O ano de 1991 estava a umas horas de acabar quando Herman José — perdão, “José Severino” — cunhou o mais famoso termo em português que se pode associar ao mundo da pastelaria. “Eu é mais bolos”, disse, quando a apresentadora — a atriz Lídia Franco — percebeu que o tinha confundido com o radiotelegrafista “Perfeito Calhau”. “O que eu faço muito é casamentos. Isto agora não sei o que lhes deu, mas está tudo a casar”, continuou o senhor entrevistado. Hoje, 27 anos depois, casamentos e bolos continuam a ser realidades indissociáveis e prova disso é o alarido causado pela boda Real do próximo sábado, 19 de maio, e a confeção que no mesmo será servida.

Já se sabe que os noivos, o príncipe Harry e Meghan Markle, fizeram questão de analisar e provar tudo o que será servido do megaevento deste fim-de-semana. O bolo, como seria de esperar, não foi exceção. “Sentimo-nos muito afortunados pela oportunidade de fazer o bolo aqui no palácio de Buckingham”, disse a responsável pela pastelaria londrina “Violet Bakery”, a chef pasteleira Claire Ptak — e não o senhor Severino — num vídeo divulgado na página oficial de Instagram da família Real britânica.

Limões Amalfitanos (região italiana) e sumo de flor de sabugueiro: é esta a origem dos sabores predominantes no bolo em questão, explica a pasteleira de origem norte-americana. Uma simplicidade que, à semelhança de vários outros pormenores da boda, choca de frente com as tradições seculares da Coroa britânica.

Uma espécie de bolo-rei que não tem nada a ver com o bolo-rei

Sabia que em Nova Orleães há um doce praticamente idêntico ao típico bolo-rei português? É verdade. Chama-se “king cake” e até tem “uma surpresa” no interior (tradicionalmente, uma mini-figura de um bebé alusiva à representação cristã do menino Jesus). A principal diferença entre os dois é a fruta cristalizada. Este desvio na narrativa — um momento fun fact, chamemos-lhe — serve para destacar estes mesmos frutos doces, que podem não aparecer na guloseima norte-americana, mas são pedra basilar na pastelaria britânica.

Estima-se que algures no século XVIII, uma escritora inglesa de livros de cozinha chamada Elizabeth Raffald criou a primeira receita dos sempre famosos bolos de fruta britânicos — ideia que nasceu da falta de métodos de refrigeração que havia na altura, pois a fruta cristalizada tem o condão de afastar o bolor –, criação foi um sucesso tão grande que em pouco tempo passou a ser a base de todos os bolos de casamento Reais. No casamento da rainha Victoria, em 1840, a sobremesa que foi servida não fugiu à regra que Raffald (acidentalmente) criou e, segundo relatos históricos, foi a partir daqui que nasceu a obsessão do público pelos bolos de casamento reais, tal era a imponência da guloseima em questão (tinha três metros de circunferência e uma série de estatuetas que variavam entre representações de cupidos, pombas e um dos cães favoritos de Victoria).

Um século depois desta primeira extravagância açucarada, a fórmula base dos bolos reais mantive-se praticamente intacta, até mesmo quando Isabel II e Philip se casaram, em 1947, altura de racionamentos motivados pela Segunda Guerra Mundial. Houve bolo de fruta no casamento de Carlos e Diana, Carlos e Camila, Andrew e Sarah Ferguson, Anne e Mark Phillips e até com William e Kate. Contudo, neste último, as coisas começaram a mudar. Por expresso pedido do noivo, nestas últimas grandes núpcias reais, foi feito um segundo bolo, a ser servido ao mesmo tempo que o oficial (sim, o de frutas cristalizadas), cujos únicos ingredientes eram chocolate preto e biscoitos de manteiga — duas das guloseimas favoritas da atual Duquesa de Cambridge. Este pedido, que na altura foi tido como sendo meio rebelde, abriu portas para a mudança de paradigma que ganhará forma no próximo sábado.

Esboço do bolo de casamento da rainha Victoria. © D.R.

“Bolos de frutas são uma espécie de piada cruel”

Claire Ptak é a autora desta citação retirada de uma peça da The New Yorker. Nascida no estado da Califórnia, nos EUA, esta chef pasteleira (que trabalho no famoso Chez Panisse, da célebre Alice Waters) afirma que nunca foi fã do típico bolo inglês, sentimento que a deixou preocupada quando soube que tinha sido escolhida para fazer o bolo de Harry e Meghan. Felizmente para ela, Harry é o sexto na linha de sucessão — é bastante provável que nunca chegue a ser Rei — e isso dá ao casal ainda mais liberdade para quebrar tradições.

“Quis incorporar os sabores refrescantes da primavera”, afirmou no Claire na mesma peça da revista norte-americana. Segundo o vídeo partilhado pela Casa Real, o interior do bolo, os “andares” de massa, vão ter sabor de limão e, antes de começarem a serem empilhados, vão levar um banho de xarope de flor de sabugueiro. Entre cada camada será espalhado um lemon curd (espécie de compota feita com este citrino) e por fora haverá uma cobertura de creme de manteiga e várias flores comestíveis. No final, a norte-americana pretende que a doçura do creme de manteiga jogue com a acidez do limão de forma a alcançar “um equilíbrio perfeito”. Será assim o “bolo rebelde” do próximo sábado que, tudo indica, vai ser feito numa cozinha de apoio e, mais tarde, transportado para o Castelo de Windsor.

Qualquer evento deste género é terreno fértil para interpretações simbólicas e este bolo não é exceção — começando logo pela escolha da Violet Bakery de Claire Ptak. São várias a vozes que afirmam que esta decisão foi motivada pelo facto de Markle já ter tido um site de lifestyle, pormenor importante se se tiver em conta toda a aura trendy que circunda à volta da pastelaria. Contudo, há quem vá mais longe e veja esta escolha como sendo um exemplo de que a Casa Real está em busca de uma imagem mais “moderna” e progressiva. Apesar de tudo isso, a pasteleira diz que espera apenas que o seu bolo sirva de inspiração para que as pessoas comecem a pensar mais em aspetos como o sabor dos ingredientes, a sua origem e sustentabilidade. Como neste caso quem “é mais bolos” é a chef Ptak, não há como não aceitar os seus argumentos.