Comemora-se em Pequim, com estadão, o bicentenário do nascimento de Karl Marx. O presidente do estranho comunismo chinês atual, Xi Jinping declarou – a crer nas traduções publicadas na imprensa internacional – que “o marxismo será sempre a teoria que guiará a China e o Partido Comunista”. “É uma poderosa arma ideológica para compreender o mundo, procurar a verdade e mudar o mundo.” Um enorme retrato do famoso publicista dominava o grande auditório onde a faustosa cerimónia se celebrou. Numa estação emissora do Estado chinês tem passado uma série educativa em cinco partes intitulada “Marx tem razão”. Com um suplementar e asiático requinte de malvadez os dirigentes chineses ofereceram à cidade natal de Marx uma estátua destinada a imortalizá-lo ali – provocando a esperada confusão na Alemanha.

Karl Marx, nascido na Prússia numa família judaica, passou boa parte da sua vida relativamente obscura  e modestíssima – embora não isenta de prazeres mais ou menos furtivos – num recolhimento estudioso entre a biblioteca do British Museum e umas vagas passeatas e piqueniques pelos arredores. Londres foi a sua última morada (e é mesmo a última; está sepultado no cemitério londrino de Highgate, ao pé de Spencer, o que se tem prestado às óbvias larachas).

Em Londres escreveu laboriosamente ano após ano a sua grande obra, O Capital, e dezenas de artigos, de livros, de “cadernos de notas”. Antes disso, na Alemanha, na Bélgica, em França, não se furtara à ação política: era um manobrador de respeito, segundo rezam as crónicas; também nunca lhe faltou uma tenaz visão estratégica. No seu tempo nunca viu grandes resultados do seu gigantesco esforço intelectual ou das suas atividades conspiratórias. Mais do que “compreender o mundo” achava que a missão do trabalho intelectual era “mudá-lo”. E, por assim dizer, mudou-o durante algum tempo, infelizmente para pior: o “Manifesto Comunista” que escreveu em colaboração com Engels, seu amigo, protector,”manager” e “editor” ou mesmo autor substituto, continua a ser a cartilha básica dos comunistas e dos muitos “marxistas” que hoje não mudam o mundo mas ajudam a impedir-nos de o perceber. (Não dou nomes, pois a lista seria muito longa, mas tivemos cá em Portugal recentemente um dos mais espetaculares, o antigo e fugaz ministro das Finanças da Grécia, Varoufakis, professor, veja-se lá, numa Universidade americana.)

O legado de Marx, hoje, já não é o que foi. Durante grande parte do século XX, sob os seus auspícios, muitas vezes invocados em vão, a famigerada trilogia Partido, Plano, Polícia, dominou dois terços da superfície do mundo. O mapa vermelho ia, depois da Segunda Guerra Mundial, da Alemanha ao Mar da China e à Península da Coreia; além de tingir a maior superfície territorial do mundo sob um único governo, a Rússia, essa grande mancha rubra cobria também os territórios circunvizinhos convertidos em Repúblicas Socialistas Soviéticas ou democracias populares, outras regiões da Ásia e cedo cobriria vários países africanos e americanos. Em Itália e França dois poderosos Partidos Comunistas estiveram então perto de conquistar o poder sem golpe de Estado, o que teria sido um feito sem precedentes.

“De 1949, quando os comunistas de Mao Zedong  venceram a Guerra civil na China até ao colapso do muro de Berlim 40 anos mais tarde – escreve P. Singer num recente artigo do Project Syndicate — o significado histórico de Karl Marx foi insuperável. Cerca de quatro em cada dez pessoas na terra viveram nesse período sob governos que se proclamavam marxistas.”

Os marxistas gostariam talvez de dizer que marxismo e regimes comunistas não são sinónimos – mas foi Marx quem escreveu o “Manifesto Comunista”. Nunca desdenhou a conquista do poder – e a lógica da ação tem também as suas leis, talvez mais férreas do que aquelas que Marx julgou ter descoberto na história. Marxismos, claro, há muitos: “Tendo escrito muito – notou Raymond Aron no seu límpido ‘Karl Marx’, há dois ou três anos reeditado entre nós – não disse sempre a mesma coisa sobre o mesmo assunto” e a nebulosidade de muitos dos seus conceitos e teorias económicas contribuíram e contribuem para a proliferação de seitas – outro dos seus legados. Uma coisa é certa: Marx aprendeu economia com os grandes clássicos do liberalismo: “Esta ciência não fez grandes progressos desde A. Smith e D. Ricardo”, escreveu a certa altura a Engels.

