Este domingo fez quatro anos que António Costa fez uma declaração durante uma qualquer cerimónia enquanto presidente da Câmara de Lisboa para desafiar o então líder socialista António José Seguro. Seguiu-se uma disputa fratricida para o PS de onde acabou por sair vencedor. Depois veio a esquerda. E agora? Agora vem um António Costa que não quer referências ideológicas, que pode dar para a direita ou para a esquerda, até porque este é o último congresso antes de eleições. E que eleições. No próximo ano, o líder socialista que é primeiro-ministro sem ter o seu partido como o mais votado das legislativas, vai pela primeira vez a votos em eleições nacionais desde o trauma de 2015. E este combate começou a preparar-se agora, no congresso do PS.

Discursou cerca de 40 minutos na sessão de encerramento do congresso que o confirmou como líder pela terceira vez seguida. Pôs-se fora de discussões ideológicas, deixou tudo em aberto para cenários pós-eleições, traçou objetivos eleitorais mínimos no continente, e máximos para a Madeira, e lançou uma nova geração. Mas também mostrou que tão cedo não quer sair de onde está. O Observador reuniu e interpretou as principais ideias do líder socialista.

Futuro “rejuvenescido” e “garantido” no PS

Iniciámos este congresso celebrando a história mas saímos do congresso focados no futuro porque temos agora uma nova direção do partido renovada e rejuvenescida (…) temos enormes motivos de confiança nesta nova geração de socialistas que garantirão ao PS muitos e bons anos de vida nas próximas décadas (…) Continuo a entender que é absolutamente essencial compatibilizar a ação na governação das freguesias, municípios, do Estado e das regiões autónomas com a vitalidade e autonomia do PS. Por isso, mais uma vez, vou utilizar a figura estatutária da secretária-geral adjunta e irei propor à Comissão Nacional a reeleição de Ana Catarina Mendes”

O arranque do discurso foi a falar para o partido para, antes de tudo o resto, “arrumar a casa” — usando uma expressão que fez escola quando assumiu a Câmara de Lisboa em 2007 — e para dizer três coisas: 1. renovou e rejuvenesceu a direção; 2. lá está o futuro do PS; 3. Ana Catarina Mendes vai continuar a ser os seus olhos no partido. Não disse, mas as coisas são como são: 1. que esta renovação se fez basicamente com muitas das figuras de sempre do costismo (Graça Fonseca e Fernando Medina são bons exemplos disso); 2. que o futuro do PS está garantido mas que, até ele querer, é ele quem manda (acabou por dizer isto bem mais à frente ao revelar que não vibrou com o pedronunismo como pareceu acontecer com a generalidade dos socialistas que foi até à Batalha); 3. que a tal renovação da direção foi com membros do Governo porque esta ligação é essencial para um partido que quer vencer as próximas eleições legislativas. Sinal de que vai estar mais ligado ao partido agora do que esteve nestes dois anos e meio em que é primeiro-ministro.

Vencer europeias por mais do que “poucochinho”

Como sempre temos sabido ser ao longo deste 45 anos, mantemo-nos fiéis aos valores do PS, da liberdade e da democracia, aos valores da igualdade e da solidariedade, à visão que temos de Portugal como país europeu e aberto ao universalismo. Temos sempre sido capazes de atualizar os valores de sempre, sendo sempre um partido do nosso tempo. Por isso saímos daqui com uma moção que se centra nas grandes questões estratégias que se colocam ao país nas próximas década e que têm de enformar o programa do Governo (…) E focada no futuro porque temos um calendário na preparação do próximo ciclo eleitoral”

Depois de assistir a dia e meio (mais as semanas que antecederam o congresso) de partido entregue a uma discussão ideológica entre a ala esquerda do PS e ao socialismo moderado do centro, António Costa aproveita a onda para se instalar comodamente na cadeira do pragmático e de não ter de tomar parte nesse debate entre a direita e a esquerda, até porque pode ter de vir a negociar com qualquer um dos dois — e neste discurso não privilegiou ninguém. Ou seja, vá o partido para onde for, o que interessa é que seja “fiel aos valores do PS, da liberdade e da democracia, da igualdade e da solidariedade”, diz. E que execute, nomeadamente nas quatro frentes de ataque que definiu na sua moção ao congresso: alterações climáticas, sociedade digital, demografia e combate às desigualdades. O próximo ano é de combates eleitorais decisivos (e possívelmente históricos, se Paulo Cafôfo conseguir dar a primeira vitória ao PS nas regionais da Madeira). Primeiro vêm as europeias e mais tarde chegam as eleições legislativas: será a primeira avaliação ao nível nacional que terá depois das eleições de 2015 que perdeu contra PSD e CDS coligados e a que só conseguiu dar a volta por via da “geringonça”. Sobre as europeias, Costa disse mesmo que o objetivo é “renovar e ampliar a vitória do PS” em 2014, o famoso resultado “poucochinho” que o fez desafiar a liderança de António José Seguro.

