Vinte anos depois, a França voltou a ser campeã do mundo. E 20 anos depois, a França ganhou porque foi a equipa que melhor interpretou a evolução do futebol para uma nova era que quebrou mitos e assumiu a robôtização do jogo.

Esta França já não tem um ’10’ como Zidane que está a fazer coisas antes de todos nós imaginarmos o movimento seguinte. E aprendeu com a derrota frente a Portugal na final do Europeu de 2016: abandonou aquela postura narcisista de ter obrigatoriamente o controlo do jogo em posse, ganhou pragmatismo no último terço e potenciou o talento dos elementos mais criativos assente numa solidez coletiva que marcou a diferença neste Mundial. Percebeu, sobretudo, aquela velha máxima de Phil Jackson de que os ataques ganham partidas e a defesa conquista campeonatos. Hoje, o futebol é um jogo mais físico e mais tático. Os miúdos com 13 ou 14 anos ouvem palavras como “bascular ou “entre linhas” quando, há 20 anos, andavam apenas entretidos a explorar o talento puro e inato com bola. Estas são as regras do jogo. E Deschamps sabe disso.

O triunfo por 4-2 da França diante da Croácia, numa final atípica, confirma todas essas mudanças no futebol mundial ao longo de duas décadas e conseguiu coroar uma equipa que jogou sempre com um ‘9’ com características distintas daquele “matador ” a que estávamos habituados e que não fez um único remate enquadrado ao longo deste Mundial (Giroud). Uma equipa que, sem extremos puros, conseguiu sempre dar largura ao seu jogo. Uma equipa que, sem um elemento puro nas costas do avançado, colocava sempre duas ou três unidades em zonas de finalização. Com métodos, ideias e filosofias distintas, foi assim que Portugal foi campeão europeu. E foi aí que a França começou a ser campeã do mundo. Ah, com um pormenor igual a 1998: também aí, com Deschamps como capitão e não no banco, o ‘9’ Guivarc’h era falado por… não marcar.

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O encontro começou de forma previsível mas ao mesmo tempo atípica. A França sente-se muito confortável em campo quando dá a iniciativa de jogo ao adversário mas não estaria à espera de uma versão inicial desta Croácia com zonas de pressão e linhas tão subidas como se viu. Este estilo estaria sempre dependente do critério do árbitro Néstor Pitana ao longo do jogo porque algumas faltas feitas por Modric e Rebic (que é avançado mas também o jogador com mais infrações de toda a competição, o que mostra bem essa tendência dos balcânicos), mas foi resultando ao ponto de bloquear por completo a zona de construção de Pogba, Matuidi ou Kanté, o pequeno grande guerreiro que aos 15′ tinha mais bolas perdidas do que recuperadas.

Strinic, numa boa combinação pela esquerda, demorou um segundo a mais a cruzar que foi suficiente para Mbappé conseguir cortar para canto (isso mesmo, o avançado na sua área quando ainda não tinha entrado na contrária). Perisic, após um grande passe longo de Rakitic com aquela precisão de relógio suíço com que pauta o jogo a meio-campo, recebeu mal e deixou fugir uma boa oportunidade para criar perigo. A Croácia tinha mais posse, mais domínio territorial e maior controlo; a França, a jogar pouco ou nada e sem ter sequer feito um remate, acabou por adiantar-se no marcador.

Na primeira vez que Mbappé conseguiu ganhar em velocidade pela direita e entrar na área, o cruzamento até saiu para um corte fácil de Vida, Griezmann ganhou a segunda bola – e é com estes pequenos pormenores que o avançado faz a diferença – e sofreu falta de Brozovic, num daqueles lances que não entra no raio de ação do VAR mas que podia quiçá ter sido anulado. Livre batido pelo jogador do Atl. Madrid em arco, daqueles que pedem apenas um pequeno raspão de cabeça, e desvio infeliz de Mandzukic, futuro companheiro de Ronaldo na Juventus que tinha decidido a meia-final com a Inglaterra, que esteve em dúvida para este encontro e que acabou por marcar o primeiro autogolo numa final… e da carreira (17′).

