A reconstituição do assassinato de Diana Quer — a jovem madrilena de 18 anos que foi encontrada morta dentro de um poço, no último dia de 2017 — é descrita pelos jornais espanhóis como um verdadeiro cenário de filme. Um Alfa Romeo como aquele que El Chicle conduzia na madrugada em que transportou Diana Quer, a 22 de agosto de 2016, foi trazido para o local. Um manequim com as dimensões e peso de Diana Quer também fez parte do cenário.

El Chicle, de 36 anos, “parecia uma estrela de um filme de ação”, como descrevem os jornais espanhóis. O autor confesso do assassinato de Diana Quer falou, gesticulou e movimentou-se à vontade. Foi até “amigável” com os inspetores. Na passada sexta-feira, El Chicle teve a última oportunidade de fazer um relato fiável dos factos e que pudesse beneficiá-lo mais tarde no julgamento. A reconstituição durou seis horas e nela já foram encontradas várias contradições.

“Tinha os olhos abertos e olhava para mim”. Do roubo de combustível ao estrangulamento acidental

“Como é que ele podia ir roubar gasolina aos feirantes? Estaria a assinar a sua sentença de morte”. Os moradores de Pobra do Caramiñal, citados pelo jornal El Progreso, não acreditavam em El Chicle enquanto o viam a correr de um lado para o outro a carregar bidões de gasolina, na reconstituição da noite de 22 de agosto de 2016. Mas o suspeito, detido há cinco meses, garantiu às autoridades que se dirigiu à localidade de Pobra do Caramiñal para roubar gasolina aos feirantes, que ali se encontravam para as festividades locais. El Chicle correu várias vezes e de forma rápida, enquanto era observado pelas autoridades. Justificou a facilidade com que conseguiu roubar o combustível pelo facto de fazer corrida.

Durante a reconstituição, El Chicle correu para mostrar como roubou os bidons com combustível (Foto: GabineteForte/Twitter)

Terá sido enquanto carregava os bidões de gasolina para o carro que Diana Quer apareceu e viu El Chicle a roubar o combustível. Usando o manequim, o suspeito exemplificou como estrangulou acidentalmente a jovem para evitar que ela o denunciasse pelo roubo. “Pus a minha mão no pescoço dela. Dei-lhe dois ou três golpes na cara. Vi que ela não se mexia. Tinha os olhos brancos. Tinha os olhos abertos e olhava para mim”, disse El Chicle, citado pelo canal de televisão La Sexta.

Recorde-se que o registo de mensagens do telemóvel de Diana Quer mostra que a jovem enviou uma mensagem às 2h40 da madrugada para uma amiga: “Estou a ficar com medo, um cigano está a chamar-me”. Questionada pela amiga, Diana reproduziu o que El Chicle lhe terá dito: “Morena, vem aqui”. Às 2h43, a jovem já não respondeu às mensagens e não chegou sequer a vê-las. Na reconstituição, El Chicle não mencionou qualquer conversa com a jovem.

Na reconstituição, foi utilizado um manequim com o peso e dimensões de Diana Quer (Foto: cuatro/Twitter)

“Não toquei na Diana. Tirei-lhe a roupa. No poço, já estava morta”. El Chicle continua a negar violação

Pensou em atirar o corpo de Diana ao mar, mas acabou por não o fazer. Decidiu colocar o cadáver na bagageira e conduzir, por estradas secundárias, até uma fábrica da zona industrial de Asados, na localidade de Rianxo, na Corunha — perto da casa dos pais do suspeito. Recorde-se que, na confissão que fez em dezembro, El Chicle disse que amarrou as mãos de Diana com braçadeiras de serrilha e usou o mesmo método para prender o pescoço ao encosto de cabeça do banco do carro, acabando por a estrangular. Teria sido no carro que a jovem morreu.

De acordo com o registo do telemóvel de Diana Quer, no caminho percorrido entre o rapto no passeio marítimo de Areal e o local onde escondeu o corpo, em Rianxo, houve uma paragem: na ponte de Taragoña — a cerca de 20 quilómetros onde a família estava a passar férias. Foi exatamente nesse local que tinha sido obtido o último sinal do telemóvel — El Chicle confirmou: “Atirei-o [o telemóvel] pela janela porque sabia que se não o fizesse, acabariam por me encontrar“.

O corpo de Diana Quer foi encontrado num poço de um fábrica abandonada (Foto: SpainToMinute/Twitter)

Chegado à fábrica, El Chicle livrou-se do corpo. Despiu Diana e atirou-a para um poço. Mas mantém a versão de que não a violou: “Não toquei na Diana. Não falei com ela. Tirei-lhe a roupa. No poço, já estava morta.” Foi nesse poço que Diana foi encontrada, amarrada a blocos de cimento, a oito metros de profundidade, no último dia de 2016.

Na confissão de dezembro, El Chicle tinha dito que estrangulou Diana depois de a tentar violar e de a jovem ter resistido. O resultado da autópsia foi inconclusivo, neste aspeto. As autoridades estavam convencidas que, estando o corpo da jovem submerso, estaria também conservado. Mas não: os restos mortais de Diana Quer estavam num estado de degradação tão elevado que foi impossível concluir se foi ou não violada antes de ser assassinada.

Foi levado para o cenário um Alfa Romeo como aquele que El Chicle conduzia na madrugada de 22 de agosto (Foto: GabineteForte/Twitter)

El Chicle garante que, depois de se ver livre do corpo, ligou à polícia duas vezes para dizer onde estava o cadáver. Mas, segundo ele, as autoridades apenas lhe pediram o email.

Já passava das 15h00 da tarde. El Chicle já tinha levado as autoridades à fábrica onde deixou o cadáver. Todos estavam convencidos que a reconstituição estava terminada, quando o suspeito continua a contar a história e dirige-se para a zona de A Escravitude, a mais de 40 quilómetros da fábrica. Foi lá, num descampado, que se desfez de “alguns elementos que faltavam”, como a roupa de Diana Quer — que foi, de facto, encontrada nua.

“Estar tão perto do assassino da minha filha é muito duro”. Mãe e irmã acompanharam reconstituição

Não conseguiram conter as emoções. A mãe e a irmã de Diana Quer estiveram presentes na área onde o crime estava a ser reconstituído. “Estar tão perto do assassino da minha filha é muito duro”, admitiu a mãe. Durante o processo, a mãe e irmã abraçaram-se várias vezes. Foram sendo acompanhadas por agentes da autoridade e psicólogos que as consolaram.

A mãe e irmã de Diana Quer estiveram presentes durante a reconstituição do crime (Foto: GabineteForte/Twitter)

Para o advogado da família de Diana Quer, Ricardo Pérez Lama, a reconstituição “revela que El Chicle mentiu” porque existem “múltiplas contradições”. “As movimentações dele são muitos boas, mas não coincidem com a realidade”, defendeu Pérez Lama.