Quando a polémica rebentou, Pedro Passos Coelho ainda tentou que o assunto não se tornasse “uma questão partidária”, disse que não tinha lido a obra e que, em todo o caso, não tinha sido escrita por si. Mas já era tarde demais. Tudo por causa do polémico livro de António José Saraiva, ex-diretor do semanário Sol e do Expresso, que revela conversas privadas (e de foro íntimo) que o jornalista teve com vários políticos, alguns dos quais já falecidos. António José Saraiva convidou o líder do PSD para apresentar a obra, Passos aceitou e, mesmo depois de ter sido atacado em várias frentes, manteve a palavra. Agora, uma semana depois de o caso estalar, Passos recua e já não vai apresentar o autointitulado “livro proibido”, noticia a Sábado e a edição do jornal i desta quarta-feira.

Segundo a Sábado, Pedro Passos Coelho terá contactado esta terça-feira o autor do livro no sentido de lhe pedir para o “desobrigar” de apresentar publicamente a obra, não querendo voltar com a palavra atrás mas ao mesmo tempo não querendo envolver-se mais na polémica. Antes, contudo, segundo relata a revista no seu site, Passos já tinha falado com José António Saraiva no sentido de lhe dizer que não era por estar a ser criticado que deixaria de o fazer. “Se não fosse atacado por isto seria por outra coisa qualquer”, terá dito o líder do PSD ao autor da obra “Eu e os Políticos”.

O jornal i desta quinta-feira adianta que Passos Coelho mudou de ideias por causa do conteúdo do livro e das questões privadas que nele aparecem retratadas.

Esta decisão foi absolutamente inesperada, mas acho compreensível. Metendo-me na pele de Pedro Passos Coelho, é de facto a atitude mais sensata”, diz Saraiva àquele jornal.

A editora da obra também confirmou o recuo. Em comunicado enviado esta terça-feira à noite à agência Lusa, a editora Gradiva afirma que o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho “pediu ao autor, por motivos pessoais, para o desobrigar de estar presente na sessão de lançamento do livro”, prevista para dia 26, às 18h30, no El Corte Inglés, em Lisboa. A Gradiva afirma que “o livro tem sido objeto de uma polémica, por vezes excessivamente inflamada, nos media e nas redes sociais”. Nesse sentido, José António Saraiva e “a editora consideram que o momento exige reflexão e que tudo farão para evitar o que possa contribuir para alimentar novas polémicas”.

“Por decisão conjunta do autor e da editora, a cerimónia [de apresentação da obra] foi cancelada”, lê-se no mesmo comunicado.

No livro, Saraiva descreve, segundo a Gradiva, “um conjunto de episódios polémicos, vividos na primeira pessoa, com diversos políticos e personalidades” portugueses, como Paulo Portas, Mário Soares, Marcelo Rebelo de Sousa, José Sócrates e Pedro Santana Lopes, assim como o atual primeiro-ministro, António Costa, incluindo pormenores mais íntimos e privados.

O recuo de Passos surge no mesmo dia em que o ex-conselheiro nacional do PSD Paulo Vieira da Silva, militante há 25 anos, anunciou a sua demissão do partido muito por causa do livro que classificou como “deplorável e nojento”.

Quando foi questionado publicamente sobre a polémica, este fim de semana, Passos disse aos jornalistas que mantinha a palavra, porque não era pessoa de “voltar atrás”, mas ao mesmo tempo quis distanciar-se, alegando que não era o autor do livro nem tinha de concordar com todo o seu conteúdo. “O autor é ele, não sou eu”, disse depois de sublinhar que tinha aceitado o convite de José António Saraiva por “respeito”, mesmo antes de ler a obra.