A Volkswagen é frequentemente apontada como a mais refinada das marcas generalistas, mas o fabricante germânico parece que, volta e meia, ainda não desistiu de disputar o mercado de luxo, também denominado de premium, onde a sofisticação e a potência das mecânicas caminham de mãos dadas com um design mais rebuscado, equipamento a rodos e, como não podia deixar de ser, preços mais elevados (com margens de lucro a condizer).

É claro que com os modelos mais populares não se brinca, pelo que do Polo ao Passat, passando pelo Golf, o bestseller da companhia, tudo permanece o mais conservador possível. Mas o Passat CC, descontinuado há algum tempo, forneceu a oportunidade que faltava à marca líder do Grupo Volkswagen – que foi quem mais veículos vendeu à escala global em 2016 –, de tentar mais uma vez imiscuir-se na guerra tradicionalmente reservada à Audi dentro do grupo, e que consiste em fazer frente à BMW e à Mercedes.

Porquê o Arteon?

Dizer que o Arteon deriva do Passat é um understatement. Se bem que seja produzido na mesma fábrica, a base do novo modelo é a plataforma MQB, a mesma que serve tudo o que é automóveis da casa, do Golf ao Passat, graças à sua capacidade de esticar ou encolher, tanto em largura como em largura, à semelhança do que já acontecia com o CC. Só que, entretanto, o mercado mudou e passou a existir uma maior procura por veículos familiares, mas com um toque de coupé, com formas mais esguias e, por tabela, elegantes. É o caso do A5 Sportback, BMW Série 4 Grand Coupé e Mercedes CLA e CLS. E é a estes que o Arteon aponta as suas armas.

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Questionados pelo Observador sobre se a estratégia seria a melhor, pois será sempre difícil combater a BMW e Mercedes sem, no processo, canibalizar a “irmã” Audi, os responsáveis pelo projecto confessaram-nos que existe cada vez mais clientes que, procurando um veículo com o estilo, a qualidade, a mecânica e a profusão de equipamento do segmento premium, preferem um modelo com um emblema mais discreto.

É giro?

É. E, de caminho, estreia a nova imagem da marca para os veículos mais sofisticados e dispendiosos, uma vez que esta nova frente, com a grelha mais rasgada e de maiores dimensões, é bem provável que surja igualmente no novo Touareg. Apesar de inúmeras tentativas, nunca conseguimos que os responsáveis da Volkswagen nos confirmassem este facto mas, curiosamente, também não o desmentiram.

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À frente com mais personalidade, nitidamente mais atraente, o novo modelo alia uma carroçaria mais esguia, com pilares A e C mais inclinados e finos, destinados a conferir-lhe o tal ar de coupé, hoje tão em voga. E, para reforçar esta sensação de leveza, em termos de design, a marca aboliu os aros das portas, à semelhança do acontece com os coupés desportivos. Mas esta opção, se favorece a estética, penaliza o peso, ajudando a explicar um incremento de 142 kg face ao Passat, em igualdade de motorização (2.0 TDI de 150 cv). Obviamente, o facto de ser substancialmente mais comprido, ajuda a explicar a variação do peso.

Que diferenças tem em relação ao Passat?

Para início de conversa, é muito maior e nem sequer é necessário uma fita métrica para constatar esta realidade. Anuncia 9,5 cm a mais no comprimento e 4,6 cm na distância entre eixos, pelo que a Volkswagen pretende combater os seus rivais com um modelo muito mais generoso em termos de bitola.

As portas não têm aro superior, como já referimos, mas mesmo com o vidro a meio, este não vibra, o que significa que prescindem das guias laterais e superior para evitar que o vidro vibre e produza ruído, tarefa difícil face à dimensão das portas.

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Como está disponível com jantes de 20 polegadas (a partir de 17” nas versões mais simples e acessíveis), o Arteon possui cavas de rodas maiores, até para ajudar a disfarçar as suas reais dimensões, mas são as jantes grandes e os pneus de baixo perfil – obviamente mais eficazes em comportamento em curva, mas igualmente menos confortáveis, pela menor capacidade de absorver as irregularidades devido aos ombros mais rijos – que obrigaram a rever a suspensão regulável e adaptativa DCC (Dynamic Chassis Control), que agora passa a beneficiar de amortecedores com novas válvulas. E, porque a sofisticação é a palavra de ordem, a nova solução permite uma variação em contínuo do DCC, além da referente aos distintos modos de condução.

