A entrada da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa no capital do Montepio está a transformar o banco numa arma de arremesso político, acusa Tomás Correia, para quem todos os obstáculos colocados pelo Parlamento a este negócio só se justificam por falta de informação. “Estou convencido de que se fala muito sobre o Montepio, e diz-se muita coisa, num quadro de desconhecimento muito significativo”, afirma. Reforça mesmo que nunca foi abordado por qualquer deputado com pedidos de informação — e lamenta que, “aquilo que temos ouvido, insere-se num âmbito de maledicência e de discussão ou de aproveitamento num quadro político de uma situação que não tem nada que ver com a realidade do Montepio. Já estou cansado disso”.

Em entrevista ao Jornal de Negócios e à Antena1 este fim-de-semana, o presidente da associação mutualista do Montepio confessa estar cansado da “maledicência” que este processo tem gerado e defende que a Santa Casa pode ser um aliado decisivo, ainda que não obrigatório, na concretização de um projeto antigo que leva a sua assinatura: a criação de um banco de economia social até ao final de 2018. “A Santa Casa pode ser um parceiro muito importante para o projeto que eu próprio tenho vindo a divulgar desde 2008, de criação de um grupo financeiro da economia social em Portugal. Agora, o Montepio não tem uma ideia de necessidade de participação da Santa Casa.”

Deixe-me esclarecer: vamos ter um banco detido por instituições da economia social, que desenvolverá a sua atividade alinhado com valores, mais preocupado com resultados do que com lucro.”

O presidente da associação mutualista recorda que “o Montepio é a única instituição que nunca precisou de ajuda do Estado seja para liquidez seja para capital”. Ainda assim, não esconde o seu agrado pelas recentes declarações do ministro das Finanças, também em entrevista ao Jornal de Negócios, que admitiu que, em caso de necessidade, o Estado pode intervir com ajudas ao Montepio.

Embora defenda que esse cenário não está em cima da mesa — porque “não existe” qualquer problema no Montepio e, reforça, o Governo fala sempre num quadro de “eventual, hipotético e remoto” problema para ajudar –, Tomás Correia afirma que Mário Centeno disse “aquilo que é natural que um governante diga: ‘Se for necessário, nós temos de estar disponíveis'”.

Nós não podemos varrer os problemas para baixo do tapete. Isso era dantes. “Isto não é preciso, isto resolve-se tudo.” E eu estou muito grato e o Montepio está muito grato a esta posição do senhor ministro que, no fundo, se traduz por uma vontade de, num eventual, hipotético e remoto… – que do meu ponto de vista não existe – problema no Montepio, haver da parte do Governo disponibilidade para ajudar naquilo que fosse necessário.”

Às investigações judiciais que envolvem Tomás Correia, nomeadamente pelo alegado pagamento de 1,5 milhões de euros que o construtor José Guilherme terá feito, o dirigente mutualista nega todas as acusações: “É falso. E estou absolutamente tranquilo relativamente ao que chama alegações”. Uma situação cujos efeitos numa eventual campanha à liderança da associação são ainda desconhecidos – até porque, admite, ainda não decidiu se avança com a recandidatura à presidência da associação mutualista.