Atualizado às 6h46 e às 12h53 de terça-feira, 20 de dezembro

Foi um ataque no coração de Berlim, numa das zonas comerciais mais movimentadas da cidade e num mercado de Natal frequentado por muita gente, incluindo turistas, nesta altura do ano. Eram 20h15 (19h15 em Lisboa) quando um camião Scania percorreu cerca de 80 metros na direção da multidão na praça Breitscheidplatz. A polícia confirmou 12 mortos e 48 feridos graves. Nenhuma organização reivindicou o sucedido, mas as autoridades alemãs já confirmaram que estão a tratar o caso como um ataque terrorista e não como um acidente. Um dos passageiros do camião morreu e acredita-se que o condutor terá sido detido pela polícia.

Ao final da noite os bombeiros abandonaram o local, permanecendo na zona as equipas de investigação da polícia e o perímetro de segurança fechado. O incidente de Berlim ocorreu poucas horas depois do assassinato do embaixador russo na Turquia por um alegado polícia que gritou “Alepo” e que é agora acusado de ter ligações a Fethullah Gülen; e também depois de um tiroteio em Zurique, na Suíça, numa sala de oração de um centro islâmico, deixando pelos menos três pessoas feridas.

A investigação ainda decorre. Mas o que se sabe até agora e o que falta saber?

As vítimas: 12 mortos e 48 feridos graves. Um suspeito detido

Morreram 12 pessoas, sendo uma delas o passageiro do camião, e pelo menos 48 ficaram feridas e foram encaminhadas para os hospitais de Berlim. Dezoito pessoas estão em estado muito grave, anunciou o ministro do Interior.

Além do passageiro que estava morto dentro do camião, um outro suspeito foi detido perto do local, em Tiergarten, depois de ter estado em fuga. Não há confirmação de que o suspeito detido seja o condutor e fontes policiais admitem que o verdadeiro autor do ataque ainda poderá estar a monte. O suspeito detido é um paquistanês que chegou à Alemanha em dezembro de 2015 e pediu asilo.

Na segunda-feira à noite, um porta-voz da polícia de Berlim confirmou a detenção, mas não revelou a identidade do detido. “Temos a descrição do condutor, que esteve em fuga primeiro. Com base nessa descrição um suspeito foi detido. Estamos a investigar se essa pessoa é ou não o motorista do camião. O suspeito foi detido nas redondezas, a poucos metros do local do ataque”, disse. A confirmação de que se tratava de um paquistanês foi dada pelo ministro do Interior alemão a meio da manhã de terça-feira.

À 1h44 desta terça-feira a polícia de Berlim confirmou que o homem encontrado morto dentro do camião é um cidadão polaco. Foi abatido a tiro, mas a arma do crime ainda não foi encontrada. O veículo tem matrícula da Polónia.

Camião foi “deliberadamente” atirado contra o mercado

A polícia de Berlim confirmou ao início da manhã desta terça-feira que está a encarar este assunto como um “provável ataque terrorista” e já tem a certeza de que o “camião foi conduzido deliberadamente contra a multidão no mercado de Natal de Breitscheidplatz”.

O tweet da polícia de Berlim que confirma a intencionalidade do ato:

O tweet que dá conta de que as autoridades estão a investigar a suspeita de ataque terrorista:

No início da madrugada de terça-feira, ainda antes de a polícia falar num ataque “deliberado”, o ministro alemão da Administração Interna, Thomas de Maizière, que esteve reunido com a chanceler Angela Merkel, disse à televisão ARD que não se podia chamar ao incidente um “ataque”, mas que tudo indicava que teria sido intencional. “Não quero usar já a palavra ‘ataque’, mas os eventos falam por si. Há um efeito psicológico da escolha de palavras muito grande, e por isso temos de ser muito, muito cuidadosos e evitar quaisquer especulações”, disse.

De acordo com a agência de notícias alemã DPA, a polícia acredita que o camião percorreu entre 50 a 80 metros a cerca de 60 km/hora na direção do mercado, não tendo feito quaisquer sinais de abrandamento. Além do mais, o acesso rodoviário ao mercado na praça de Breitscheidplatz, junto à Igreja Kaiser Williem, não é fácil.

mapa berlim

Zona onde ocorreu o incidente, na praça Breitscheidplatz, assinalada a vermelho, é uma zona comercial muito movimentada.

