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Uma bandeira portuguesa identifica o grupo de pessoas de boné verde na cabeça que segue pela Via dei Portoghesi, em Roma, rumo à igreja de Santo António dos Portugueses. Uma excursão de uma paróquia da zona de Leiria, a visitar Roma este fim de semana, ajustou o programa para poder estar presente ali às 18h para a primeira missa presidida por D. António Marto, o novo cardeal português. À porta da igreja — de que o patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, é o cardeal titular — o bispo de Leiria-Fátima desdobra-se em cumprimentos.

“Que bela surpresa ter cá os meus conterrâneos”, comenta, quando se aproxima um pequeno grupo vindo da zona de Chaves, de onde é natural. Agora, só lá vai “depois das férias grandes”. Diz que tem “a agenda mais cheia” desde que foi criado cardeal, na quinta-feira, pelo Papa Francisco, porque “já não é só a diocese”. Com efeito, a responsabilidade de D. António Marto divide-se agora entre a gestão da diocese de Leiria-Fátima e o contributo para a definição das políticas da Igreja Católica em todo o mundo.

Não se sabe ainda em que departamento concreto dará esse contributo, uma vez que ainda não foi revelado qual o dicastério ou congregação de que, enquanto cardeal, vai ser membro. Mas deixou no ar a ideia de que já poderá estar escolhido. “Já apareceu uma coisa à qual não posso dizer que não”, disse à entrada da igreja onde presidiu pela primeira vez a uma missa enquanto cardeal — em português, com portugueses.

Como prometido, apareceu sem as vestes corais cardinalícias, de que não deverá fazer muito uso. Apenas um fato e uma camisa com cabeção, como um simples padre. Além dos familiares mais próximos e da comitiva que veio a Roma desde a diocese de Leiria-Fátima, juntaram-se ao cardeal vários dos portugueses que trabalham na Cúria Romana e nas instituições pontifícias e os padres portugueses que estudam em Roma.

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A missa, a que assistiram a ministra da Justiça e o embaixador de Portugal junto da Santa Sé em representação do Governo português, foi toda ao estilo de D. António Marto, que é o estilo do Papa Francisco. Simples e sem grandes adornos — o cardeal nem usou mitra. Agradeceu aos presentes o apoio na “nova missão” que o Papa Francisco lhe confiou e lembrou os tempos de juventude em Roma e todas as missas em que participou naquela igreja, “sinal da presença de Portugal em Roma”.

Na primeira missa, D. António Marto deixou clara qual vai ser a sua atitude no cardinalato: chegar às periferias, tal como o Papa Francisco. Tal como o Papa Francisco, cujos planos para reformar a Igreja Católica têm no bispo de Leiria-Fátima um apoiante convicto. Referindo-se à leitura do Evangelho em que Jesus Cristo “toca” em duas mulheres consideradas impuras pela sociedade e em quem ninguém podia tocar, D. António Marto disse que aquelas são “situações expressivas das periferias humanas e existenciais”, usando a mesma expressão repetida pelo Papa Francisco.

“Não é um ato mágico”, advertiu o cardeal, explicando que o “toque” de Jesus é “um ato muito humano de contacto”. E citou o Papa Francisco que na missa de sexta-feira sublinhou como “Jesus toca a miséria humana e convida-nos a tocar a carne sofredora dos outros”. E o cardeal, apoiante firme do Papa Francisco, concretizou: “Os prisioneiros, os refugiados, os escravizados”.

No final da missa, o monsenhor Agostinho Borges, reitor da igreja de Santo António dos Portugueses, lembrou os tempos em que foi próximo de D. António Marto no seminário do Porto e confessou ser-lhe “devedor” em termos de fé, antes de anunciar a realização de um convívio nos espaços do instituto português em Roma, logo atrás da igreja, para os cumprimentos ao novo cardeal. Na zona do convívio, porém, o assunto começou a mudar. Dali a uma hora começava o Uruguai-Portugal e todos os portugueses queriam ir procurar um local onde fosse possível ver o jogo. Até o próprio cardeal.