Tem acesso livre a todos os artigos do Observador por ser nosso assinante.

É possível que a condescendência coletiva que temos pelo mercado de videojogos nacional seja apenas um reflexo das suas próprias dores de crescimento. Respostas imediatas como “Para português é bom” foram (e são) mais castradoras para o potencial dos nossos estúdios do que o reconhecimento inequívoco de que a importância de um jogo sente-se no “lá fora”, no mercado global onde os videojogos são avaliados sob a mesma bitola e onde o país de origem raramente é fator a ter em conta pela crítica.

Há dois anos falávamos do primeiro projecto português de videojogos a ser financiado através do Kickstarter, e que se mantém até hoje como o único caso de sucesso de crowdfunding de uma campanha nacional de game dev. Lançado há poucas semanas, Greedy Guns, do estúdio lisboeta Tio Atum, vem provar que o pensamento diminuto e a condescendência inconsciente que tínhamos para com o mercado nacional não têm qualquer justificação. Não são, aliás, caso único. Já Syndrome o foi prova disso no ano passado e Strikers Edge, o vencedor de 2016 do PlayStation Talents, certamente prová-lo-á também: estes três jogos não são “bons, porque são portugueses”. São bons, aqui, ou em qualquer parte do mundo, porque têm características e qualidades sólidas aos olhos de qualquer um.

Greedy Guns é um run and gun game, um jogo que presta homenagem aos grandes do género e que marcaram gerações como Contra e Metal Slug. Vendê-lo como um metroidvania é redutor para aquilo que foi atingido, visto que ainda que existam elementos do género, a tónica fundamental é dos shoot’em ups clássicos das arcadas, com grande parte do seu game design a incidir na dificuldade dos muitos inimigos e padrões de tiros que preenchem o ecrã, ao invés de um peso exaustivo na exploração dos níveis.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Há dois elementos onde Greedy Guns é verdadeiramente exímio e que vão permitir que se destaque dentro do ultra-competitivo mercado indie de shoot’em ups e run and guns: a direção artística e a música.

O traço forte, oriundo da animação tradicional e uma estética muito própria conferem a Greedy Guns um visual único, reconhecível de imediato e onde todos os elementos, dos protagonistas, passando pelos inimigos e pelo cenário, são pequenas maravilhas da ilustração que mostram que com bons artistas e uma boa direção de arte qualquer equipa indie, por mais pequena que seja, consegue resultados excelentes.

A banda-sonora composta por Miguel Cintra (também conhecido por Blipperactive) e que pode ser adquirida em separado, ajuda a construir todo o frenetismo que os momentos de ação quase-bullet hell precisam. Chiptune (e não só) que evoca simultaneamente as bandas sonoras retro que todos crescemos a adorar, com interpretações contemporâneas e uma batida altamente dançável.

A criatividade e originalidade das boss fights – as lutas titânicas contra as criaturas gigantes que se cruzam connosco pelos corredores labirínticos de Greedy Guns são dos grandes momentos de todo o jogo, e indubitavelmente alguns dos mais memoráveis, com a luta final a evocar até um dos grandes indies do género, Guacamelee. Por outro lado a falta da variedade das restantes criaturas “normais” que surgem no restante level design acaba por ser um dos pontos menos conseguidos do jogo. O desafio fica ligeiramente comprometido quando estamos repetidamente a defrontar o mesmo padrão de inimigos e já sabemos exatamente com o que contar.

Greedy Guns é um verdadeiro desafio, mas não é injustamente difícil. A solo ou em modo cooperativo, sentimos sempre que o jogo pode obrigar-nos a ter uns reflexos apurados mas nunca nos coloca numa situação em que os devs queiram apenas frustrar-nos. Diríamos até que para veteranos do género este Greedy Guns seja um jogo acessível com alguns picos de dificuldade a apimentá-lo.

Por muito sólido e coeso que Greedy Guns seja, sabemos de antemão que não possui elementos mecânicos que o distingam num mercado onde surgem semanalmente centenas de títulos, nem a capacidade de marketing de outras editoras. Se artisticamente (em termos visuais e musicais) apresenta uma identidade única de grande qualidade, o seu game e level design acabam por ser mais clássicos e pouco distintivos. O que não lhe retira qualidade, de todo, mas impede-o de conseguir o destaque que merecia dentro de um nicho hiper-saturado, neste que é um jogo altamente recomendado e divertido, tanto com um ou dois jogadores, com algumas horas de grande desafio e muitos tiros.

Mas a importância de Greedy Guns vê-se no “cá dentro” e não pela visão pequena e redutora que tem pautado a nossa observação coletiva sobre a dev scene portuguesa. Mas porque Greedy Guns não só foi o primeiro (e único) jogo a conseguir ser kickstarted, mas porque é até agora – com a devida subjetividade – o melhor jogo produzido em solo nacional, com argumentos para um grande destaque internacional não estivesse o mercado tão saturado quanto está. E que seja, a par de Syndrome e de Strikers Edge, um ponto de viragem do cumprimento do grande potencial que os estúdios portugueses possuem.

Greedy Guns está à venda para PC, Mac e Linux por 14,99€.

Ricardo Correia, Rubber Chicken