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Alexei Navalny não tem simpatia por Vladimir Putin — o qual acusa de ter “sugado” a Rússia desde que ascendeu ao poder para não mais o abandonar. O atual presidente, por sua vez, verá certamente em Navalny uma ameaça. Não que até hoje a oposição deste tenha abalado as sucessivas vitórias do regime e do partido de Putin, o Rússia Unida. Mas abalou-as.

Alexei Navalny pondera candidatar-se às eleições presidenciais do próximo ano, combatendo o “estado feudal” que se instalou na Rússia, um país no qual, critica Navalny, “a maior parte da riqueza nacional é detida por uma percentagem ínfima de oligarcas”. Porém, e apesar da vontade há muito expressa pelo opositor de Putin, a lei não permitirá que este se candidate: em fevereiro, Alexei Navalny foi condenado em tribunal por desvio de fundos públicos, o que o impede de ser elegível para qualquer cargo político.

Navalny descreveu o julgamento a que foi sujeito como “uma falácia” e uma “represália” por ele ser uma voz crítica.

Adversário de Putin na Rússia condenado por desvio de verbas

Mas esta não é a primeira vez que foi a julgamento. Pouco depois da última eleição de Putin, Alexei Navalny foi detido, julgado e condenado a cinco anos de prisão. Então, recorreu para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e para o Supremo Tribunal de Justiça russo. A pena seria anulada e Navalny libertado.

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Mas porque é que Alexei Navalny é persona non grata para o regime? Para responder a esta questão é necessário recuar até meados de 2013, pouco tempo depois da sua libertação. Nessa altura, Navalny concorreu às eleições legislativas e, apesar de não ter sido eleito presidente da câmara de Moscovo, vendeu cara a vitória a um dos maiores aliados de Putin, Sergei Sobyanin. A escassa derrota de Alexei Navalny é ainda mais impressionante se recordarmos que não teve autorização para fazer campanha ou participar em debates na TV, focando toda a sua candidatura nas redes sociais e no blogue onde escreve.

O blogue é, precisamente, e desde meados de 2008, a força motriz deste opositor do regime. Nele escreveu no começo sobre más práticas e corrupção no interior das maiores empresas estatais russas. E escreveu com conhecimento de causa: fez-se acionista minoritária de petrolíferas ou bancos, por exemplo, sendo a voz incómoda nas reuniões de acionistas e expondo o que nelas se dizia.

A linguagem de Alexei Navalny na escrita é de guerrilha, até provocatória, atacando o establishment e voltando-se a um eleitorado jovem e, sobretudo, insatisfeito.

Não concorreria às eleições parlamentares de 2011, mas teve uma intervenção política, apelando ao voto em “qualquer partido” que não o Rússia Unida. O partido afeto a Putin venceria, mas viu a sua maioria diminuir. Mais: pouco depois da vitória eleitoral, a acusação de fraude eleitoral feita por Navalny colheu frutos e levou a uma série de manifestações em Moscovo e em diversas cidades por toda a Rússia. O opositor seria detido e condenado a uma pena de 15 dias de prisão.

Se duvidas houvesse de que incomodava (e de que maneira) Putin, as dúvidas dissiparam-se então.

Caso, e tal como da primeira vez, a pena a que foi condenado seja anulada, teremos candidato (é o próprio Alexei Navalny quem promete há muito combater na urnas os “trapaceiros e ladrões” que tomaram o poder na Rússia) às presidenciais. Resta saber se contra Putin ou não. O atual presidente poderá recandidatar-se a mais seis anos de mandato, mas continua por anunciar se o fará.