“Situação pessoal: invalidez reconhecida a 76%, mas essa invalidez física não impede o meu trabalho como programador e tem benefícios fiscais tanto para a empresa como para mim. Para deslocações grandes necessito de cadeira de rodas, mas consigo mover-me sem ela num escritório. Não tenho uma boa imagem de cara em público, por problemas na boca – não posso colocar implantes dentários – e pela minha invalidez física. Também, salvo exceções, visto-me com roupa desportiva para poder mover-me na cadeira pelo metro e pelo autocarro. Esperando que isto não leve a nenhuma recusa e só examinem as minhas aptidões e a minha experiência, saúdo-os. Atentamente, Juan Mascuñano Torres”.

Juan é um sem-abrigo que costuma andar na Gran Vía de Madrid há quase 20 anos mas nem por isso perde a esperança de encontrar um trabalho. Como se percebe em cima, não esconde nada na apresentação que tem na sua página do Linkedin. Ao mesmo tempo, pede ajuda através do Twitter, abriu uma conta de PayPal e tem duas páginas há alguns anos no Facebook. E tem uma história contada pelo El Confidencial que está a comover Espanha.

Engenheiro informático, Juan Mascuñano Torres passou alguns dias no hospital devido a uma pneumonia e regressou agora à sua “rotina”. Pela formação profissional que teve, costuma ser ativo nas redes sociais utilizando um computador antigo que tem há muitos anos e aproveitando a rede wireless de um McDonald’s na zona. Ainda assim, admite que há muita gente que pensa não existir, pelo inusitado da situação.

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“Se consigo dinheiro, deixo de dar pena. Se deixo de dar pena, deixam de dar-me dinheiro. Se deixo de estar aqui, deixo de ser real. Havia uma pessoa que todos os dias me dava um euro. No final, veio ter comigo e disse-me que ia deixar de dar porque eu tinha mais do que ele”, contou ao jornal, falando também do facto de ter redes sociais: “Queixam-se porque peço com tecnologia moderna mas ter Facebook é grátis. O que me dão estou a inverter em algo que me ajuda, em vez de me estar a embebedar ou a drogar-me”.

Explicando que dorme onde pede porque os albergues têm más condições, por causa da prostituição e pela falta de infraestruturas adaptadas para cadeiras de rodas, Juan, de 56 anos, conta como chegou até aqui, a principal perda que teve como sem-abrigo e a maior esperança no futuro: ter um trabalho.

“Separei-me da minha mulher e deixei de ver o meu filho, caí no vazio. Como não tinha a responsabilidade de ter uma família, deixei o meu trabalho e quis tentar por conta própria. Correu mal. No início, quando pedia, não via como algo sério mas, passados quatro anos, percebi que não mais sairia daqui”, lamenta, antes de recordar também Lourdes, com quem teve uma relação durante quatro anos: “Como não podia ir a lado nenhum, acabava por dormir comigo para me dar calor. Um dia, levantei-me e ela não. Acabou por morrer de frio…”.

“O que mais gostava era encontrar trabalho, mas com 56 anos e esta pinta que tenho…”, conclui, com esperança que a sua história possa não só ajudá-lo como alterar a forma como os sem-abrigo são vistos.