Quando chegou ao Governo, Mourinho Félix, primo de José Mourinho, foi chamado de “special two“. Esta sexta-feira fez jus ao apelido, com declarações polémicas ao jeito do treinador português. Provocador, incendiou a bancada adversária. Tudo corria morno, quando o secretário de Estado do Tesouro e Finanças atirou uma farpa dura a um vice-presidente da bancada social-democrata: “Ou o deputado Leitão Amaro tem um profundo desconhecimento do RGIC [Regime Geral das Instituições de Crédito] ou uma disfuncionalidade cognitiva temporária“. Estava aceso o rastilho.

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Durante sete minutos, Ferro Rodrigues não conseguiu ter mão na câmara. Foi audível a forte pateada na bancada do PSD, com vários protestos dirigidos à mesa e à bancada do Governo. A bancada socialista ficou quase toda petrificada. Sem reação. O próprio presidente da Assembleia da República deu, desde logo, uma reprimenda ao secretário de Estado, que avisou que podia “continuar, mas com respeito pelos deputados e pela câmara.”

O PSD continuou ao gritos e a bancada fazia barulho como uma verdadeira curva de claque. O PS continuava (quase todo) em silêncio e era José Soeiro, da bancada do Bloco de Esquerda, que defendia o governante em apartes. “Vocês é que ofenderam o país durante quatro anos”, disse Soeiro dirigindo-se à bancada do PSD.

Ferro Rodrigues tentou depois acalmar os ânimos: “Senhores deputados, o secretário de Estado vai continuar a intervenção, peço-lhes que permitam”. Continuava sem êxito. “Assim terei de interromper os trabalhos”, continuava Ferro. Ainda não foi desta: “Senhores deputados, num parlamento democrático, o secretário de Estado tem o direito de terminar a sua intervenção.”

O PSD continuava a tentar fazer interpelações à mesa para atacar o secretário de Estado. Ferro não permitia: “Senhores deputados, só há interpelações à mesa, após o secretário de Estado terminar a intervenção. Peço-lhe que continue, senhor secretário de Estado, e que resuma a sua intervenção”.

Mourinho Félix continuava a ser apupado e terá dito a Ferro Rodrigues que não havia condições para falar. O presidente da Assembleia da República voltou a ser demolidor para o governante: “Quem decide se há condições é a mesa, prossiga por favor“. O secretário de Estado lá continuou, mais nervoso do que antes, a intervenção. Retomou a pedir desculpa: “Peço desculpa aos senhores deputados se ofendi alguém”. E lá conseguiu terminar.

Após o fim da intervenção de Mourinho Félix, a bancada parlamentar do PSD, pela voz do vice-presidente Hugo Soares, acusou Ricardo Mourinho Félix de usar linguagem “absolutamente imprópria” e “indigna de quem ocupa lugares como aquele que o senhor secretário de Estado ocupa” . Ainda se ouviu o bloquista José Soeiro a dirigir-se a Hugo Soares, mais uma vez num aparte: “Olha quem fala!”.

O PSD não quis, depois disto, cavalgar na situação e os trabalhos continuaram com normalidade. Ferro Rodrigues agradeceu, em nome da câmara, ao PSD, pela reprimenda ao secretário de Estado na forma de “defesa de honra”. Mesmo na bancada socialista, houve quem achasse que o governante exagerou na expressão utilizada. “Esticou-se”, confidenciava um dos deputados do PS.

Para segundo plano ficou o conteúdo da intervenção de Mourinho Félix — antes da polémica — onde denunciou que “o projeto da direita sempre foi privatizar a CGD” e que as alterações legislativas que o PSD (em conjunto com CDS e BE) aprovaram na quinta-feira eram “um desrespeito desta câmara pelo Tribunal Constitucional.” O governante não poupou, assim, o Bloco de Esquerda. O secretário de Estado do Tesouro e Finanças explicou ainda que o Executivo defende uma “caixa pública e despartidarizada” e não deixará que “a direita venha destruir” aquilo que foi conseguido pelo Governo junto da Comissão Europeia.

Ao contrário de vários outros secretários de Estado, Mourinho Félix abandonou o hemiciclo pouco mais de meia hora depois do incidente. De mochila vermelha ao ombro.