Pelas ruas do Festival Tremor deste ano andava um “coelho”, um homem adulto de barba grisalha a passear-se entre concertos, a distribuir abraços e sorrisos e selfies. Inevitavelmente, uma pessoa vestida de coelho dá nas vistas, ainda por cima em Ponta Delgada, num evento que se esgota com 1.500 bilhetes e que se faz de momentos particularmente intimistas, como aqui e aqui demos conta.

Nada de novo, aparentemente. Mas um email de um leitor alertou-me para o facto de não se tratar de mais um “figurante engraçado”, daqueles que muitas vezes aparecem só porque sim, pelo gozo de dar nas vistas. Havia naquele figurino um propósito importante.

Vi-o pela primeira vez no primeiro concerto de sábado, no pátio que recebeu o Coelho Radioactivo – uma coincidência impossível de deixar escapar, tal como ele próprio. Reencontrei-o mais tarde, à entrada do Ateneu Comercial, no meio da multidão que esperava o já muito atrasado espetáculo dos Drinks, o que lhe deu tempo para tirar mais umas fotografias com os curiosos que se metiam com as orelhas cinzentas. Sempre simpático e sorridente, recebeu-me já nas escadas de acesso ao Ateneu, minutos antes de começar o barulho.

O “coelho” chama-se Filipe Falé, 37 anos, é o baixista dos Pulmonic e tem uma história para contar.

Filipe Falé conta a sua história a Adolfo Luxúria Canibal, dos Mão Morta – Festival Tremor, Ponta Delgada

Veste-se de coelho “porque sofre de afasia”, uma condição que se caracteriza pela dificuldade em entender e produzir linguagem. Filipe tem dificuldade em formular praticamente todas as frases. De forma lenta e pausada, explicou-nos que sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em julho de 2016, em pleno palco, durante um espetáculo no Barreiro. Filipe cantava na banda do irmão, que estava a substituir por este se encontrar afónico.

“Não interrompeu o concerto, mas senti”, explica Filipe. Ouviu um “estalo” no ouvido direito (teve um AVC do lado esquerdo) e sentiu fortes dores de cabeça. No dia seguinte, já em casa, no Algarve, notou que as mensagens de texto que escrevia não faziam sentido e que lhe começavam a “faltar palavras”.

As horas iam passando e as dores de cabeça aumentavam. Quando a mulher e a mãe entraram em casa, quis dizer-lhes “boa tarde” e não se percebeu nada, o que saiu foi um som atabalhoado e sem nexo. “Na altura deu-me para rir muito, mas passados 15 minutos percebemos que algo não estava bem”, contou Filipe Falé.

As causas deste AVC não foram devidamente esclarecidas, mas poderá ter-se dado, disse-nos o artista, devido ao stresse ou ao excesso de força vocal durante a atuação.

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  • As doenças cerebrovasculares continuam no topo do ranking de mortalidade prematura em Portugal, de acordo com dados do IHME;
  • Por hora, três pessoas são vítimas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) em Portugal. Destes, um não sobrevive e, pelo menos, outro ficará com sequelas incapacitantes (dados da SPAVC);
  • Abaixo dos 49 anos de idade, a taxa de mortalidade do AVC nos homens é sensivelmente o dobro da das mulheres: cerca de um em cada 100 mil homens (dados da Direção-Geral da Saúde, 2010).

O que o leva a andar vestido assim explica-se na resposta simples que deu a essa pergunta: “Tu e eu só estamos a ter esta conversa porque eu estou vestido de coelho”. E concretiza o poder da imagem, explicando que as pessoas quando olham para ele acham que se trata de “um tipo normal vestido de coelho. De coelho?! Depois começam a brincar e a tirar fotografias.” Para troca, Filipe dá-lhes um cartão e partilha a sua história.

Filipe Falé incumbiu-se da missão de falar da afasia, de “não ter vergonha”. O artista que se veste de coelho nos festivais de música está a fazer um documentário dirigido aos jovens e, em particular, aos músicos. Sim, porque foi a música que o “deixou assim”. Mas fá-lo sobretudo por todos os doentes que sofrem de afasia, uma consequência comum do AVC, que acontece também em jovens saudáveis.

O artista português pretende angariar 30 mil libras para realizar o documentário e para doar a três instituições: a Stroke Association, a Aphasia Reconnect e o Hospital de Faro, onde recebeu tratamento e iniciou o programa de recuperação. A história e objetivos da iniciativa estão detalhados nesta página.

Filipe Falé continua a tocar e a cantar todos os dias, “porque ajuda à recuperação” e porque não perdeu a esperança de ter de volta a plena destreza física e vocal. Entretanto, está quase de partida para o próximo festival, o maior no plano de gravações do documentário: o Primavera Sound, em Barcelona. Pode acompanhar essa viagem no Facebook e Instagram.