Cinema

“Ocean’s 8”: agora são elas, mas o filme é o mesmo

Sandra Bullock e Cate Blanchett sucedem a George Clooney e Brad Pitt em "Ocean's 8", que segue a receita da trilogia de Steven Soderbergh que estes interpretaram. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Depois do equivalente feminino de “Os Caça-Fantasmas” em 2016, eis agora a versão com senhoras dos “Ocean’s…” realizados por Steven Soderbergh e liderados por George Clooney e Brad Pitt, que tiveram três manifestações no cinema, respectivamente em 2001 (“Ocean’s Eleven-Façam as Vossas Apostas”), 2004 (“Ocean’s 12”) e 2007 (“Ocean’s Thirteen”) e depois se finaram na bilheteira. É inútil invocar quaisquer pretensões “feministas” por parte dos responsáveis pela série. Este “Ocean’s 8” realizado por Gary Ross, que também escreveu o argumento com Olivia Milch, é um frio e pragmático empreendimento comercial, cujo objectivo é renovar a “franchise” e mantê-la a render.

[Veja o “trailer” de “Ocean’s 8”]

A única diferença em relação à trilogia de Soderbergh é que nos filmes que a compõem ainda havia espaço para pelo menos uma personagem principal feminina, e daí as presenças de Julia Roberts, Catherine Zeta-Jones e Ellen Barkin. Em “Ocean’s 8”, e se excluirmos as breves participações de Elliott Gould e de Shaobo Qin, os dois únicos papéis masculinos com um bocadinho mais de relevo vão para Richard Armitage, que faz um canalha, e James Corden, um detective de seguros despiciendo. Em tudo o resto, o filme cola-se fiel e monotonamente à fórmula estabelecida por  Steven Soderbergh, que reproduz a cartilha deste tipo de “heist movies”.

[Veja a entrevista com Sandra Bullock e Cate Blanchett]

Sandra Bullock é Debbie Ocean, a irmã do Danny Ocean personificado por George Clooney nos filmes originais, que sai da cadeia, depois de lá ter passado quase seis anos, vestida e maquilhada como se tivesse passado uma temporada num hotel de cinco estrelas. Mal se apanha cá fora, Debbie vai à procura de Lou (Cate Blanchett), sua velha amiga e parceira de vigarices, para lhe propor o plano de mais uma golpada impossível, plano esse totalmente à prova de bala e que requer apenas alguns fundos e uma equipa de especialistas em várias áreas. Trata-se de conseguir que a Christie’s tire dos seus cofres uma jóia valiosíssima e antiga, e depois roubá-la durante a gala anual do Met, em Nova Iorque. Coisa pouca.

[Veja a entrevista com Anne Hathaway]

A dita equipa de especialistas é formada segundo cuidadosas quotas politicamente correctas — Hollywood tem um medo que se fina de não respeitar a “diversidade” — , e inclui, entre outras, Rihanna numa lacónica “hacker”, Helena Bonham Carter numa estilista fora de moda e à beira do colapso contabilístico e anímico, ou Mindy Kaling numa perita em joalharia. Em “Ocean’s 8” vigora a lei do menor esforço, não há uma só tentativa de introduzir algo que seja original ou surpreendente. Até o “twist” final, envolvendo a personagem de Anne Hathaway, que se diverte a fazer de celebridade tão boazona quanto burra, não o é, porque mesmo o espectador mais distraído já o adivinhou uma boa meia hora antes de acontecer, tão chapadamente previsível é o enredo.

[Veja a entrevista com Helena Bonham Carter]

Isto sem falar na inverosimilhança que se instala bastante cedo em “Ocean’s 8”. Tudo corre impossivelmente bem, não há lugar para o imprevisto ou para o acaso, e as espantosas aptidões de cada membro da quadrilha, o impecável sentido de organização, as várias tecnologias utilizadas e a infalível articulação entre elas pertencem ao cinema de fantasia ou de ficção científica, e não a um “filme de assalto” com pretensões a ser tomado como minimamente “realista”. De zero a dez, “Ocean’s Eleven” marca um no mostrador do entretenimento e zero no da credibilidade, estando ao nível de “Ocean’s Thirteen”, o pior da trilogia “masculina” com Clooney e Pitt.

[Veja a entrevista com o realizador Gary Ross]

Hathaway e Bonham Carter protagonizam dois ou três momentos de comédia bem apanhados, Bullock é divertida a falar alemão e o resto é espuma, palha, cintilações, um punhado de “celebridades” da vida real em “cameos”, os necessários rapapés à “Vogue” e a Anna Wintour, e muitos bocejos. E já se anuncia no horizonte a inevitável continuação.  Irá chamar-se “Ocean’s 9”? Talvez “Ocean’s 8,5”? Tanto faz, vai ser mais do mesmo. Ou no caso, das mesmas.

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