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Cristiano Ronaldo já foi ouvido à porta fechada, esta segunda-feira, pelo juiz de instrução de Pozuelo de Alarcón, às 11h30 (10h30 em Lisboa), em Madrid, mas não prestou declarações à saída.

Num comunicado divulgado pelo jornal espanhol Marca, o jogador diz nunca ter tido intenção de fugir aos impostos. “Nunca ocultei nada, nem tive intenção de fugir aos impostos“, referiu Ronaldo, acrescentando que o fisco espanhol “conhece em detalhe” os seus rendimentos porque foram declarados.

Faço sempre as minhas declarações de impostos de maneira voluntária, porque acho que todos temos de declarar e pagar impostos de acordo com os nossos rendimentos. Aqueles que me conhecem, sabem aquilo que peço aos meus assessores: que tenham tudo em dia e devidamente pago, porque não quero problemas”, lê-se no comunicado.

Em tribunal, Ronaldo sublinhou ainda o facto de nunca ter tido problemas noutros países em que já residiu e argumentou que a sociedade offshore sediada nas Ilhas Virgens britânicas, que o fisco diz ter sido criada pelo português para fugir aos impostos, não foi criada em 2010, mas sim em 2004 por recomendação dos seus advogados ingleses.

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Quando assinei pelo Real Madrid, não criei um estrutura especial para gerir os meus direito de imagem, mas mantive aquela que os geria quando estava em Inglaterra“, lê-se no comunicado, que cita o jogador, acrescentando que “a estrutura empresarial de gestão dos direitos de imagem é igual” entre 2010-2014 e 2004-2009.

Na mudança de residência para Espanha, procedeu-se apenas à supressão de uma entidade inglesa, que não era necessária para a residência em Espanha, e “assegurou-se que era cobrada a totalidade dos direitos de imagem pessoalmente enquanto era residente em Espanha, para pagar os impostos espanhóis”.

“Nenhuma destas alterações tinha como finalidade evitar o pagamento de impostos ou ocultar rendimentos”.

“Este é o momento de deixar a justiça trabalhar. Eu acredito na justiça e espero que, também neste caso, haja uma decisão justa”, refere Ronaldo no comunicado, acrescentando que não irá fazer mais declarações sobre o caso para “evitar pressões desnecessárias”.

O interrogatório desta manhã, que durou cerca de uma hora e meia, sem tradução (o jogador português dispensou-a), terá sido bastante tenso, de acordo com informações recolhidas pelo jornal El Español junto de fontes que terão participado no inquérito.

O futebolista terá respondido a todas as questões, reafirmou que declarou tudo o que devia ao fisco espanhol, lembrou que tem assessores fiscais responsáveis pela gestão dos seus direitos de imagem e demarcou o seu agente, Jorge Mendes, de qualquer envolvimento nesse processo. Pelo meio, terá dito ao juiz, ao responsável do fisco e ao advogado do Estado, presentes no interrogatório, que estava a ser vítima de uma caça às bruxas. “Se não me chamasse Cristiano Ronaldo, não estaria aqui sentado”, afirmou, de acordo com as informações do jornal online.

Sobre o dinheiro que é suspeito de dever ao Estado – o fisco reclama 14,7 milhões de de euros – Cristiano Ronaldo reafirmou que nada mais deve e que, por isso, nada tem a devolver. O nível de tensão do interrogatório terá sido tal que o futebolista terá até bebido a água de outras pessoas presentes na sala – e, devido à indisposição gerada pela tensão de hora e meia de perguntas, terá decidido não falar em público no final.

E, de facto, à saída, o internacional português não prestou declarações do interrogatório, como já tinha feito na chegada ao tribunal em Madrid. Antes do início do interrogatório, o jogador de 32 anos — acusado de quatro crimes — entrou pela garagem, evitando assim os cerca de 200 meios de comunicação social de todo o mundo que o esperavam, lê-se no El Confidencial.

Ronaldo foi ouvido enquanto arguido, num processo que se encontra ainda em fase de instrução — o Ministério Público espanhol irá decidir posteriormente se acusa ou não o português . Segundo o El Mundo, o futebolista poderia optar por não responder às questões da juíza Mónica Gómez Ferrer, mas tal não terá acontecido. De acordo com o jornal desportivo AS, que cita fontes próximas de Ronaldo, o português não irá “colaborar” nem pagar a multa de 29 milhões de euros, que lhe permitiria reduzir a pena de sete anos de prisão, prevista na lei espanhola, pela criação de uma empresa offshore para fugir ao fisco.

“O Cristiano mantém-se firme e não se vai importar de ir até ao final, mesmo que isso signifique ter de defender a sua inocência numa ação judicial contra o Estado. Não vai compactuar, nem sob ameaça ou risco de prisão.”

“Ronaldo não vai colaborar, nem sob ameaça de prisão”

O internacional português é acusado de ter lesado o Estado espanhol em 14,7 milhões de euros entre 2011 e 2014 — só em 2014, omitiu 8,5 milhões de euros. Um valor referente a impostos relativos a verbas de direitos de imagem, utilizando uma empresa fachada num paraíso fiscal.

Tudo começou com a transferência do Manchester United para o Real Madrid. Apesar de o contrato com o clube madrileno ter ficado fechado em junho de 2009, Ronaldo só passou a ter residência fiscal em Espanha a partir de 2010. Em novembro desse ano, o internacional português escolheu um regime fiscal que permitia que fossem tributados apenas 24% ou 24,75% dos seus rendimentos em Espanha — a chamada Lei Beckham.

Uma vez assinado o contrato com o Real Madrid, Ronaldo simulou a cedência dos seus direitos de imagem — uma parte significativa dos seus rendimentos — à Tollin Associates LTD, uma sociedade com sede nas Ilhas Virgens britânicas e que tinha o português como sócio único. A Tollin Associates LTD cedeu posteriormente os direitos de imagem à irlandesa Multisports&Image Management LTD.

Para o fisco espanhol, a cedência à empresa sediada nas Ilhas Virgens britânicas era “totalmente desnecessária” e tinha apenas como objetivo “ocultar à Autoridade Tributária espanhola a totalidade dos rendimentos obtidos pelo denunciado pela exploração da sua imagem”.

Ronaldo é ainda acusado de não ter declarado a totalidade dos seus rendimentos em Espanha. A acusação do fisco diz que os rendimentos “realmente obtidos com origem espanhola” entre 2011 e 2014 chegavam aos cerca de 43 milhões de euros, mas Ronaldo só declarou 11,5 milhões.

Fisco espanhol acusa Cristiano Ronaldo de fugir aos impostos de forma “consciente”

A defender o jogador em tribunal estará António Lobo Xavier e ainda dois advogados espanhóis da Baker McKenzie, José María Alonso e Luis Briones. A defesa, citada pelo AS, fala numa “mera discrepância de valores, que não pode ser considerada dolosa”.