Abdsalam Haj Taher tinha 15 anos quando foi raptado e mantido preso, durante quatro meses, pelo Estado Islâmico. Foi o primeiro refugiado menor de idade a chegar a Espanha, há cerca de um ano. Agora, aguarda que os juízes decidam finalmente o que lhe vai acontecer. Faz 18 anos em janeiro e ainda não tem papéis…

O jovem sírio deu o seu testemunho impressionante ao jornal espanhol El Mundo da tortura que sofreu às mãos do grupo terrorista.

O Sequestro

300 crianças da aldeia de Kobane, incluído Abdsalam, tinham ido fazer uns exames para a escola a Alepo, viajando em vários autocarros. No regresso, o jovem sírio ia contente porque lhe tinha corrido bem. Mas a sua felicidade não durou muito…

Quando chegaram à ponte de Manbij, a meio de noite, o Estado Islâmico parou-os.

“Posso matar-te. Posso atirar-te desta ponte abaixo agora mesmo. Posso fazer contigo o que eu quiser”, disseram os terroristas.

Assim começou o sequestro. As crianças tinham ouvido falar das atrocidades que o Estado Islâmico comete, como decapitações, e ficaram aterrorizadas.

Abdsalam tem uma imagem na cabeça: quando os mandaram parar, os terroristas degolaram o seu professor de Inglês quando se levantou para defender a irmã, que estava a ser revistada.

A Prisão

O Estado Islâmico levou-os para um colégio que transformou em prisão. Acordavam-nos antes de o sol nascer, com um banho de água fria, e metiam-nos a rezar.

Diziam-te que se matasses os infiéis terias 72 mulheres só para ti no Paraíso. Para comer davam-nos um prato para quatro crianças. A comida era má e pouca. És uma criança e tens medo, ok, mas entendes que se comes muito estás a tirar ao teu amigo… À tarde faziam-nos ler o Alcorão durante horas. Havia crianças analfabetas que não sabiam ler. Mas eles não se importavam. Se não lessem eram açoitados”, descreve Abdsalam.

As Torturas

O jovem sírio recorda-se que os terroristas andavam sempre com armas e explosivos na cintura. As crianças dormiam todas no mesmo quarto, apertadas. Deram-lhes três sacos: um para fazer de almofada, outro para pôr no chão e outro para se taparem.

Existia também um quarto de tortura…

As crianças receberam choques elétricos, foram amarradas a uma cadeira e os terroristas puxavam a corda até os seus braços dobrarem, outras eram penduradas pelos pés e serviam de saco de boxe, entre outros tipos de tortura.

Abdsalam ainda assim teve sorte porque só lhe bateram.

Lembro-me dos gritos dos meus amigos durante as torturas. São sons que nunca vou esquecer. Tu pensas que o próximo vais ser tu”, afirma o jovem sírio.

A Fuga

Absalam sentia uma enorme raiva por aqueles homens se considerarem os melhores muçulmanos. “O bom muçulmano não mata. Por isso eu era muito melhor que eles…”, defende o jovem.

Todos choravam. Os mais velhos, faziam os mais novos rir para se esquecerem daquele inferno. Todas as noites Abdsalam pensava em fugir. Até que um dia disse aos seus amigos:

Vou sair daqui, se alguém quiser vir… O que me importa é a minha família, a minha vida não vai ser com esta gente, tenho sonhos”. E Abdsalam começou a preparar um plano de fuga.

Ganhou a confiança de um guarda e roubou-lhe a chave. Acordou os colegas, um a um, sem fazer barulho e conseguiram chegar até a uma casa de banho que dava acesso a um muro que escalaram. Abdsalam guardou uma moeda, durante todo o tempo em que esteve preso, e usou-a para ligar à mãe. “Ela deixou cair o telefone de alegria. Pensava que estava morto. ‘Não me conheces? Sou o teu filho‘ “.

Entretanto, o jovem fugiu para Espanha, à procura de uma nova vida, sem nunca olhar para trás.

Abdsalam estuda Teatro, no Centro de Estudos Santa Bárbara, em Madrid, e já fez de protagonista na peça “Os Miseráveis”.

O seu professor, José Manuel Pardo, conta que no primeiro dia de aulas estava a explicar a respiração pelo diafragma e fez um exercício que consistia em colocar um cinto à volta do peito dos alunos. Então Abdsalam começou a ficar nervoso e desprendeu-se rapidamente. O professor ficou em choque. “Que se passou com este rapaz? Quero conhecer a sua história“, afirmou. E pouco a pouco foi conhecendo.

Assim como nós agora.