A investigação começou logo a ser tratada como um possível atentado terrorista, estando ainda bastante presente na memória o ataque de 14 de julho em Nice, quando os franceses comemoravam o feriado nacional e o jovem tunisino Mohamed Lahouaiej-Bouhlel conduziu um camião contra a multidão que acabava de assistir ao fogo-de-artifício no famoso Passeio dos Ingleses.

Em novembro, o departamento estatal norte-americano chegou a lançar um aviso aos turistas na Europa sobre o elevado risco de ataques terroristas em eventos relacionados com o Natal, incluindo mercados, protagonizados pelo Estado Islâmico, Al-Qaeda ou outras organizações terroristas. No comunicado divulgado pela Casa Branca, o porta-voz do Governo norte-americano classifica o incidente como “aquilo que parece ser um ataque terrorista” e disponibiliza toda a ajuda que os EUA possam dar ao seu “mais forte e próximo aliado”, que é a Alemanha.

Com menos cuidado do que o ministro alemão na escolha de palavras, Donald Trump acusou o Estado Islâmico e outros terroristas islâmicos pelo sucedido. Num comunicado enviado à imprensa, o presidente eleito dos EUA afirmou:

Civis inocentes foram assassinados nas ruas enquanto se preparavam para celebrar o Natal. O Estado Islâmico e outros terroristas islâmicos continuam a chacinar cristãos nas suas comunidades e nos seus locais de oração, como parte da sua jihad global. Estes terroristas e as suas redes regionais e mundiais têm de ser erradicados da face da terra, uma missão que levaremos a cabo com os nossos parceiros que amam a liberdade.”

O futuro presidente dos Estados Unidos da América também apelou no Twitter a que “o mundo civilizado mude de forma de pensar”:

Durante a operação no local a polícia pediu para não serem lançados rumores e para as pessoas evitarem divulgar vídeos na internet. Um vídeo divulgado precisamente nas redes sociais mostra um polícia alemão a dirigir-se às pessoas que estavam junto à praça no rescaldo do incidente a ordenar que “quem não tiver visto nada” se fosse embora, e quem tivesse de facto presenciado o momento o acompanhasse para colaborar com a investigação.

Mais tarde, as autoridades pediram às pessoas para enviarem fotografias ou vídeos que pudessem ajudar na investigação para um portal criado para o efeito. Foi também criada uma linha de emergência.

https://twitter.com/DannyNis/status/810930542686380032?ref_src=twsrc%5Etfw

O camião polaco desviado

O que também contribui para a tese de que se tratou de um ataque foi o historial associado ao camião. Trata-se de um camião Scania, de matrícula polaca, da cidade de Stettin, mas tudo aponta para que tenha sido desviado quando fazia o caminho Itália-Berlim e que o condutor original esteja desaparecido.

Segundo declarações do dono da empresa de camiões, Ariel Zurawski, à televisão polaca, o camião transportava uma carga de aço desde Itália e devia ter descarregado num endereço e Berlim esta tarde, mas a entrega não chegou a ser feita. Mais: o motorista que terá sido detido em Berlim não é o motorista que saiu da Polónia e que, por sinal, é primo do dono da empresa. “Tenho a certeza que não é ele”, disse Ariel Zurawski.

À France Press, Zurawski confirmou que o seu motorista estava desaparecido, e que não falava com ele desde o meio-dia. “Não sabemos nada dele desde o início da tarde. Não sabemos o que lhe aconteceu”, disse, garantindo que conhece o primo desde pequeno e que põe “as mãos no fogo” por ele. Tem 37 anos e transportava uma mercadoria de aço de Itália para Berlim.

De acordo com o gerente da empresa, Lukasz Wasik, “a empresa de Berlim onde devia ter sido feita a entrega não os pôde receber e pediu-lhes que voltassem na terça-feira”. Segundo disse o gerente à France Press, “perdemos contacto com ele às 3h da tarde, não sabemos o que lhe aconteceu, se foi feito refém, se foi morto, não sabemos nada”.

A tese mais forte é, por isso, a de que o camião foi desviado. “Devem ter feito alguma coisa ao meu motorista”, disse o dono da empresa à TVN24.