Uma espinha atravessada há quatro anos

Sabemos bem porque a educação é a nossa paixão porque é a base da sociedade do conhecimento que será o motor da sociedade de desenvolvimento (…) O que me orgulha é termos passado de 58 mil novos alunos no ensino superior em 2014 a 80 mil novos alunos este ano letivo, o que significa duas coisas: que a estratégia de reposição de rendimentos devolveu liberdade às famílias para investirem na educação dos seus filhos e que o discurso de que tínhamos licenciados a mais e que não vale a pena estudar, era um discurso que só conduzia ao fracasso do país e ao fracasso individual”

A paixão de Guterres volta a ser referida por António Costa, — não é de hoje, tem repetido o mesmo a cada congresso da sua era — a educação é a base de tudo. É também o pretexto certo para tirar uma espinha atravessada na garganta desde 2014, altura em que a chanceler alemã Angela Merkel disse, num discurso numa conferência da associação patronal federal alemã em Berlim, que Portugal e Espanha tinham licenciados a mais, o que impedia que os dois países valorizassem o ensino vocacional. Merkel dizia então que o caminho era “afastar-nos” da aposta no ensino universitário, valorizando antes o ensino profissional. A sala do congressos levantou-se para um longo aplauso a Costa nesta resposta que deu à chaceler alemã, sem dizer o seu nome. E ainda garantiu que se mantém “firme na ambição” de chegar a 2030 e subir de 40% para 60% a percentagem de jovens a frequentar o ensino superior.

Brevemente num Parlamento perto de si, parte I

Não basta ter mais emprego, se queremos fixar as novas gerações, temos de ter melhor emprego. Por isso, o combate à precariedade é absolutamente essencial, e na negociação que estamos a concluir na concertação social e na proposta de lei que apresentaremos brevemente à Assembleia da República vamos limitar as condições de contratação a termo.E uma das que vamos eliminar é ser candidato a primeiro- emprego. O ser candidato a primeiro emprego não significa ser candidato a emprego precário”

É uma novidade pré-anunciada pelo ministro Vieira da Silva que já vinha falando nisso, mas que António Costa aproveitou o discurso do congresso para concretizar dizendo que será apresentada “brevemente” a proposta que tem sido reclamada pelos parceiros de esquerda. Deixará de constar na lei laboral a possibilidade de contratar a prazo jovens à procura do primeiro emprego e desempregados de longa duração.

Brevemente num Parlamento perto de si, parte II (e outras promessas)

Vamos adotar já no próximo Orçamento do Estado um programa que fomente a possibilidade de jovens, que partiram sem vontade, terem a liberdade de voltar a Portugal (…) E faço aqui um apelo aos nossos parceiros sociais: temos de olhar para o desafio demográfico do nosso país, e construir um grande acordo de concertação social que vise conciliar a vida pessoal e profissional para, nos próximos anos, termos uma nova geração com mais confiança no futuro que pode ter os filhos e as filhas que desejar”

A sua moção de estratégia política chama-se “Geração 20/30” por causa do objetivo que António Costa coloca sobre as condições necessárias para fixar as gerações dos 20, 30 anos em Portugal (e com isto resolver também o problema da baixa natalidade). A primeira parte da frase traz o anúncio de um programa dedicado aos que saíram de Portugal nos últimos anos, sobretudo os anos da troika, para que regressem ao país, e que virá inscrito no Orçamento do Estado para 2019. E a segunda parte  fala de um conjunto de medidas que Costa quer tratar na concertação social. Não diz quando quer que isto aconteça e não detalha mais sobre o que pretende em concreto, apontando apenas como exemplos o alargamento dos direitos de assistência à família aos avós, e a criação de uma “nova forma de modelação do horário de trabalho ao longo da vida” que se adapte à necessidades das pessoas nas várias fases das suas vidas.

Pontos no i’s sobre excessos de protagonismo no congresso

O pulsar do PS manifesta-se na forma como somos capazes, cada um, de pensar sobre a sua própria cabeça e somos capazes de partilhar um projeto comum porque aquilo que nos une é muitíssimo superior aquilo que nos divide. E é muito gratificante ver — anunciando desde já que não meti os papéis para a reforma — que podemos olhar para o nosso futuro com enorme tranquilidade e satisfação porque vemos no futuro aproximar se uma nova geração com enorme potencial, enorme qualidade política e técnica, com preparação profissional e política para poder seguir com a bandeira do PS em punho”

Foi à António Costa. Ali no meio da frase elogiosa, como quem está a dizer apenas uma graça lateral, deixou cair um aviso significativo, tendo em conta que neste congresso muito se falou de pós-costismo, com o líder em funções ali sentado na sala e pronto a partir para novo ciclo eleitoral como líder do PS. “Anuncio desde já que não meti os papéis para a reforma”. A sala sorriu e António Costa fez uma pequenísssima pausa como que a avaliar os estragos da tirada que ia direita a nomes como o de Pedro Nuno Santos. O homem a quem entregou a coordenação da “geringonça” no Governo saiu deste congresso como um mais que confirmado futuro candidato à liderança do PS. Mas também saiu com a certeza que isso ainda virá longe, pelo menos no que depender de António Costa. Porque se o líder socialista até mostrou apreço pelos nomes que se começam a perfilar para o futuro, elogiando-lhes capacidades técnicas e políticas, também fez questão de pôr os pontos nos i’s: foi ele quem os escolheu e quem os está a lançar. Essas são jovens promessas, o líder ainda é ele.