Diversidade de género na infância. Foi este o tema da conferência que aconteceu este sábado, no ISCTE — Instituto Universitário de Lisboa, promovida pela Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género (AMPLOS).

Uma das questões em cima da mesa foi a revisão da Lei da Identidade de Género, de 2011, que é um compromisso eleitoral do Partido Socialista e do Bloco de Esquerda. Catarina Marcelino, secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, prometeu atentar no projeto que pretende permitir que maiores de 16 anos possam alterar o sexo e o nome no Registo Civil. Atualmente só é possível fazê-lo a partir dos 18 anos.

Mas nem só de representantes portugueses se fez o dia de debates. Diretamente de Espanha vieram representantes da Chrysallis, associação que lida com crianças transgénero, respetivas famílias e escolas. Em três anos, já passaram pela associação espanhola 400 crianças.

Em entrevista ao Observador, a presidente da Chrysallis Madrid sublinha que a “compreensão” para com as crianças é “essencial” para garantir que estas são protegidas. “Quando a minha filha me disse que era uma rapariga, não tinha nenhuma ideia do que era a transexualidade”, contou à AMPLOS.

“Ela tinha uns 3 anos e eu ia deixando que ela brincasse como queria. Não sabia interpretar. Às vezes pensava: ‘Vai ser homossexual’ (…) Era ‘um rapaz’ que ia para a escola vestido de rosa, com purpurinas. No Carnaval quis ser princesa e fiz-lhe um fato híbrido, um fato de príncipe com uma grande flor no peito, mas ela não ficou satisfeita. Queria protege-la. Um dia vi-a esconder o pénis e foi nessa altura que comecei a sentir verdadeira angústia”. Hoje, Saida Garcia ocupa-se a ajudar outras famílias.

Como é que funciona a Chrysallis?
A Chrysallis nasceu há cerca de três anos a partir de um grupo de várias famílias, entre as quais estava a minha. Depois criámos a Chrysallis Madrid, da qual sou presidente. Acompanhamos famílias que têm menores transexuais em casa e damos apoio em todos os âmbitos, incluindo na escola, para onde enviamos informação. Trabalhamos para que a transição de género seja feita de forma tranquila em sociedade.

Já fomos a uma escola só porque uma criança não queria vestir o uniforme feminino. Não queria, não se sentia bem, fomos falar com a escola para garantir o seu bem-estar”

Como é que estão as leis neste âmbito em Espanha?
Pouco a pouco vamos conseguindo. Mas há uma lei estatal (3/2007) que exclui diretamente os menores de 18 anos de poderem alterar o sexo e o nome no cartão de identificação. Só os maiores de 18 anos podem fazê-lo. (A situação é a mesma em Portugal)

O que é que os pais devem fazer?
No início, a ignorância e o medo podem complicar a situação. Mas a partir do momento em que começam a receber informação, as coisas melhoram significativamente. O mais importante é entrar em contacto com grupos ou associações que possam dar conselhos, porque já passaram pelo mesmo. Ser transgénero não é uma doença por isso não é necessária intervenção de um médico — exceto, claro, quando essa situação provocar outros danos.

O mais importante é escutar e estar atento ao que os nossos filhos dizem. Não tentar limitar os chamados “comportamentos de género”, aquilo que é expectável por ser menino ou menina. É importante não prender a criança, não a forçar a ser ou a gostar disto ou daquilo. Falar com a menina ou com o menino de forma sincera e dar-lhe abertura para que possa dizer o que sente. É muito difícil para uma criança trans abrir-se connosco e dizer que o que sente não é o mesmo que ela acha que devia sentir. Por isso não devemos dizer que o que ela sente está “errado”. Devemos ouvi-la e mostrar-lhe que há mais crianças como ela.

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