Se a ideia é saber o que OK Computer fez ao mundo, é difícil explicá-lo melhor do que fez o amigo João quando há uns dias recordou que em 1997 o rock’n’roll — pelo menos o rock’n’roll como o conhecíamos — deixou de existir. Para lá desta visão geral e histórica dos acontecimentos, existe o que OK Computer fez a cada um daqueles que o ouviu. Aí, como acontece com qualquer outro disco, tudo depende das circunstâncias. Mas é raro encontrar alguém que não tenha afeto especial pelo álbum porque, de alguma forma, aquela sequência perfeita de 12 canções lhe mudou a vida. “Mas é só um disco.” Enfim, se é por aí que segue a discussão, nem vale a pena.

Como não vai seguir por aí, vamos em frente. OK Computer junta duas coisas que raramente vemos unidas assim, como este álbum mostrou há 20 anos: forma e conteúdo. O sonho de toda a gente, em tudo o que existe. Forma e conteúdo. Neste caso da música, canções perfeitas (ou seja, que nos prendem todos os sentidos) e uma história tão pessoal como abstrata, que funciona como exorcismo e mensagem (vai tudo de quem a recebe).

Uma banda a descobrir o mundo quando o “ser adulto” (#tristeza) se impôs, um mundo inevitavelmente autodestrutivo, impessoal e livre de emoções; uma banda a redescobrir-se a si própria enquanto força criativa, a fugir de tudo o que tinham feito até então sem fugirem de coisa nenhuma. Parece complicado? É porque é. Já dizia o outro: se fosse fácil…

“OK Computer 1997 – 2017: OKNotOK”, dos Radiohead (XL; Popstock. Edição a 23 de junho)

“Paranoid Android”, “Exit Music”, “Climbing Up The Walls”, “The Tourist”, vá lá, a sério, onde é que alguma vez voltámos a ouvir coisas assim? Guitarras que se transformam em coisas digitais, digitalismos que nascem de carne, osso e sangue; melodias, harmonias, quase-sinfonias, máquinas que falam, palavra de honra que há de tudo isto em OK Computer. “O teu mundo vai acabar se não fizeres nada contra isso”, era por aí que seguia o disco, dramático nos poemas e nos arranjos. A globalização, o consumismo, a merda que pode ser fazer parte de uma banda de enorme sucesso, a alienação, a ausência de individualismo. Gente: ainda nem sequer havia internet (não de uma forma consistente, vá). O que fizemos nós? Nada.

Por isso, 20 anos depois, isto funciona tudo na perfeição, continua a ser tudo verdade e receber uma reedição bonita e cuidada do disco é uma benção, mais vale aproveitar. E, já agora, imaginem o que faz um garoto a caminho de ser maior de idade quando bate de frente contra tudo isto. Fica estragado para a vida e ainda agradece.

[“Man Of War”, uma das canções incluídas no segundo disco desta reedição]

No centro de tudo estava Thom Yorke, o mais problemático dos psicoterapeutas. O gajo que dá respostas, expõe problemas e deixa avisos de sobrevivência mas que há décadas luta ele próprio pela manutenção na liga — só pode, ele que nem tente enganar-nos e dizer o contrário, não ao longo de tantos anos e tantas canções. Ele tem questões por resolver e quer resolver as questões do universo. É ambicioso e faz discos com essa ambição. Fez OK Computer com o objetivo de mudar o mundo e conseguiu.

Dessa ambição saíram-lhe muita canções. As doze que chegaram ao álbum e outras 11 que durante anos viajaram em lados B de singles, compilações pouco ou nada oficiais e serviços de download ilegal nas coisas da internet. Muitas vezes com mau som, sempre separadas umas das outras. E são essas 11 que agora compõem um segundo disco desta edição especial.

[“Paranoid Android”, o primeiro single de “OK Computer” em 1997]

Não há nenhuma canção do segundo disco de OKNotOK que supere qualquer outra do primeiro disco. Ou talvez seja possível discutir isso em relação a “I Promise”, a melhor confissão cantada de que há memória (pelo menos neste momento), a mais perfeita entrega total transformada em canção e nem sequer tem refrão, não precisa, é perfeita como está. E falta “Follow Me Around”, aquele tema que todo o fanzaço de Radiohead se gaba de conhecer porque ainda tem a cassete VHS com o documentário “Meeting People is Easy”, aquele tema que nunca foi oficialmente editado em lado nenhum e ainda bem porque isso quer dizer que ainda há segredos e descobertas por fazer neste mundo.

[o vídeo para “I Promise”]

Voltando umas linhas acima: não há nenhuma canção do segundo disco que supere qualquer uma do primeiro mas estas 11 juntas mostram como OK Computer não foi um acidente, não foi obra do acaso. O trabalho dos Radiohead entre The Bends e Kid A (álbuns de 1995 e 2000) foi uma revelação, uma epifania. Foi a construção de um novo mundo musical a partir dos vários que formaram a banda. Foi a sintonia perfeita entre vontade, capacidade, ambição e desespero. Mas atenção, nenhuma das 11 do disco 2 é melhor porque o disco 1 é aquela besta inultrapassável. Se assim não fosse andávamos aqui todos a cantar outras notas.

“Man of War” é a ironia da vida no geral e a de cada um de nós em particular; o gozo de brincar com acordes que é “Lift”; a habitual mania que os Radiohead têm em ser o Pai Natal dos desgraçados está em “Lull”; brincar às coisas dos sons e dos estúdios em “Meeting in the Aisle”, “A Reminder” e “Melatonin”; as grandes, grandes canções que são “Polyethylene”, “Pearly” e “Palo Alto”; e Thom Yorke em casa, sozinho ao piano, para fechar como tinha de ser, com “How I Made My Millions”.

Quem nos dera ter estado em estúdio com estes cinco que entre 96 e 97 resolveram chegar perto da autodestruição para construírem a boa nova. É o que costumam fazer os messias, é mais ou menos isto, certo? Depois se alguém presta atenção ou não, enfim, essa é outra história. Tudo se mantém inalterado desde há 20 anos e OK Computer ainda é um dos melhores discos da história da música pop. Esta nova edição recorda-o, reforça-o e recupera tudo da melhor maneira. OK?