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De tempos a tempos, há sempre notícias frescas da vida empresarial de Miguel Relvas. Desta vez o ex-ministro acaba de ser anunciado como um dos líderes na área de governança e sustentabilidade da Dorae, uma empresa fundada por 2 sócios do antigo dirigente do PSD, que desenvolve produtos em inteligência artificial e tecnologia blockchain e que tem escritórios em Londres, Silicon Valley e Ilhas Caimão.

O anúncio foi feito através de um comunicado da empresa que se assume como um grupo norte-americano na área da economia digital, que trabalha para fazer a ponte entre o mercado e os produtores, os governos e os reguladores.

A Dorae escreve que os “20 anos de experiência (de Miguel Relvas) como político, onde o trabalho muitas vezes passa por encontrar bases comuns entre o interesse público e o interesse privado, e a experiência na construção de redes de contactos que potenciam o crescimento económico” fazem dele um “parceiro de excelência” nesta área de negócio.

Em declarações ao Observador, Miguel Relvas diz que considerou o desafio “muito aliciante” porque permite “associar a um modelo de negócio a perspetiva de sustentabilidade e de responsabilidade social”.

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Trabalhar entre velhos conhecidos

Os novos patrões do ex-ministro dos Assuntos Parlamentares são o português Ricardo Santos Silva (ex-BES Investimento) e a norte-americana Aba Schubert, os dois fundadores da Dorae. E ambos se cruzaram já com Miguel Relvas nesta nova fase de empresário de sucesso.

Os 3 foram sócios da Pivot SGPS, uma sociedade criada no início de 2015 e que nesse ano ganhou o concurso de venda do Banco Efisa por 38 milhões de euros. Um negócio muito comentado na altura, por ter sido conseguido com um valor inferior aos 77,5 milhões de euros injectados pelo Estado, entre 2012 e 2015, neste banco de investimento do antigo BPN.

Miguel Relvas foi até chamado ao Parlamento para explicar o envolvimento neste negócio que começou a ser desenhado ainda durante o governo de Passos Coelho, do qual Relvas chegou a ser o número 2.

Uma transação que acabou por não ser concretizada porque os supervisores (BCE e Banco de Portugal) nunca chegaram a emitir a avaliação de idoneidade dos accionistas de referência exigida pela lei.

O que faz esta empresa para a qual Relvas vai trabalhar?

O trabalho desta tecnológica não é propriamente fácil de explicar para quem não domina conceitos como blockchain ou criptomoedas. Talvez por isso a Dorae tenha feito um vídeo explicativo que aparece assim que se entra no site da empresa:

https://www.youtube.com/watch?v=Se5LwkpSx90

A Dorae foi fundada em 2014 e deu os primeiros passos na República Democrática do Congo onde se encontram as maiores reservas mundiais de cobalto ou tântalo, considerados matérias-primas da era digital, muito usados no fabrico de smartphones e carros elétricos. Calcula-se que as reservas minerais do país possam valer muitos milhares de milhões de euros e que o negócio esteja a atrair grandes fundos de investimento mundiais.

De acordo com o comunicado da empresa, o início das operações na República Democrática do Congo teve aprovação do próprio Presidente Joseph Kabila (no poder ininterruptamente desde 2001 quando o pai, Laurent Kabila, foi assassinado), que está “focado na obtenção de uma retribuição justa para os trabalhadores de setor mineiro no país”.

A exploração e o comércio de minerais tem sido uma mais das importantes fontes de financiamento de grupos armados em zonas de conflito e, nos últimos anos, quer a Europa quer os Estados Unidos têm exigido sistemas de certificação que dificultem quer este financiamento, quer a utilização de trabalho escravo ou de trabalho infantil.

É precisamente nesta área que a Dorae se apresenta como player, oferecendo garantias da proveniência das matérias-primas em todas as fases da cadeia de produção.

Para isso recorre à tecnologia blockchain, uma estrutura de dados que regista transações virtuais. Cada transferência tem um código associado que permite que nunca seja alterada. Por não funcionar num só sistema único e ser compartilhado em rede numa base de dados a que todos podem aceder, os utilizadores — neste caso, os importadores, por exemplo — têm confiança de que os resultados não foram adulterados.  É a mesma tecnologia que permitiu a criação de criptomoedas, como a Bitcoin.