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CDS obrigado a clarificar posição de Hélder Amaral. "Não privilegiamos nenhum relacionamento em particular"

Depois das críticas, CDS tenta explicar declarações de Hélder Amaral: proximidade do CDS é ao país, não só ao partido. Mas direção ficou incomodada com palavras do enviado e diz que não subscreve.

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MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

MIGUEL PEREIRA DA SILVA/LUSA

As declarações do dirigente e deputado do CDS, Hélder Amaral, no congresso do MPLA, em Luanda, não caíram bem ao CDS, no geral, nem à direção, em particular, que teve de se explicar. Hélder Amaral está em Angola em representação da delegação centrista no VII congresso ordinário do partido liderado por José Eduardo dos Santos, e foi nessa condição que sublinhou a proximidade “cada vez maior” entre o CDS e o partido que está no poder em Angola. A declaração depressa motivou críticas de militantes e dirigentes do CDS, e agora é a direção do partido que procura desfazer a gafe e clarificar a posição. CDS garante que vai aceitar convites de outros partidos angolanos porque “não privilegia nenhum relacionamento em particular”.

Foi Telmo Correia que, meio dia depois de estoirar a polémica, correu a apagar o fogo. “O CDS não privilegia nenhum relacionamento em particular, neste quadro, o diálogo que nós queremos ter e que iremos ter será com todos os partidos angolanos”, disse esta quinta-feira à tarde à agência Lusa, procurando ainda justificar as declarações de Hélder Amaral com o facto de aquele dirigente ter, “por razões óbvias, uma satisfação particular por ter sido o representante do CDS neste congresso, ele que tem ligações pessoais, de nascimento e de sangue, a Angola tão fortes”.

Segundo o deputado e dirigente centrista Telmo Correia, a decisão de aceitar o convite do MPLA foi tomada no âmbito da direção do partido e deveu-se ao facto de o CDS considerar a sua presença no evento útil ao relacionamento entre Portugal e Angola. E tal como o CDS está presente no congresso do MPLA, vai estar igualmente presente em setembro no congresso do terceiro maior partido angolano, o CASA-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral), anunciou.

“A nossa intenção é estar presente e manter diálogo com todos os partidos angolanos porque pensamos que este diálogo pode ser útil ao relacionamento entre os dois países”, justificou.

As explicações continuam, para que não restem dúvidas de que a proximidade do CDS é mais ao país e não apenas ao partido. “O relacionamento do qual estou a falar país a país, Estado a Estado, não dispensa e faz-se também no quadro do relacionamento entre partidos”, continuou Telmo Correia, sublinhando ainda “o número de portugueses que estão em Angola e de portugueses que estão a trabalhar com Angola”.

Ao Diário de Notícias, Adolfo Mesquita Nunes, vice-presidente do partido e um dos rostos mais próximos de Assunção Cristas, foi no entanto mais duro na demarcação face às declarações iniciais, dizendo que a direção do partido “não subscreve qualquer entendimento das palavras de Hélder Amaral que presuma uma alteração da posição do partido relativamente à democracia e ao pluripartidarismo em Angola”.

Esta foi a primeira vez que o CDS foi convidado a marcar presença no congresso do partido de José Eduardo dos Santos. Um dos convidados especiais do evento, que decorre desde esta quarta-feira até sábado, foi Paulo Portas, que não fez ainda qualquer declaração à imprensa. Portas viajou “a título pessoal”, enquanto Hélder Amaral foi o escolhido pelo CDS para representar o partido democrata-cristão (a indicação inicial era de que seria Luís Queiró, presidente da Mesa do congresso e responsável pelas relações internacionais, mas acabou por ser substituído). Também o PSD, o PS e o PCP levaram delegações ao congresso.

Em causa estão as declarações proferidas esta quarta-feira à imprensa, à margem do congresso, onde Hélder Amaral disse que as relações de proximidade entre o CDS e o MPLA estavam “cada vez” melhores e manifestou satisfação pelo convite, dizendo mesmo que esperava que este fosse “o primeiro de muitos congressos” e que o CDS também “esperava ter” no seu congresso “representantes do MPLA”.

Mais: numa alusão às origens da líder do CDS, Assunção Cristas, e às suas próprias origens, Hélder Amaral sublinhou as “boas relações” que o CDS tinha com o MPLA. “Paulo Portas, enquanto presidente do CDS, teve uma boa relação com Angola e a nossa presidente é angolana, é natural de Luanda. E eu próprio sou natural de Calandula, portanto temos naturalmente uma curiosidade e uma obrigação de ter relações com o MPLA”, disse.

