É uma embarcação turística, chama-se ‘El Almirante’ e já tinha naufragado duas vezes. Na primeira vez, perto da conhecida Ilha da Fantasia, a proximidade da Marinha evitou uma tragédia; na segunda, à noite, não levava qualquer passageiro. Agora, vitimou pelo menos nove pessoas e existem cerca de 30 pessoas ainda desaparecidas.

O naufrágio da embarcação de recreio no lago de El Peñol de Guatapé, na Colômbia, a 45 quilómetros de Medellín, continua envolto em mistério. Muitas pessoas falam de uma possível sobrelotação como causa do acidente, mas foi o próprio presidente do país, Juan Manuel Santos, a refutar essa possibilidade. Então, o que aconteceu?

Nora Raquel Pérez era uma das 170 pessoas que estavam na embarcação quando, apenas cinco minutos após o início da viagem, se deu o naufrágio. “O capitão começou a gritar e a dizer para fazermos uma série de movimentos. Disse-nos para irmos para um lado, depois para outro, por fim para a frente, mas o barco começou a afundar-se”, contou citada pelo El País, antes de explicar que o capitão foi o primeiro a atirar-se, pedindo às pessoas que fizessem o mesmo para serem salvas. “O meu primo partiu um dos vidros panorâmicos e lançámo-nos à água. Não sei nadar e não sei como flutuei”, disse. “Os organismos de socorro demoraram muito tempo a chegar. Estou com hipotermia, à espera dos meus familiares que vão trazer roupa seca”, concluiu.

“As pessoas compraram os bilhetes e foram-se acomodando ao longo dos quatro pisos do barco. Não entregaram a ninguém coletes salva-vidas, mas vi alguns no segundo piso”, disse María Álvarez ao jornal El Colombiano. A CNN explicou entretanto que o mau tempo e o cair da noite suspendeu as buscas.

Começámos a ouvir um som muito forte de lado e na casa de banho dos homens. Uma das raparigas que nos estava a atender no barco começou a gritar quando começou a ver a água a entrar na embarcação. A confusão foi impressionante, porque toda a gente entrou em pânico e não deixava que subíssemos para o andar mais alto. Agarrei nos meus dois filhos e esperei que o barco se afundasse”, destacou Éder Tobón à mesma publicação. “O barco afundou-se de uma forma muito rápida para quem estava no primeiro piso, mais cedo do que as próprias pessoas que iriam fazer o resgate, todas elas voluntárias, estavam à espera. Quem estava no terceiro e no quarto piso teve mais tempo. Ainda fui com um rapaz à cabina dos salva-vidas, mas rompiam-se com grande facilidade”, acrescentou.

“Ouviu-se um estalo de lado, na parte que suporta os catamarans, o barco virou para a esquerda e começámos a gritar e a dar as mãos às pessoas. O barco estabilizou, mas houve outro estalo, quando estava no terceiro piso. Acabei por ser salvo por uma lancha que passou por ali”, detalhou Gonzalo Reyes, cantor e animador da embarcação. “Perdi tudo, os meus papéis, a minha equipa de som. Não sei porque deixaram trabalhar este barco, não me parece que tenham feito um trabalho profissional. Foi uma desgraça anunciada. Custa-me que tenham morrido pessoas, custa-me pelos familiares e pelo próprio dono do barco, que perdeu a sua filha. Foi uma coisa do destino”.

Por fim, Mary Ospina, outra das sobreviventes, confessou à mesma publicação que “não havia noção de quantas pessoas que viajavam no primeiro e no segundo piso, incluindo crianças e idosos, conseguiram sobreviver”. “O afundamento para eles foi tão rápido que tiveram dificuldades em partir os vidros panorâmicos para saírem sem se afogarem. Quando percebi que a embarcação se ia afundar, atirei-me para a água, não entrei em desespero e mantive-me a flutuar até ser recolhida por um socorrista”, adiantou.

Todos estes relatos contribuem para mostrar que a embarcação não cumpria as obrigatoriedades previstas por lei. “As embarcações que prestem serviço de turismo, recreação e desporto devem estar dotadas de equipamento técnico de salvamento, coletes salva-vidas, equipas de primeiros auxílios e demais cuidados para prevenir qualquer acidente (…) Nenhuma embarcação poderá sair do porto onde exista autoridade fluvial sem que esteja assinada a autorização de saída”, prevê o Código Nacional de Navegação e Atividades Portuárias Fluviais do país, que fala especificamente na lista de passageiros, no certificado da inspeção técnica e do certificado de carga máxima, entre outros.