Por dentro está à altura dos concorrentes premium?

O habitáculo é um dos trunfos do Arteon, pois se os materiais são bons e a construção é sólida, o espaço disponível não deixa ninguém indiferente. Sinceramente, gostaríamos de ver um tablier e painéis de porta mais diferenciados dos utilizados no Passat, com os técnicos do fabricante a responderem de forma sucinta à nossa observação: “Em equipa que ganha não se mexe.”

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Contudo, a Volkswagen não se limitou a fazer um carro grande, especialmente para quem se senta atrás. Os alemães pensaram também na acessibilidade, pelo que, ao contrário de alguns concorrentes, neste familiar com formas de coupé entra-se e sai-se do banco posterior sem bater com a cabeça no pilar C. E, uma vez sentado – no assento da retaguarda cabem até três adultos, mas apenas dois viajam com o máximo conforto em deslocações mais longas – há espaço para a cabeça, mesmo para os mais altos.

A mala é outro dos argumentos para cativar compradores deste coupé com espaço para a família, pois ao oferecer 563 litros em condições normais, para depois incrementar a capacidade até aos 1.557 litros com o rebatimento dos assentos posteriores, o Arteon bate mesmo muitas carrinhas.

E, como coupé que é, dá gozo conduzir?

Os primeiros quilómetros percorremo-los em modo Comfort, tentando perceber até que ponto o Arteon consegue lidar com uma utilização despreocupada, no dia-a-dia. É certo que estradas esburacadas é coisa que não abunda no norte da Alemanha, mas ainda assim, com a suspensão no modo mais macio, o sucessor do CC mantém o conforto num nível raro para um carro alemão, especialmente por ter montados uns pneus com 20” de diâmetro. E, mesmo forçando o andamento um pouco mais, a unidade colocada à nossa disposição, equipada com o motor 2.0 TDI de 240 cv, devorou as curvas – e as rectas também – com grande à vontade. A ponto de sentirmos necessidade de confirmar que estávamos mesmo em Comfort.

Saltando directamente para o modo Sport, começamos por percorrer um troço de auto-estrada em que, felizmente, não havia limite de velocidade. Apesar de estarmos decididos explorar ao máximo os 245 km/h anunciados pelo fabricante, a verdade é que não conseguimos ultrapassar os 225 km/h devido às condições de trânsito, com o Arteon a fazer jogo igual com as potentes berlinas e desportivos que abundam por aquelas paragens.

Finalmente numa estrada sinuosa, foi altura de experimentar a agilidade de um modelo que anuncia mais de 4,8 metros de comprimento. As acelerações impressionam, ou não reivindicasse a versão em causa apenas 6,5 segundos de 0 a 100 km/h. Mas mais do que a capacidade de aceleração, impressionou-nos a facilidade com que o modelo descrevia as zonas mais sinuosas. Os pneus de muito baixo perfil e grande diâmetro ajudam, tal como acontece com a suspensão com uma taragem mais dura, mas é sobretudo a imensa largura de vias e a reduzida altura, o que faz maravilhas ao centro de gravidade, que explicam a eficácia.

E, mesmo quando abusávamos da sorte, o Arteon nunca se fez esquisito, com uma direcção progressiva (similar à do Golf GTI) a revelar-se precisa e a tracção integral 4Motion a impedir qualquer perda de tracção, mesmo quando esmagávamos o acelerador. E com consumos que oscilavam entre os 6,1 litros, quando conduzíamos de forma mais civilizada, e cerca dos 9 litros sempre que decidíamos explorar tudo o que os 240 cv tinham para dar.

Há novidades no equipamento?

Em matéria de equipamento, o Arteon inclui tudo o que a Volkswagen tem para oferecer nos seus modelos, bem como a maioria dos dispositivos que a Audi propõe aos seus clientes, pelo que, neste capítulo, o novo coupé rivaliza com os melhores em termos de soluções viradas para o conforto, segurança e conectividade.

