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O silêncio é de ouro, é de prata, é de bronze, é um direito de todos. A excelência da amizade está no respeito. Obrigado!”, lê-se em cada porta

A Aldeia Olímpica desagua na zona dos jornalistas. E estes parecem pescadores, lançando a rede, o charme, o sorriso e um “que tal?” para ter sorte. Os atletas estão tranquilos, vão tendo tempo e paciência, outros, com simpatia, rejeitam aquele toma-lá-dá-cá que sacia os homens dos microfones e gravadores. Há atletas nas espreguiçadeiras, outros ficam pelas mesas, há quem prefira caminhar, outros pegam na bicicleta e vão pedalar. Não é difícil imaginar aquele amontoado de músculos. É um mundo, aquela espécie de zona mista gigante. É um planeta inteiro, com 1001 nacionalidades e línguas, pescadores, peixe pequeno e graúdo. “Olha o tamanho do Pau Gasol!” Sai um impropério para a mesa 2…

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Pau Gasol (2,13m), o craque espanhol do basquetebol

Por ali há muito pingue-pongue de ideias, entre jornalistas, atletas, staff dos Jogos. Há fotografias, trocas de pins. Ouvem-se tantas versões de conversa. Daria quase para um ensaio sociológico, com tanta variedade de gente e cultura. A beleza daquele espaço é torná-los todos iguais: atletas olímpicos, com sonhos e ruínas pelo caminho. Não importa se são milionários e brilham na NBA ou se são da inédita equipa de refugiados, que tem histórias de fazer o estômago transformar-se numa espécie de Nadia Comaneci, com tanto malabarismo e contorção. Estão a viver no coração do desporto. São todos estrelas.

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Após as conversas com a ginasta Filipa Martins e o nadador Alexis Santos — entrevistas que sairão em dias de estreia dos atletas –, o Observador arrancou para o bairro que recebe todos os atletas. Sim, aquele bairro especial onde cada um recebe 42 preservativos. Há muitos prédios a perder de vista, com montanha à volta, como se fosse uma fortaleza.

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O edifício de Portugal, que é partilhado com Eslovénia, Mali, Gabão, Turquia, Nigéria e Azerbaijão, é logo, logo à entrada da Aldeia Olímpica. Há um vaivém difícil de acompanhar. Veem-se atletas a sair para treinar, outros para passear e há ainda quem se dirija para casa, para descansar os ossos. O que já se imaginava.

A Rússia, Estados Unidos e China, pelo menos, têm um edifício só para eles — as equipas de basquetebol norte-americanas estão sediadas num navio imponente, o Silver Cloud, perto da Baia de Guanabara. Já o prédio de Israel não está identificado, ninguém sabe bem onde fica, mas desconfia-se que haverá muita segurança. Aquele país nunca mais facilitou depois do atentado a 11 dos seus atletas nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972.

Ao longo de 19 andares, Portugal tem à sua disposição 67 quartos, sendo que 66 deles são duplos. Apenas o chefe de missão, José Garcia, está num quarto individual. A pergunta que se impõe é, pois claro, houve problemas, como com as outras delegações? Sim, alguns, mas houve paciência e colaboração dos portugueses. “Há problemas residuais. Sentimo-nos em casa desde o início. Tenho encontrado sorrisos e abraços”, desvaloriza.

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A primeira paragem é na sala de convívio, pequena, é um ponto de passagem e de encontro, talvez para um café. Há uma bandeira de Portugal com assinaturas, uma consola para jogar, TV, os dress codes para os atletas e uma parede repleta de mensagens das pessoas mais importantes. Neste caso, são os homens e mulheres que venceram medalhas no passado, que deixaram palavras de apreço e coragem. Nelson Évora, que ganhou o ouro em 2008 e que compete no Rio depois de faltar a Londres, aconselha os colegas a desfrutarem. Mesmo em competição, há que desfrutar…

Forte é também a mensagem de Fernando Pimenta, medalha de prata em 2012: “Nos Jogos Olímpicos representamos o querer, a garra, a ilusão, a ambição e o sonho de 10 milhões de portugueses. Não estamos nem vamos sós: somos um por todos e todos por Portugal! Força”.

João Sousa acaba de chegar do treino. Patrícia Mamona troca umas palavras com as colegas, enquanto Marta Pen, atleta de 1500 metros, é a mais despachada que passa por ali, brincando com um jornalista que estava com algumas dificuldades para tirar um café.

O Observador sobe ao terceiro andar e arrisca-se pelas entranhas do quotidiano dos portugueses olímpicos. Há três quartos por habitação, com camas humildes e pouco dadas a luxos. Os colchões são duros. Claro que há quem se lembre do português Tsanko Arnaudov, um rapaz pacato, pequenino, com 1.98m e 155 quilos. “Tem de dormir em três camas”, solta alguém. Com muita propriedade, senhoras e senhores…

O quarto é frio, no sentimento. Está ainda por ocupar, por isso talvez mais tarde se vista de bandeiras portuguesas e fotografias de familiares e amigos para o coração dormir mais sossegado e enganado. Mas não é todos os dias que se pode dormir no Rio de Janeiro com vista para o Cazaquistão, Mongólia e Egito. Este mapa-mundo dança o samba, como aquela gente ali em baixo, bem pertinho do palco. O ritmo é irresistível. É o Brasil, galera