Sismo

Porque treme Itália?

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O país transalpino é frequentemente afetado por terramotos, mas a esmagadora maioria não têm qualquer consequência. A geologia italiana explica porque há tanta atividade sísmica.

ITALIAN FIRE BRIGADE/EPA

Nos últimos onze anos, Itália foi abalada por 28.300 sismos com magnitude igual ou superior a dois graus na escala de Richter. A grande maioria destes terramotos não provocou danos nem sequer foi sentida, mas o volume de ocorrências dá uma ideia de como o país é vulnerável à atividade sísmica. Não é muito frequente mas, de tempos a tempos, dá-se um abalo mais forte que deixa um rasto de destruição e vítimas. Aconteceu em 2009, quando mais de 300 pessoas morreram num sismo que arruinou L’Aquila, uma cidade do século XIII. Aconteceu novamente em 2012, a norte da cidade de Bolonha. Morreram 16 pessoas e mais de 350 ficaram feridas.

O sismo de L’Aquila teve uma magnitude de 6,9 na escala de Richter. O de Amatrice teve uma magnitude “que não é nada de excecional”, mas aconteceu “muito próximo da superfície [a 10 quilómetros de profundidade] e muito próximo de zonas habitadas”, explica ao Observador Fernando Carrilho, chefe da Divisão de Geofísica no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Além disso, muitos destes sismos acontecem próximo de localidades que têm zonas históricas muito grandes e que não estão preparadas para resistir aos abalos sísmicos mais fortes.

Neste mapa estão os maiores terramotos sentidos em Itália durante o século XX. Desde 1908 — quando a terra abanou na Sicília e matou mais de 80 mil pessoas — até esta quarta-feira, morreram cerca de 120 mil pessoas na sequência de sismos.

Uma parte significativa do território italiano tem um nível elevado de perigosidade sísmica, sobretudo na região central e do sul. Isto deve-se ao facto de o país estar num local da Terra onde se encontram duas placas tectónicas: a euro-asiática e a sub-placa do Mar Adriático. Foi da colisão dessas duas estruturas que nasceram as montanhas dos Apeninos, que atravessam Itália de norte a sul. Essas placas continuam a mover-se e, por isso, os sismos são frequentes. O terramoto de L’Aquila foi provocado pelo afastamento abrupto das placas; o de Bolonha, em 2012, deveu-se ao movimento contrário, o choque. Agora, foi novamente o afastamento das placas que provocou o sismo.

Todos os anos há entre seis a sete mil sismos em Itália, segundo os dados do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia daquele país. Mas há anos que escapam a estas estatísticas, como 2009, em que se registaram perto de 23 mil abalos, 17 mil dos quais na região em redor de L’Aquila.

Porque é que a Terra abana?

O planeta Terra é composto por camadas: a crosta terrestre, o manto e o núcleo, todas elas separadas por fronteiras a que os geólogos chamam “descontinuidades”. A crosta terrestre é semelhante a um puzzle, em que cada uma das peças chama-se “placa tectónica”. Em alguns casos, essas placas chocam entre si — são as placas convergentes, onde a crosta terrestre se destrói. Noutros casos, as placas afastam-se uma da outra — são as placas divergentes, onde a crosta terrestre se renova. E ainda há locais onde elas não se afastam nem aproximam, mas roçam uma na outra — são as placas conservativas.

É então fácil de perceber que a crosta terrestre nunca está quieta. Ela mexe-se porque está assente numa camada plástica. Essa camada é o manto, onde está armazenado o magma que é expelido pelos vulcões. A 70 quilómetros de profundidade, a Terra não está mais sossegada do que cá em cima. Lá em baixo, o magma está numa constante circulação lenta. Isto acontece porque as rochas que existem no manto estão a temperaturas diferentes umas das outras: na parte mais profunda do manto, mais próxima ao núcleo terrestre, as rochas estão a temperaturas muito mais altas (algo como 4800ºC). Mas na parte mais superficial do manto, próxima à crosta terrestre, as temperaturas são mais baixas (rondam os 150ºC). Ora, o magma a temperatura mais alta é também menos denso, por isso sobem para os patamares mais superficiais do manto. O magma a temperatura mais baixa, por ser mais denso, afunda-se para as zonas mais profundas do manto.

Isto provoca uma corrente: são as correntes de convecção. O magma menos denso, ao chegar à zona mais superficial do manto, aferrece e torna-se mais denso, tendendo portanto a voltar a afundar-se. Ao mesmo tempo, o magma mais denso aquece quando chega às profundidades do manto, tornando-se menos denso, o que o obriga a subir.

Toda esta dança que ocorre no manto faz com que as placas tectónicas, que assentam sobre ele, se movimentem. Durante esse movimento de placas ocorre uma verdadeira luta onde umas exercem pressão sobre as outras, conforme explica a Teoria do Ressalto Elástico. As rochas são materiais pacientes: todas elas têm um limite elástico, que é a tensão máxima que um material pode suportar, armazenando energia, sem sofrer deformações. Mas a paciência tem limites, até quando falamos de pedras. Quando o material terrestre fica submetido a uma tensão que ultrapassa o seu limite elástico pode comportar-se de duas maneiras: dobra-se ou fratura-se. É neste último caso que ocorrem os sismos, que não são mais que a libertação de toda a energia que as rochas próximas às fronteiras das placas acumularam ao longo de um determinado período de tempo. Como é nos limites das placas convergentes e das placas conservativas que os níveis de tensão a que as rochas estão sujeitas são maiores, é nessas onde a atividade sísmica é mais frequente e mais intensa.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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