Faz parte da memória política. O Bloco Central acabou em 1985 com uma “cimeira das flores”. Cavaco Silva, recém-eleito líder do PSD, foi à Rua da Emenda — onde ainda era a sede do PS –, para um encontro com Mário Soares: “Não vamos falar de flores”, ameaçou Cavaco. Com sentido de humor, os socialistas encheram a sede do partido de plantas, das quais o novo líder do PSD teve de se desviar até desbravar o caminho para chegar ao primeiro-ministro em exercício — que governava o país em coligação com o PSD. Não foi um encontro floral. O Bloco Central morria pouco depois.

Passaram 33 anos. Agora dá-se o movimento contrário. Rui Rio ganhou o PSD com uma estratégia de aproximação ao PS. Fernando Negrão aceitou ser líder parlamentar para fazer “reuniões de trabalho” com o primeiro-ministro nos debates quinzenais. Na tarde desta quarta-feira deu-se uma “cimeira das flores” parte dois, neste caso sem ironia. Negrão baixou muito o tom da oposição, mas quem mudou (ainda mais) radicalmente de atitude foi António Costa. Agora não é Cavaco Silva que tem de se desviar das flores que o PS estende à sua maneira. É Rui Rio e Fernando Negrão — que apenas ouviu Costa ironizar com um “deslize de estreia”.

O primeiro-ministro tratou o novo líder parlamentar do PSD com a técnica que usa para com os parceiros de esquerda, de forma condescendente. Argumentou com o PSD como faz quando ouve as críticas de Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa, e respira fundo para responder de forma explicativa e pedagógica às questões mais difíceis e adversativas. Neste caso, não foi preciso muito. Podiam ver-se as bandeiras brancas dos dois lados da trincheira. Tréguas, cessar-fogo e tratado de paz assinado com dois temas de regime na calha. Tendo como contraponto a crispação desta legislatura foi como se dessem as mãos e cantassem Kumbaya…

Fernando Negrão cumpriu o que se esperava e as expectativas eram baixas. Foi um contraste total em relação ao estilo agressivo de Hugo Soares — ou de Luís Montenegro. Não surpreendeu. Não acusou Costa como fazia o antecessor, não fez perguntas com casca de banana, não levantou a voz. Sentiu-se obrigado a fazer um statement dizer-se oposição: “É uma bancada da oposição, que irá exercer de forma responsável, construtiva, mas firme”. Desenvolveu apenas um tema, a entrada da Santa Casa no Montepio. E foi tão zeloso que se auto-limitou voluntariamente e não prosseguiu sequer com a última pergunta: quando viu que já não tinha tempo, em vez de lançar outra questão a António Costa, calou-se em vez de fazer uso do costume parlamentar de usar do tempo até o presidente da Assembleia da República lhe pedir para concluir (e hoje haveria alguma tolerância). Foi frouxo.

Se o estilo morno, a substância foi pobre. Puxou apenas por um tema. E era arriscado. A banca, e a entrada da Santa Casa no Montepio. Teve de ser explícito ao dizer que Rui Rio já tinha afirmado ser contra o negócio. E fez então a sua prova de oposição, que tinha mesmo de fazer, lançando uma ameaça para o ar. O partido seria sempre contra o arranjo. E ficava o “aviso”. Ao “mínimo sinal” de que a operação não acautelasse os interesses financeiros da Misericórdia, o PSD usaria “de todos os meios à sua disposição”. Ou seja: uma comissão de inquérito parlamentar, deixou implícito o ex-presidente da comissão de inquérito parlamentar ao BES.

A reação da bancada em aplausos foi fraquinha e pouco depois de Negrão se calar havia apenas metade dos deputados do PSD a assistir ao debate. A intervenção teve um apoio frio. O contraste (natural) foi acentuado com o aplauso em pé que os deputados deram a Passos Coelho que minutos antes se despedia do Parlamento.

Mas o assunto era arriscado por duas razões. Primeiro, porque uma parte da resposta de António Costa havia de ser ipsis verbis o que Pedro Santana Lopes dizia na campanha interna (o candidato que Negrão apoiava): que é preciso esperar pela auditoria pedida pela Santa Casa, pelo próprio Santana. Em segundo lugar, porque sempre que o PSD fala de banca, o primeiro-ministro costuma esmagar os sociais-democratas ao recordar o estado em que o Governo anterior deixou dossiês como o Novo Banco, o Banif ou a Caixa Geral de Depósitos. Nesta ocasião, Costa guardou as munições. Travou-se. Deu espaço à disponibilidade para o diálogo com Rui Rio. Não hostilizou. Daí que a variação no tom de António Costa se torne mais relevante ainda do que a do PSD. Foi aqui que a “reunião de trabalho” se tornou numa “cimeira das flores”. O primeiro-ministro parecia que estava a falar com um dos parceiros da geringonça, contendo-se. O apaziguamento de um lado correspondeu a um apaziguamento do outro.

António Costa só não resistiu a uma provocação. Durante uma resposta ao Bloco de Esquerda, lá pôs um espinho na rosa da “normalidade” democrática com que brindara o novo PSD. “Fico perplexo que, dois anos depois” — de o Governo ter resolvido os problemas deixados pelo PSD/CDS na banca –, “o novo líder do PSD viesse falar do investimento no setor bancário como tóxico por natureza. Espero que tenha sido um deslize de estreia, ao ver o sistema financeiro como um novo tóxico”.

Em termos parlamentares, o habitual aqui era o PSD suscitar a figura da “defesa da honra”. Mas Fernando Negrão não o fez. Preferiu manter baixos os níveis de conflitualidade.

Este novo posicionamento do maior partido no Parlamento teve consequências tanto à direita como à esquerda. À esquerda, o PSD correu o risco de parecer menos assertivo do que o PCP, Bloco e mesmo Os Verdes. Costa sentiu a necessidade — de novo — de dizer ao PCP que o caminho era para continuar a ser trilhado em conjunto, mesmo depois de 2019, e ao Bloco respondeu que tudo o que tinha combinado não era precário.

As críticas de Negrão ao dossiê Montepio, no entanto, não se distinguiram em intensidade do estilo de “oposição” que fazem os partidos de esquerda, mesmo apoiando o Governo. Nesta configuração, Assunção Cristas emerge: apostou outra vez na Saúde, um tema que diz mais às pessoas do que a banca, foi agressiva q.b. (embora sempre menos do que era Hugo Soares). Verdadeiramente eloquentes, porém, são as respostas de António Costa. Ao ser mais combativo nas réplicas a Cristas, o primeiro-ministro dá-lhe o estatuto de líder da oposição, e assim divide a direita. O estilo suave para com Negrão e a luta verbal com Cristas, é uma forma de Costa fragilizar o PSD. Mas hoje não conseguimos perceber que real influência têm estes debates parlamentares no eleitorado.

No fim do quinzenal, um momento simbólico: o primeiro-ministro foi trocar dois dedos de conversa com Fernando Negrão, algo de insólito esta legislatura entre o chefe do Governo e o maior partido parlamentar. A seguir, também foi cumprimentar e falar com Catarina Martins e João Oliveira — líder parlamentar do PS. Não é que haja uma nova “geringonça”, mas a “geringonça” para Costa agora é outra.