Abdusalam foi um dos prisioneiros que caminhou pelas 23 celas de Ogaden, a cadeia na Etiópia que a Human Rights Watch (HRW) denunciou como tendo sido palco de torturas e abusos bárbaros contra os detidos. E contou, na primeira pessoa, os horrores a que foi submetido.

“Deram-me choques elétricos nos testículos enquanto me tapavam a boca para não gritar”, contou à organização de defesa dos Direitos Humanos, recordando que esses momentos de tortura eram os únicos em que sentia um toque humano.

Ao todo esteve três anos em absoluta escuridão. Mas não foi o único da sua família a passar pelo horror de Ogaden.

“Violaram a minha esposa, e ela deu à luz, dentro da cela, um filho que não era meu”, contou Abdusalam. O homem foi metido na prisão sob a acusação de pertencer à Frente Nacional de Libertação de Ogaden (FNLO), um grupo separatista que luta pela autodeterminação da região face ao governo etíope.

Imagem de satélite da prisão Ogaden, oficialmente conhecida como prisão central de Jijiga, no leste da Etiópia

No interior das muralhas de cimento de Ogaden, e sob constante observação das oito torres de guarda, encontram-se criminosos, combatentes da FNLO, mas também vários civis acusados de fornecer comida, água e abrigo à FNLO. Todos estão em condições de grande debilidade, assegura a HRW.

Por baixo das torres da vigia estão as celas. Algumas destas celas são subterrâneas, reservadas para os prisioneiros de alto risco, em solitária. Uma delas é a cela 8.

Hassan, de 28 anos, lembra-se bem da cela 8, que se dividia em várias pequenas divisões.

“Nos quartos mais pequenos há um gancho no qual me penduraram pelos braços”, recorda Hassan. Quanto estava pendurado, só as pontas dos dedos dos pés tocavam no chão. A cara roçava constantemente pela parede áspera da divisão.

“Atiravam-me com água enquanto me interrogavam”. No oitavo dia após ter entrado na prisão foi levado para uma piscina dentro das muralhas. “Estava nu, atiraram-me para a lama e obrigaram-me a rebolar nela”, relatou.

Hassan recorda-se particularmente da forma como lhe batiam com uma vara nas unhas e o obrigavam a passar os braços por baixo das coxas até que chegassem às orelhas. Forçaram-no a ficar suspenso nessa posição. “Se caísses, batiam-te até ficares inconsciente”, conclui.

À noite, as celas são bafejadas por um vento quente e húmido. A paisagem de Ogaden compõe-se de colinas nuas, densos arbustos e alguma pastagem.

Um dos presos contou à Human Rights Watch que “todas as noites morria alguém” no quarto em que estava. “Alguns sucumbiam à fome, outros por causa dos espancamentos. Os corpos permaneciam nas celas durante vários dias”, disse.

Densos arbustos, pastagens e colinas nuas pintam a vista de Ogaden.

Um cadáver solta cerca de 30 químicos diferentes. Os gases produzidos pela decomposição emitem um odor singular. O sulfureto de hidrogénio cheira a ovos podres e o metanotiol lembra couve apodrecida.

Felix Horne, redator do relatório da Human Rights Watch que denuncia as situações aterradoras dentro da prisão de Ogaden, afirmou que, “embora a tortura nas prisões seja um problema sério por toda a Etiópia, esta prisão está num patamar nunca antes visto”.

Além disso, garantiu nunca ter visto – ao longo de todos os anos de investigação humanitária na Etiópia – um ciclo de violência tão vicioso como na prisão de Ogaden.

Baseado em quase 100 entrevistas, incluindo 70 a antigos prisioneiros da cadeia, o trabalho sublinha o papel desempenhado por uma força policial, denominada de Liyu, de 40 mil homens, liderada pelo chefe de segurança regional, Abdi Iley. A Liyu foi criada em 2008 para lutar contra a insurreição armada  da Frente de Libertação Nacional de Ogaden.

O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, assumiu funções em abril deste ano e tem promovido um programa de reformas, incluindo a libertação de milhares de prisioneiros e o perdão de vários ativistas e políticos.

Abiy Ahmed, o primeiro-ministro da Etiópia

Entretanto, o gabinete de conselheiros de Abiy recomendou que o primeiro-ministro retirasse a FLNO da lista de grupos terroristas no país.

Pouco depois do lançamento do relatório da Human Rights Watch, o governo demitiu vários altos funcionários do serviço federal de prisões, incluindo o seu diretor.

Ayan, uma antiga prisioneira, de 40 anos, contou outros abusos contra os detidos.

“Muitas vezes alinhavam-nos em frente de vários homens, tiravam-nos as roupas e forçavam-nos a ficar nuas à frente deles. Em cinco ocasiões, vi-os a amarrarem uma lata cheia de água aos genitais de um homem, enquanto o obrigavam a andar à frente do grupo. Uma vez deitaram-me nua no chão e puseram-me a rebolar na lama. Lembro-me de um senhor velho com a filha… despiram-nos e obrigaram-nos a permanecer um em frente ao outro. Sentiamo-nos tão envergonhadas ao sermos expostas assim à frente dos homens”, relatou.

Todas as 32 ex-prisioneiras entrevistadas pela Human Rights Watch descreveram ter testemunhado mulheres a dar à luz dentro das celas. Dez ex-prisioneiras disseram que todos os partos aconteceram sem cuidados médicos qualificados e sem condições de higiene.

Ayan, presa durante 4 anos, recorda-se do momento em deu à luz: “O guarda disse-me para atirar o bebé para a sanita. Disse-me que o meu filho não prestava, que ia crescer e tornar-se membro da FNLO. Pedi para ser levada para um hospital e ele simplesmente riu-se. Por isso, dei à luz na minha cela. A mulher que me ajudou tinha um pedaço de metal afiado e usou-o para cortar o cordão umbilical”.

“Apenas peguei no bastão e comecei a aplicar a lei que já estava em vigor.”

Na prisão de Ogaden dá-se um outro fenómeno: os prisioneiros tornam-se guardas e depois “fazem aos outros aquilo que lhes foi feito”.

Um guarda prisional, antigo prisioneiro, descreveu o fenómeno. “Não posso negar ou esconder que houve tortura. Quando fui preso, fui espancado todas as noites. As minhas costelas estão partidas por causa disso. E quando saí nunca recebi qualquer tipo de treino, apenas peguei no bastão e comecei a aplicar a lei que já estava em vigor”, admitiu.

Já Abdirahmen recorda a prisão como se tivesse acordado de um sono profundo. “Era-nos pedido constantemente que humilhássemos os outros presos. Mas o pior dia foi quando agarraram em alguns de nós, deram-nos uns bastões em metal e disseram-nos para lutarmos até à morte. Se recusasse tinha de cometer suicídio”, afirmou.

O governo regional da área em que se situa a prisão rejeitou todas as acusações. O porta-voz do governo regional, Idris Ismael, afirmou que o relatório da Human Rights Watch não passa de uma “uma campanha de difamação” disfarçada de “preocupação pelos direitos humanos”.

Avançou ainda que a “prisão de Ogaden é um centro de reabilitação equipado com camas modernas”. “Os prisioneiros recebem educação, cuidados de saúde e todas as outras coisas essenciais numa prisão”, salientou.

No entanto, também admitiu eventuais maus comportamentos, em nome de algo superior: “O governo regional aceita que, para que seja construída uma ordem democrática, tenham de existir erros”.