O Real Madrid-Barcelona, que em condições normais seria jogado num sábado ou domingo à noite, disputou-se às 13 horas espanholas (menos uma em Portugal) de 23 de dezembro. Com isso, teve transmissão para 188 países um pouco por todo o mundo, com uma assistência estimada a rondar os 650 milhões de pessoas. É a globalização do futebol mas que, durante 90 minutos, funcionou como espelho da diferença entre um jogo de PES ou FIFA e o futebol real. Real não, Barcelona: os catalães deram um autêntico “chocolate” na segunda parte, foram à capital vencer o campeão por 3-0 e passam a ter 14 pontos de avanço sobre o rival direto (e, já agora, nove do Atl. Madrid, que perdeu ontem à noite pela primeira vez na Liga frente ao Espanyol, na Catalunha, por 1-0).

Muitos dos milhões que se fixaram em frente da televisão ou do computador fazem parte de uma nova geração 2.0 que passa horas a fio no quarto forrado com posters de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi entretida com os vídeojogos onde os dois melhores jogadores da última década (e de sempre) fazem fintas, passes e remates só à altura dos predestinados. Nem interessam os outros 20 jogadores que por lá andam, tudo roda em torno daqueles dois eixos que são a cara mundial do jogo. Mas o futebol é muito mais do que isso, como Zinedine Zidane e Ernesto Valverde mostraram desde o primeiro minuto, com as alterações feitas na equipa.

Ficha de jogo

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Real Madrid-Barcelona, 0-3

17.ª jornada da Liga

Estádio Santiago Bernabéu, em Madrid

Árbitro: Sánchez Martínez (CA Múrcia)

Real Madrid: Navas; Carvajal, Varane, Sergio Ramos, Marcelo; Casemiro (Asensio, 72′), Kovacic (Gareth Bale, 72′), Kroos, Modric; Cristiano Ronaldo e Benzema (Nacho, 66′)

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Treinador: Zinedine Zidane

Barcelona: Ter Stegen; Sergi Roberto (Aleix Vidal, 90′), Piqué, Vermaelen, Jordi Alba; Busquets, Rakitic, Paulinho (André Gomes, 84′), Iniesta (Nélson Semedo, 77′); Messi e Luís Suárez

Treinador: Ernesto Valverde

Golos: Luís Suárez (54′), Messi (64′, g.p.) e Aleix Vidal (90+3′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Vermaelen (18′), Sergio Ramos (59′), Marcelo (83′) e Busquets (88′); cartão vermelho direto a Carvajal (63′)

No Real Madrid, Kovacic foi a grande novidade. Um só nome mas que mudou muito na equipa: Cristiano Ronaldo foi para uma posição mais central jogando sem bola de dentro para fora e com bola de fora para dentro; Modric e Kroos assumiram as fases de construção mais à frente do que é normal; Carvajal e Marcelo tinham carta branca para se envolverem em simultâneo em ações ofensivas. No Barcelona, esse papel pertenceu a Paulinho. E também aqui, um só nome mudou muito na equipa: a facilidade de transformar taticamente a equipa de 4x4x2 para 4x3x3; o recuo de Rakitic para apoiar Busquets na pressão e na construção; e a possibilidade de ter um elemento sem marcação direta a aparecer nos espaços entre linhas e nas zonas de finalização.

Voltando ao duelo particular entre o confronto em geral, bastaram 31 minutos para se perceber que este não seria o dia de Cristiano Ronaldo: aos 2′, através da marcação de um canto, viu um golo (bem) anulado na sequência de um desvio após assistência de Varane; aos 10′, no seguimento de uma jogada de Kroos pela esquerda com assistência atrasada para a área, o português escorregou ligeiramente antes do remate e falhou a bola; aos 31′, após uma cavalgada pela esquerda, o remate forte e colocado acabou por ser travado com o pé por Ter Stegen. O Real Madrid tinha mais bola (60%), mais remates (2-0) e, sobretudo, melhor percentagem de passes tentados e conseguidos. Aliás, a primeira meia hora parecia dar razão a um interessante artigo de opinião de Jesús Bengoechea no El Español de hoje: “Um [Real] Madrid demasiado guardiolesco e um Barça mourinhizado”.