Será o sistema de iluminação activa que vai fazer a diferença para quem aprecia os avanços tecnológicos, com este Arteon a ser o primeiro modelo que cruza, a este nível, os sistemas de ajuda ao condutor com o GPS e o sistema de navegação, para se tornar mais eficaz – a Porsche, outro construtor do Grupo Volkswagen, introduziu também algumas destas soluções no novo Panamera, mas de forma menos exuberante. Enquanto o Light Assist permite apontar os faróis LED para o interior da curva e dos cruzamentos, segundos antes de lá chegar, o Predictive Cruise Control (PCC) faz com que o Arteon reduza a velocidade sempre que se aproxima de uma zona em que os sinais verticais a isso aconselham, ou de uma povoação. Mas para evitar sustos desnecessários, o PCC consegue ainda prever quando se aproxima um cruzamento ou uma curva mais lenta, que seja impossível de descrever à velocidade programada no cruise control e desacelerar ou mesmo travar, para evitar um acidente.

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O Arteon estreia igualmente o Emergency Assist, dispositivo capaz de despertar o condutor se este se deixou dormir ao volante, ou estacionar o veículo o mais à direita possível da faixa de rodagem, caso quem vai aos comandos tenha desmaiado ou sido vítima de um AVC.

Arteon R-Line

A gama do novo coupé é composta por três versões distintas, sendo a Base a mais simples e acessível, apesar de já incluir um nível de equipamento muito acima do que é habitual. Daqui o Arteon evolui para a versão Exclusive, a mais refinada e luxuosa, e para a R-Line, de cariz mais desportivo, que se distingue das restantes por apresentar um pára-choques frontal mais rasgado na zona inferior, para alojar maiores entradas de ar, e um pequeno spoiler colocado sobre a tampa da mala. Nada de muito exuberante, mas ainda assim a fazer a diferença.

Quanto custa e será que vale a pena?

O novo Arteon vai estar disponível com motores a gasolina e diesel, com os segundos a fazerem-se representar pelo 2.0 TDI nas versões com 150, 190 e 240 cv. Os motores a gasolina serão encabeçados pelo 2.0 TSI de 280 cv (limitado electronicamente a 250 km/h, mas capaz de ir de 0 a 100 km/h em somente 5,6 segundos), com a versão mais acessível a ficar a cargo do novo 1.5 TSI de 150 cv (que estará disponível apenas no final deste ano) e que se caracteriza por possuir a capacidade de desactivar dois dos quatro cilindros quando não necessita de muita potência, reduzindo consumos e emissões nocivas. Entre ambos vai surgir uma nova versão do 2.0 TSI, mas agora com 190 cv, inovadora em diversos aspectos, mais uma vez visando consumos e emissões, apesar de assegurar níveis muito interessantes em termos de acelerações e velocidade máxima (veja aqui).

O novo coupé da Volkswagen será proposto em Portugal por valores a partir de 43.000€, correspondente à versão Base equipada com o motor 2.0 TDI de 150 cv com tracção às rodas da frente. São cerca de 5.000€ a mais, face ao Passat com mecânica equivalente, mas com a vantagem de incluir já sistemas como o cruise control adaptativo e o assistente de faixa de rodagem, entre outros. Quanto ao DCC, apenas estará disponível nas versões mais potentes, com os níveis de equipamento Exclusive e R-Line.

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Quanto ao sistema PCC, o tal que evita multas e cumpre os limites de velocidade e se prepara para as curvas e cruzamentos difíceis que se aproximam, só deverá chegar ao nosso país a partir de Novembro, segundo os responsáveis pela marca no mercado nacional. Os alemães estavam contudo bem menos optimistas, queixando-se que devido à confusão e profusão de sinais, muitas vezes contraditórios – realidade que os condutores portugueses bem conhecem – estavam a sentir algumas dificuldades em fazer funcionar de forma satisfatória o Predictive Cruise Control em Portugal e Itália, apesar de o terem já optimizado para o resto da Europa, vizinha Espanha incluída.