costumes, saberes e superstições, e dos homens que o representam, corporizados por Dersu Uzala.

[Veja uma sequência do filme]

https://youtu.be/tuimIH4u6nE

“Dersu Uzala” triunfou na bilheteira, conquistou a crítica, ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro e levou o realizador a ser apoiado financeiramente nos seus filmes seguintes (“Kagemusha — A Sombra do Guerreiro”, “Ran — Os Senhores da Guerra”, “Sonhos de Akira Kurosawa”), por Francis Ford Coppola, George Lucas, Steven Spielberg e Martin Scorsese. A fita que marcou um feliz e brilhante encontro entre o melhor cinema japonês e o melhor cinema soviético, deu também mais ânimo e um novo fôlego à vida e à carreira de Akira Kurosawa.