O senador do Alabama Jeff Sessions prepara-se para ser o próximo procurador-geral da Administração Donald Trump, cargo equivalente ao de ministro da Justiça em Portugal. O advogado foi um apoiante do Presidente-eleito desde o primeiro minuto e é um dos maiores representantes da linha dura do discurso de Trump, nomeadamente no que diz respeito à política externa e de imigração. O nome aparece sempre associado a comentários racistas e xenófobos, estando longe de ser consensual. São muitas as polémicas que envolvem Jeff Sessions, sendo que algumas já remontam ao tempo em que, em 1986, foi nomeado juiz federal pelo então Presidente Ronald Reagan e acabou chumbado pelos republicanos devido, precisamente, a comentários racistas e favoráveis a movimentos como o Klu Klux Klan (KKK). Agora, a sua nomeação para o cargo dependerá também da aprovação pelo Congresso – de maioria republicana.

Conservador, anti-casamento homossexual, anti-legalização do comércio, anti-legalização do consumo de canábis, Sessions, 69 anos, tem sido uma das vozes mais ativas contra a imigração ilegal, um dos principais temas da campanha eleitoral de Trump, que prometeu expulsar os cerca de 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem em território norte-americano. Sessions representa o estado do Alabama no Senado (câmara alta do Congresso norte-americano) desde 1997 e assumiu protagonismo quando se opôs, durante as administrações de George W. Bush (republicano) e de Barack Obama (democrata), a vários projetos para a regularização de imigrantes ilegais.

Depois de, enquanto jovem procurador do estado do Alabama, na década de 80, ter sido rejeitado pelo Comité de Assuntos Judiciais norte-americano, que supervisiona o Departamento de Justiça e o FBI, para assumir o cargo de juiz federal, Jeff Sessions acabou por conseguir ser eleito pelo partido republicano para o Senado e acabou mesmo por tornar-se um membro daquele mesmo Comité dos Assuntos Judiciais. Para a história, contudo, ficam os seus sucessivos comentários racistas e xenófobos e as consequentes tentativas de retificação, transformação em “piada” ou alegações de esquecimento.

Eis as principais polémicas daquele que deverá ser o próximo procurador-geral norte-americano:

O elogio ao Klu Klux Klan e a nomeação falhada para juiz

Enquanto servia como procurador do estado do Alabama, Jeff Sessions foi nomeado, em 1986, pelo Presidente Ronald Reagon para o cargo de juiz federal. Mas a sua nomeação acabaria rejeitada pelos senadores do Comité de Assuntos Judiciais (de maioria republicana) por causa das suas declarações racistas. Na altura, os oficiais do departamento de justiça foram chamados a testemunhar sobre as alegas visões racistas de Sessions e os testemunhos não lhe foram nada favoráveis.

Um dos testemunhos terá dito que, em audiências perante os senadores do Comité, Sessions referiu-se à Conferência da Liderança Cristã do Sul, que é uma organização não governamental focada nas questões que envolvem os direitos civis dos afro-americanos, ou à União Americana pelas Liberdades Civis, ou ainda à Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor como organizações “não americanas” e “de inspiração comunista” por “tentarem impingir direitos civis pela garganta das pessoas”.

À boleia disto, um dos procuradores federais de então, afro-americano, testemunhou para dizer que Jeff Sessions o tinha chamado “boy” e ter dito para “ter cuidado com o que diz aos colegas brancos”. Paralelamente, um outro oficial de justiça testemunhou a dizer que Sessions tinha elogiado o Klu Klux Klan, movimento reacionário e extremista norte-americano que defende a supremacia da raça branca e o antissemitismo: Sessions terá dito que sempre achou o Klu Klux Klan um movimento “ok”, aceitável, até ao dia em que descobriu que “fumavam erva”. Pior a emenda do que o soneto. Mas afinal “foi apenas uma piada”, diria depois.

O senador do Alabama viria a negar ter chamado “boy” ao advogado mas não negou nenhum dos restantes comentários. Quando questionado sobre as declarações que teria feito sobre a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor, preferiu dizer que não se recordava ter dito que aquela associação “odiava pessoas brancas”, como lhe atribuíam. “Posso ter dito isso, ou algo parecido que tenha levado alguém a interpretar isso”, limitou-se a explicar, sublinhando que nunca disse que a União Americana pelas Liberdades Civis era “uma organização não-americana”.

“Eu disse apenas que eles tomam posições que são consideradas não-americanas. Magoam-se a si próprios, perdem a credibilidade. E muitas pessoas pensam que algumas dessas posições são tomadas contra os interesses dos EUA”, afirmou, referindo-se às políticas de liberalização da imigração.

Na altura, as desculpas não lhe serviram de nada e o nome não passou no crivo dos senadores e dos congressistas. Mas, de acordo com o New York Times, a história pode não se repetir: com uma experiência de 20 anos no Senado norte-americano, o republicano tem agora mais aliados para enfrentar a confirmação de que precisa caso seja mesmo nomeado pelo Presidente norte-americano para o cargo de procurador-geral. Além de que, atualmente goza de um estatuto especial por ter sido o primeiro senador a declarar o seu apoio à campanha presidencial de Donald Trump.

Enquanto procurador-geral Jeff Sessions terá a seu cargo a responsabilidade de defender os direitos civis.