Engels desde 1845 que insistia com ele para fechar o seu “livro sobre economia” pelo qual o mundo havia de esperar ainda muitos anos e nunca completou: “É preciso malhar no ferro enquanto está quente”, instava Engels. “Depois do fracasso da revolução de 1848” – escreveu David McLellan em Marx’s Grunridsse – “Marx retomou os seus estudos económicos. Continuava a acreditar na iminência de uma revolução mas considerava que estaria dependente da eclosão de uma nova crise económica.” Não foi bem como ele tinha previsto – mas a revolução acabou por rebentar e triunfar na Rússia, com uma grande ajuda de um traficante de armas, revolucionário e profiteur de origem russa e de um Estado-Maior alemão de curtas vistas.

O “marximo” estava no caminho do poder – e o poder que em seu nome tanto tempo e tão extensamente foi exercido – e em certos meios é exercido –  tem certamente um papel decisivo na persistência do seu fascínio para tantos intelectuais e pensadores. Não muita gente lê as grandes obras de Marx (talvez ainda menos lidas do que tem sido lido o best-seller de Tomás Pikety que presta homenagem à sua “Crítica da Economia Política”: O capital no século XXI; segundo os registos dum equipamento de leitura de livros em formato digital, não havia nenhum leitor nesse formato que tivesse passado da página 27). Mas na versão “simplificada e exagerada” a que tão facilmente se presta, lisonjeia o que há de medíocre e mesquinho na maior parte de nós, mais simpática e reveladoramente descrito por um não-marxista como a “aspiração dos homens à igualdade” (Leia-se, por exemplo, Le communisme comme réalité de Alexander Zionoviev.) Ben Rubi, um personagem do “Gog” de Papini descreve caricaturalmente o seu carácter ao mesmo tempo deletério e sedutor: “Os homens sempre julgaram que política, moral, religião, arte são manifestações do espírito que nada têm a ver com a bolsa e o ventre: vem um judeu de Tréveris e demonstra que todas estas coisas muito ideais crescem no solo e no estrume da baixa economia.” E tudo, palavra mágica, “científico”.

No ano da morte de Karl Marx, o socialista Oliveira Martins escrevia em “O regime das riqueza” (desculpem repetir-me, mas não resisto):

“Já não se entesoura. Joga-se: joga-se em permanência, tudo, em toda a parte. Shylock já não pode reclamar a libra de carne do devedor mas o Baal das fábricas e das bolsas devora o sangue vivo das populações e o pecúlio das famílias. Soltos os diques das leis, armado o mar dos homens com instrumentos de uma energia inaudita, as ondas dos especuladores ruem, coroadas de espuma orgulhosa e lambem, alastrando a praia inteira. Passam por sobre os governos, por sobre os povos, galopando (…) No vai-vem tempestuosos da onda envolvem e despedaçam os fracos, os simples, os pobres …”

Lisboa, 1883 ou Nova Iorque 2008?

As “crises do capitalismo” em que Marx tanto esperava têm-se sucedido. Os “marxistas” continuam à espera da revolução no mundo capitalista. Marx já falava – como lembra um cronista americano – naquilo que é hoje, de novo, uma ladainha muito simples, muito mentirosa e muito universal, (grande triunfo póstumo de Marx): tudo se reduz a que os novos modos de produção, comunicação e distribuição criaram enormes riquezas; mas a riqueza não está igualmente distribuída. Dez por cento da população possui a maior parte da propriedade; os restantes noventa por cento não são donos de nada. Renasce a esperança da revolução sempre adiada.

Marx será, como diz um dos seus mais recentes biógrafos, “mais uma figura do passado que um profeta do presente”. Não é um profeta do futuro. Foi sem dúvida, pelo menos, um brilhante jornalista político e um pensador e sociólogo eminente. Mas, sobretudo, nas palavras de Michel Foucault, foi o genial fundador de um “discurso”. Como quem diz, uma “narrativa” convincente, por mais falsa e perniciosa que seja.