Os relatos das testemunhas

Várias são as testemunhas que partilharam o que viram nos órgãos de comunicação e nas redes sociais, não obstante os avisos das autoridades, e o Observador falou com duas elas.

Carolina Silva e Marian Vogel falaram com o Observador por e-mail e telefone. Carolina, uma portuguesa que trabalha em marketing digital em Berlim, garantiu que o ataque teve lugar “numa zona que está sempre cheia de gente”, especialmente no Natal, e que esteve para lá ir depois de sair do trabalho.

“Não são os ataques em si que provocam medo. Em Berlim a população é muito tolerante, os Verdes são uma força política muito forte mas qualquer ataque hoje em dia, mesmo antes de sabermos exatamente o que se passou, contribui para aumentar o medo do outro. Não se pode dizer que há intolerância em Berlim, mas há mais tolerância para com os intolerantes, como se pode ver pela subida da AfD, a Alternativa para a Alemanha, que é de extrema-direita”, disse Carolina ao Observador procurando explicar o sentimento geral em Berlim.

Já Marian Vogel, que estudou Relações Internacionais na Universidade de Nottingham no Reino Unido, vive a 15 minutos a pé da zona do mercado de Natal e diz ser “quase impossível não passar pela zona de Breitscheidplatz na altura do Natal”. E que também ele “tinha lá passado à tarde”.

“O que me assusta mesmo é a facilidade com que os meios de comunicação social começam logo a avançar teorias e culpados ligando, invariavelmente, estes ataques a um grupo específico de cidadãos. Berlim não está a ficar menos tolerante, mas esta especulação só vai causar mais problemas a médio prazo e por em causa a coesão dos valores europeus”, disse.

Uma das primeiras testemunhas a relatar o incidente, Emma Rushton, contou à CNN e ao The Guardian que o camião não abrandou ao entrar “cerca de 50 a 80 metros” pelo mercado de Natal a dentro e com velocidade. “Não foi um acidente. O camião ia a cerca de 60 km/hora, estava no meio da praça e não mostrava sinais de querer abrandar”, explicou. Segundo relatou, o camião chocou contra uma banca a poucos metros de onde se encontrava com os amigos a beber vinho quente. “Ouvimos um barulho enorme, derrubou as luzes todas, ficou escuro, depois só ouvimos gritos”, disse.

Como não sabia se o incidente tinha terminado ou se o camião ia voltar a andar, Emma diz que ficou quieta. “As pessoas das bancas de madeira esconderam-se lá debaixo. Não sabíamos se ia acontecer mais alguma coisa”, acrescentou. “Andamos até ao sítio onde o camião tinha parado e vimos pessoas feridas e sangue. Eram cerca de 10 ou 12 pessoas”.

Outra testemunha, Mike Fox, relatou à Associated Press que o camião passou a cerca de três metros de onde se encontrava, não o atingindo por pouco. “Foi de certeza um ato deliberado”, disse aquele turista inglês, acrescentando que ajudou algumas pessoas que ficaram presas nas bancas de madeira entretanto partidas.

Já o sub-diretor do Berliner Morgenpost explicou que as cabanas de vendas ficaram completamente destruídas e que havia luzes de Natal espalhadas por todo o lado, relatando um cenário de “devastador”.

Não há informação sobre existência de portugueses entre as vítimas

O Governo português não tem informações sobre a existência de portugueses entre as vítimas e permanece em contacto com as autoridades alemãs, disse hoje fonte oficial. A fonte do gabinete do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Luís Carneiro, disse à Lusa que o Governo está “em contacto com a polícia alemã”, acrescentando não ter conhecimento de pedidos de ajuda de portugueses à embaixada em Berlim.

O que falta saber

  • Se o suspeito detido é de facto o responsável pelo ataque;
  • O paradeiro do motorista polaco, que conduziu o camião desde a Polónia em direção a Itália, e que deveria ter feito a entrega em Berlim. O dono e o gerente da empresa de transportes garantem que o homem que conduziu o camião em direção ao mercado de Natal não era o seu motorista, mas não é certo que assim seja. Também ainda não está confirmado se o passageiro polaco assassinado era o motorista;
  • O número exato de vítimas: 48 pessoas permanecem feridas com gravidade.