Militantes e dirigentes incomodados

As declarações, que foram proferidas não a título pessoal, mas enquanto representante do partido, depressa motivaram várias críticas entre dirigentes, ex-dirigentes e militantes base do partido. E incomodaram a direção do partido. O primeiro foi José Ribeiro e Castro, ex-líder democrata-cristão, que, num texto publicado na página pessoal do Facebook, criticou duramente as palavras de Hélder Amaral e sugeriu ironicamente que os próximos partidos irmãos do CDS pudessem ser, depois do MPLA, o Partido Comunista de Cuba, o Partido do Trabalho da Coreia do Norte e o Partido Comunista da China, por exemplo.

À agência Lusa, Ribeiro e Castro reforçou a ideia, dizendo que “o CDS – com estas declarações – quis investir o partido único, e isso é uma coisa miserável. Os angolanos, incluindo o MPLA, querem construir uma democracia pluripartidária e vem um partido estrangeiro ungir e investir um partido único como se não houvesse mais partidos em Angola”.

Também João Gonçalves Pereira, presidente da distrital do CDS de Lisboa, criticou a “confusão” de Hélder Amaral no Facebook, E o ex-deputado Michael Seufert partilhou as declarações em causa com o seguinte comentário: “Eu partidos da Internacional Socialista só para exemplo de como não gerir um país. Mas isso sou eu”.

Na caixa de comentários, João Gonçalves Pereira acrescentou ainda que esperava que o colega Hélder Amaral desfizesse a “confusão” que terá feito entre a relação dos dois países e a relação dos dois partidos.

O líder da Juventude Popular também não ficou indiferente e quis demarcar-se das declarações do dirigente centrista. “Para que os militantes centristas não fiquem retidos no horror da dúvida, sem saberem se foi o CDS que se transformou de súbito, convém que alguém traduza esta trapalhada. Sem que ela pareça um vale tudo pelos dólares angolanos. Na parte que me cabe, para que não subsistam equívocos, garanto que a Juventude Popular não se revê em nenhuma outra força juvenil que baseia a sua matriz no Marxismo-Leninismo”, escreveu Francisco Rodrigues dos Santos no Facebook.

De acordo com o Diário de Notícias, além das críticas proferidas nas redes sociais, foram também enviados pedidos de esclarecimentos diretamente para a sede do partido, o que motivou a direção do CDS a sentir-se obrigada a clarificar a posição do CDS sobre a relação que mantém com o partido no poder em Angola.

Hélder Amaral rejeita críticas

Quando começaram a soar os ecos das declarações proferidas em Luanda, foi o próprio Hélder Amaral que procurou “contextualizar” as suas palavras, dizendo terem vindo no seguimento do discurso de José Eduardo dos Santos.

Mas em Luanda, questionado pelos jornalistas, rejeitou as críticas e reforçou que a presença do partido no congresso era “no estrito dever do interesse nacional e da boa relação que é fundamental ter com Angola”. Falando à imprensa, Hélder Amaral minimizou as declarações de Ribeiro e Castro, dizendo que se trataram apenas da sua opinião — uma opinião que vem de alguém que “está sempre do outro lado”.

“É a opinião do doutor Ribeiro e Castro, normalmente está sempre do outro lado e nem sempre está do lado certo. Outras vezes está, outras vezes não está e neste caso não está”, declarou.

Hélder Amaral frisou que é um conhecedor profundo da evolução de Angola, por conta do laço que o une ao país africano, por isso conhece as virtudes e defeitos do sistema. “E ontem [quarta-feira] percebi que há alguns sinais de mudança, acho que é preciso proteger esses sinais de mudança. Não concordamos com tudo que é feito, obviamente o CDS não mudou a sua forma de olhar o mundo, mas é um partido como deve ser, atento às mudanças, protegendo os sinais de mudança”, disse.

“Acho que vai haver tempo para quem quiser olhar com um pouco mais de atenção aquilo que está a acontecer em Angola, aquilo que acontece para a importância de Angola para a economia portuguesa, para a enorme comunidade portuguesa que está cá e para a enorme [comunidade] angolana que está em Portugal, é uma relação que não tem volta a dar”, sublinhou, mantendo o que disse na quarta-feira.

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