Mesmo para jogadores batidos que já viveram inúmeras experiências melhores ou piores na longa carreira como profissionais de elite, este é do tipo de lances que deixa marca. A Croácia tentou manter-se fiel aos mesmos princípios com que começara o jogo, mas o cérebro de Modric, o coração de Rakitic e o pulmão de Brozovic começaram a funcionar com complicações na ligação às unidades mais avançadas, tanto que, em alguns momentos, Mbappé conseguiu entrar no seu habitat natural com espaço a ser lançado em profundidade e só não fez mais mossa porque Vida, de carrinho, lá conseguiu evitar aquela última mudança que por norma causa acidentes no adversário. Houve pontos no ADN do conjunto de Dalic que falharam, mas nada que o golo do empate não conseguisse recuperar e também de bola parada: livre batido por Modric longo para Vrsaljko, toque de cabeça para Mandzukic que ganha a Pogba no ar, amortecimento meio atabalhoado de Vida para Perisic e trabalho na área para o remate cruzado sem hipóteses para Lloris (28′). Não foi às três tabelas, foi aos quatro toques – e resultou.

Mas esta era mesmo a tarde em que os heróis trocavam a máscara e capa pela de vilões num ápice. Aconteceu com Mandzukic, aconteceu com Perisic: na sequência de nova bola parada, o jogador do Inter cortou a bola com o braço, o jogo esteve interrompido algum tempo depois da indicação do VAR, Pitana foi confirmar à TV no relvado e assinalou mesmo grande penalidade que Griezmann, o homem infalível neste tipo de situações, transformou em 2-1 aos 38′. Pormenor: não foi por acaso que escrevemos no Observador de manhã que o resultado desta final passaria muito pelo jogador colchonero e a verdade é que, posicionamentos, decisões e jogo sem bola à parte, esteve em 13 golos nos últimos dez jogos franceses no Europeu de 2016 e no Mundial de 2018. E tudo começou num pontapé longo de Lloris e num corte para canto…

Desde 1974 que não se via uma final com três golos ao intervalo mas as partes atípicas neste encontro decisivo não ficariam por aí. Aliás, bastaram 20 minutos para cair outra referência olhando para os números das outras finais – as decisões no prolongamento ou mesmo nas grandes penalidades. E tudo porque quando as pernas estão mais pesadas, a cabeça pensa pior.

A Croácia já tinha conseguido inverter desvantagens com a Dinamarca, com a Rússia e com Inglaterra. E entrou com essa vontade, apostando no tipo de jogo que mais incómodo causava nos sempre seguros defesas franceses: as diagonais das unidades mais avançadas, neste caso com Rebic a sair da direita para o corredor central, a receber bem um passe longo de Rakitic e a rematar forte para grande defesa de Lloris para canto (48′). Dalic fez subir as linhas, deu ainda mais a batuta de jogo a Modric (que tem pormenores de verdadeiro fora de série com a bola nos pés) e arriscou porque sabia que se colocava a jeito para tão depressa fazer o 2-2 como sofrer o 3-1, o 4-1 ou o 5-1. Ficou pelos quatro, mas foi isso que aconteceu.

Aos 59′, Pogba recuperou uma bola a uns dez metros da sua área, descaído sobre a esquerda, e lançou longo na direita para a velocidade de Mbappé (que já tinha obrigado Subasic a defesa apertada numa cavalgada que deixou Vida para trás em poucos metros). O avançado do PSG, face ao posicionamento de Strinic, acabou por temporizar, acelerou num último momento, cruzou para a área, Griezmann amorteceu e de novo Pogba, à segunda, rematou sem hipóteses para o 3-1. Pouco depois, no limite do discernimento que a Croácia ainda procurava ter, Mbappé acabou por aproveitar a passividade da defesa balcânica no ataque ao portador, puxou a culatra atrás e apontou o 4-1 quando faltavam 25 minutos para o final do encontro, tornando-se em paralelo o segundo mais novo de sempre a marcar numa final, apenas atrás de Pelé.

Lloris, com um erro de principiante a tentar fintar Mandzukic e a ver o avançado cortar a bola para dentro da baliza, ainda deu uma pequena esperança à Croácia aos 69′, mas o resultado já estava mais do que feito porque os três prolongamentos, o dia a menos de descanso e os 117 quilómetros a mais percorridos pelos jogadores de Dalic tiveram um peso determinante naquele momento em que a equipa tinha mostrado até agora ser capaz de encontrar forças onde elas já não existiam. Deschamps lançou N’Zonzi e Tolisso, trancou a “casa de máquinas” dos croatas e permitiu que os últimos minutos fossem feitos mais em festa do que outra coisa, apesar da serenidade do técnico gaulês no banco mesmo em período de descontos. Foi também com essa forma de ser que Deschamps se tornou este domingo o terceiro a ganhar o Campeonato do Mundo como jogador e treinador, a par de Zagallo e Beckenbauer. 20 anos depois, a França voltou a ser a melhor.