Se costuma usar calças de ganga da marca Levi’s e está com receio de vir a pagar mais por elas devido às taxas alfandegárias que a Comissão Europeia quer aplicar a partir de julho a determinados produtos importados dos Estados Unidos, o seu medo não é infundado. A verdade é que tudo vai depender do local onde as calças de ganga forem produzidas.

A Comissão Europeia adotou esta quarta-feira uma lista de produtos importados dos Estados Unidos, incluindo sumo de laranja, milho doce, ‘bourbon’ e calças de ganga que vão passar a ser taxados a 25% na alfândega. Como perceber os efeitos imediatos que a medida pode ter?

“O importante é o certificado de origem que acompanha a mercadoria”, responde Bruno Bobone, o gestor e presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, ao Observador. Ou seja, se as calças forem produzidas em países como o México ou a Turquia, por exemplo, o preço não se irá alterar. Só se altera se disser Estados Unidos, porque aí serão aplicadas as taxas alfandegárias sobre o produto, algo que invariavelmente terá reflexo no preço final para o consumidor.

No caso do ‘bourbon’ não há margem de manobra. Como o produto é produzido no estado do Kentucky, o certificado de origem irá com certeza dizer Estados Unidos, ou seja, será aplicada a taxa alfandegária de 25%.

Em suma, em que é que se traduz este aumento das taxas alfandegárias? No bolso dos portugueses, pode não ter grande impacto. “Se encontrarmos alternativas aos produtos americanos, não há diferença de preço porque há outros fornecedores [de outros países] que não estão sujeitos a estas taxas”, diz o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa.

Isto é, a partir do momento em que as empresas portuguesas consigam ir comprar, por exemplo, sumo de laranja, manteiga de amendoim ou milho a outro país que não esteja sujeito a taxas alfandegárias, o produto que seja produzido nos Estados Unidos simplesmente deixa de ser vendido em Portugal, porque “não tem como competir” em termos de preços com os outros produtos.

“Se não houver forma de importar de outros países ou de o próprio país produzir os produtos, [os produtos americanos] deixam de ter preços para competir, então deixam de ser vendidos” no mercado português, afirma Bruno Bobone.

Claro que pode dar-se o caso de um produto vindo de outro país sair mais caro do que importá-lo dos Estados Unidos e pagar as taxas, mas é pouco provável porque o objetivo da Comissão Europeia é causar mossa nas “empresas americanas” e não na “população europeia”.

O gestor espera que estas taxas aplicadas pela Comissão Europeia tenham “o resultado esperado, senão estamos a prejudicar o comércio internacional” sem “objetivo concreto”.

De acordo com o responsável da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, tanto este aumento das taxas alfandegárias como a posição da administração Trump ao aplicar taxas adicionais às importações de aço e alumínio eram expectáveis. “Era uma notícia esperada porque os Estados Unidos têm um problema grave na balança de transações correntes.”

A ideia dos americanos é “equilibrar a balança”, mas a Comissão Europeia não perdeu tempo a reagir. O objetivo? Fazer com que as empresas americanas mais afetadas com estas taxas — aquelas que deixarem de conseguir vender os seus produtos nos Estados-membros da UE — se queixem ao Governo americano para levantar ou baixar as tarifas alfandegárias nos produtos que a Europa quer vender no mercado americano, nomeadamente o aço e o alumínio, refere Bruno Bobone.

“É uma questão de negociação política para tentar diminuir a pressão que os Estados Unidos estão a colocar nas alfândegas.”