À meia hora, apareceu Messi, agradeceu Paulinho. O argentino tinha estado sempre tapado pelas zonas de pressão com bola e pela marcação individual de Kovacic, tendo por isso sair dos seus terrenos de conforto para aparecer. Fez isso duas vezes, criou duas oportunidades de golo: primeiro, após descair na direita, fez um fantástico passe para a diagonal do brasileiro, que obrigou Navas à primeira grande defesa do jogo (30′); depois, numa jogada de envolvimento pela esquerda, cruzou para o cabeceamento muito perigoso do reforço que veio da China este verão (39′). Mais Barça no jogo? Talvez, nessa fase em específico. Melhor Real no jogo? De certeza. E só por azar não saiu a ganhar ao intervalo: na única bola em que mostrou não merecer estar nesta altura numa posição de xeque como “ovelha negra” dos merengues, Benzema apareceu na área a desviar de cabeça um cruzamento da esquerda de Marcelo mas acertou no poste (42′).

Chegou o intervalo, o descanso, a possibilidade de rever algumas nuances táticas e o fim do Real Madrid: a segunda parte resume-se a um autêntico rolo compressor do Barcelona, inspirado pelo génio de Messi, pelo instinto de Luís Suárez (os dois amigos que passam os estágios e as férias a beber mate) e por um coletivo que atropelou por completo a ideia de jogo que Zidane preparara para o Clássico.

Logo aos 53′, materializando a melhor entrada em campo, Jordi Alba recebeu em velocidade um fabuloso passe de Iniesta na esquerda, cruzou bem mas Navas conseguiu travar o remate de Suárez; no minuto seguinte, o costa-riquenho não conseguiu fazer nada e o uruguaio inaugurou mesmo o marcador. O demérito do Real Madrid na forma como não conseguiu travar a transição rápida dos catalães (a figura de Kovacic no lance é triste, porque estava tão “obcecado” na marcação a Messi que ajudou a que se criasse uma cratera no corredor central) é proporcional ao mérito com que os blaugrana conseguiram construir a oportunidade em progressão com bola, mas aquele passe final de Sergi Roberto para o avançado fazer o 1-0 seria o primeiro de muitos exemplos do género.

Física, tática e mentalmente, os merengues acusaram o golpe e andaram quase dez minutos às aranhas em campo enquanto o Barça restituía aquele futebol mortífero com nota artística e ia desperdiçando oportunidades. Percebia-se que era uma questão de tempo e foi mesmo: num lance onde Suárez teve duas chances na área (a segunda acabou com um remate ao poste), Carvajal travou com a mão a recarga que ia para a baliza, foi expulso (primeiro vermelho da carreira) e Messi converteu o penálti (63′). Com esse golo, o astro argentino isolou-se na tabela dos maiores goleadores do ano civil de 2017, com mais um do que Ronaldo.

As altas patentes do Real, com Sergio Ramos, Ronaldo e Marcelo à cabeça, ainda tentaram reagir por uma questão de orgulho ferido, mas encontraram pela frente um inspirado Ter Stegen, o melhor guarda-redes da Liga (interessante entrevista ao El País esta semana), mas o Barça, com maiores ou menores dificuldades, conseguiu controlar os ritmos do jogo e ouviram-se mesmo “olés” no Bernabéu, naquela que foi mais uma lição de futebol, desta vez dada pelos catalães. Que chegariam ainda ao 3-0 já nos descontos, por Aleix Vidal, no seguimento de mais um lance genial de Messi, a deixar Marcelo no chão com uma aceleração pelo flanco direito do ataque.

No duelo Real Madrid-Barcelona, os catalães ganharam. No duelo Cristiano Ronaldo-Messi, o argentino goleou. Para o ano há mais, mas provavelmente na Liga dos Campeões: a Liga espanhola parece estar arrumada…