O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, demitiu esta terça-feira o diretor do FBI, James Comey. A demissão de Comey surge numa altura em que o FBI admitia publicamente investigar os alegados contactos mantidos entre a campanha de Trump e o Kremlin durante as presidenciais norte-americanas. A propósito da investigação, o diretor do FBI chegou a assumir quarta-feira no Senado: “Nós seguimos as provas onde quer que elas nos levem”.

O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, em comunicado, apenas referiu que “o presidente aceitou a recomendação do procurador-geral [Jeff Sessions] sobre a demissão do diretor do FBI”. Spicer não adiantou, contudo, as causas do despedimento de Comey.

Em carta endereçada a James Comey esta terça-feira — uma carta divulgada pelo New York Times, mas que CNN garante ter sido entregue por um guarda-costas do presidente no FBI (sem que Comey a tenha recebido em mãos, pois não se encontrava no gabinete) –, Donald Trump refere ao diretor do FBI que “embora aprecie o facto de me terem [FBI] informado que não estou a ser investigado, concordo com o acórdão do departamento de Justiça”, um acórdão segundo o qual James Comey “não pode liderar o FBI”. E acrescenta Trump, na mesma carta enviada a Comey: “É essencial que encontremos uma liderança para o FBI que restabeleça a confiança pública na sua missão vital de aplicação da lei”.

Pouco depois de o porta-voz Spicer ter comunicado oficialmente a demissão do diretor do FBI, também Donald Trump emitiu um depoimento onde se pode ler que “o FBI é uma das instituições mais queridas e respeitadas da nossa nação”, referindo-se a esta terça-feira e à demissão de James Comey como “o dia que marcará um recomeço para a nossa joia da coroa [FBI] da aplicação da lei”.

Ainda esta terça-feira à noite, a Casa Branca divulgou o que escreveu a Trump o procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, Rod Rosenstein, para fundamentar a demissão do diretor do FBI. “Não posso defender o diretor [do FBI] na forma como lidou com o inquérito aos e-mails da secretária de Estado [Hillary Clinton] (…) assim como não entendo a sua recusa em aceitar o julgamento quase universal de que ele estava errado [quando resolveu enviar ao Congresso uma carta na qual assumia que Hillary podia ter violado a lei]”, lê-se na carta de Rosenstein.

James Comey foi indicado para o cargo de diretor em 2012 pelo então presidente Barack Obama. O mandato do diretor do FBI tem a duração de dez anos, ou seja, Comey está ainda a três anos de conclui-lo.

As críticas de Hillary e a investigação a Trump

No começo do mês, e depois de praticamente meio ano de silêncio, Hillary Clinton falou pela primeira vez da derrota nas eleições norte-americanas durante a conferência “Woman for Woman”, que decorreu em Nova Iorque. Clinton assume a “absoluta e pessoal responsabilidade” pela derrota de novembro, contudo reconhece que dois “fatores externos” tiveram influência na quebra do seu “momentum” [fora durante meses a favorita a vencer nas sondagens] eleitoral: o diretor do FBI, James Comey, e a pirataria informática russa.

Segundo Hillary, caso James Comey não tivesse escrito ao Congresso a 28 de outubro — uma carta na qual assumia que Hillary podia “ter violado a lei” ao ter usado um servidor privado de e-mail enquanto secretária de Estado no primeiro mandato de Barack Obama –, e caso hackers russos não tivessem roubado mais de dois mil e-mails do diretor de campanha de Hillary, John Podesta, e-mails que foram divulgados pelo site WikiLeaks e que dizem, na maioria, respeito a jogadas de bastidores, estratégia de campanha e discussão de passos a tomar por parte da equipa de Hillary, a ex-secretária de Estado acredita que seria hoje presidente. “Estava perto de ser eleita presidente dos Estados Unidos até que uma combinação entre a carta de Jim Comey e a WikiLeaks criaram dúvidas na cabeça das pessoas que estavam inclinadas a votar em mim e se assustaram”, lembrou Hillary Clinton.

Na última quarta-feira, James Comey defendeu a sua decisão de notificar o Congresso sobre os e-mails relacionados com a investigação a Hillary Clinton a menos de duas semanas das eleições presidenciais norte-americanas. Numa audiência no Senado, Comey referiu que qualquer sugestão de que essa decisão possa ter influenciado o resultado o deixa “maldisposto”. Estas foram as primeiras declarações oficiais de Comey sobre o assunto.

Baseei toda a minha carreira na tradição de que, se possível, evitasse qualquer ação que, antes de uma eleição, possa ter algum impacto”, disse James Comey ao Senado. Não enviar a respetiva carta ao Congresso seria, na opinião do diretor do FBI, “um ato de ocultação”. “Falar seria muito mau, porque havia uma eleição dentro de onze dias. Ocultar, no meu ponto de vista, seria catastrófico”, acrescentou Comey.

O diretor do FBI garantiu ainda ao Senado que tratou de forma igual os e-mails relacionados com Donald Trump e os de Hillary Clinton. No entanto, e questionado sobre se o atual presidente dos Estados Unido pode vir a ser um alvo de investigação por parte do FBI, Comey afirmou que assumi-lo não passava de “especulação”. “Nós seguimos as provas onde quer que elas nos levem”, começou por dizer, atirando em seguida: “Não estou do lado de ninguém”.

Vale a pena lembrar que, em março deste ano, Comey revelou perante os senadores que as ligações russas à campanha presidencial de Donald Trump estavam a ser investigadas, tendo, inclusive, admitido que “se é do interesse público, nós divulgamos”.

No entanto, a relação entre Trump e Comey foi, até hoje, de amor-ódio. Ainda durante a campanha eleitoral, e a poucos dias de os norte-americanos votarem, Trump elogiou publicamente a carta enviada pelo diretor do FBI ao Congresso, afirmando que foi “preciso coragem” para o fazer. “O que ele fez trouxe de volta sua reputação”, acrescentaria o então candidato republicano. No começo do mês, numa declaração publicada no Twitter, o presidente dos Estados Unidos seria duro nas críticas, acusando Comey de ser “a melhor coisa que aconteceu a Hillary Clinton”, pois deu-lhe um “livre-trânsito para muitas más ações” que tomou.

A demissão de James Comey traz à memória o “Massacre de Sábado à Noite”, a 20 de outubro de 1973. Nesta data infame, o então presidente Richard Nixon exigiu ao procurador-geral adjunto dos Estados Unidos, Elliot Richardson, que demitisse Archibald Cox, o procurador responsável por investigar o caso “Watergate”. Quando Richardson se recusou a fazê-lo, Nixon exigiu que o procurador-geral adjunto William Ruckelshaus o fizesse. Ruckelshaus também se recusaria. Ambos deixariam os cargos. Foi preciso ao presidente dos Estados Unidos recorrer, por fim, ao procurador-geral Robert Bork, que trataria de apressar a demissão de Archibald Cox. Mas mesmo com Cox fora de cena, Richard Nixon nunca conseguiu recuperar a sua credibilidade, o caso “Watergate” não se diluiria como Nixon desejava, e o presidente deixaria a Casa Branca nove meses mais tarde.