Tive uma Ideia

Uniphi. Estes estudantes precisam de 5 mil euros para pôr salas de estudo nos telemóveis de toda a gente

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A Uniphi nasceu das dificuldades dos estudantes em encontrar informação sobre onde estudar ou trabalhar. Agora, há uma campanha de crowdfunding para fazer da app cada vez mais uma realidade.

Da esquerda para a direita: João, Ricardo e Guilherme começaram a desenvolver a Uniphi há um ano. A app foi lançada em junho

Uniphi

Uma sala de estudo cheia, outra reservada apenas para os estudantes de uma faculdade, um espaço que estava encerrado — mas que o Google Maps indicava o contrário — e inúmeras pesquisas na Internet para encontrar um local disponível. O cenário que Ricardo Amaral Santos, estudante do quinto ano de Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico, encontrou enquanto procurava um sítio para estudar em Lisboa num domingo à tarde é uma saga partilhada pelos estudantes portugueses que, em época de exames, se apressam em procurar o sítio ideal para trabalhar fora de casa.

“Eu tinha uma necessidade muito grande de aproveitar os meus dias para estudar e isso não estava a acontecer”, explicou Ricardo ao Observador. Os vários projetos em que estava envolvido exigiam que soubesse “gerir bem o tempo com a universidade”, mas nem sempre era fácil. No meio de tanta informação dispersa, foram muitas as horas perdidas para saber onde poderia estudar e que condições tinham esses espaços. Foi nesse domingo de 2017 que Ricardo decidiu que algo tinha de mudar

 “Tem de haver uma maneira de todos os estudantes saberem esta informação de uma forma fácil e rápida”, pensou. A ele juntaram-se dois amigos em quem Ricardo confiava para a aventura: João Pedro Araújo, estudante do quarto ano de Engenharia Mecânica no Técnico e Guilherme Oliveira e Costa, mestre em Direito na Universidade Nova de Lisboa. Estava criada a ideia da Uniphi.

Em poucas palavras, é “uma espécie de TripAdvisor dos locais de estudo e trabalho”. Através desta aplicação, os estudantes ou profissionais podem encontrar de forma simples e gratuita um local para estudar e trabalhar que se adeque às suas preferências. Entre cafés, esplanadas, bibliotecas e salas de estudo das faculdades, já são mais de 220 espaços reunidos em três cidades: cerca de 200 em Lisboa, 10 em Coimbra e 21 no Porto. Em cada local, o utilizador pode aceder a informações como o horário, qual o transporte a utilizar, a limitação de entrada, a existência (ou não) de Wi-Fi e acessibilidades e até o nível de silêncio do espaço. A partir daí, faz a sua escolha e, caso falte algum local, há sempre a opção de sugerir.

O verão de 2017, contam os criadores, foi passado na casa de Ricardo para delinear as ideias do projeto, sempre depois de Guilherme sair do trabalho como animador no Jardim Zoológico de Lisboa. Têm “hábitos de estudo diferentes”, gostos distintos — Ricardo é apaixonado por carros, João tem um fascínio pelo mundo financeiro e empresarial e Guilherme adora viajar –, mas partilham a mesma necessidade e “uma forma parecida de ver o mundo”.

Aos pais dos jovens, a mensagem inicial foi comum: “É tudo uma brincadeira, vamos só abrir uma empresa, vamos brincar às empresas”, conta João. Mas acabou por ser mais do que isso. Pegaram no dinheiro dos trabalhos de verão e nas poupanças guardadas e fizeram um investimento que chegou aos 9.000 euros para a ideia seguir em frente. Este valor serviu para contratar dois programadores e um designer, para despesas legais, registo de marca, recolha de dados e algumas viagens de negócios. Mas, a verdadeira aquisição inicial da Uniphi, revela João, foi “o clássico quadro branco do OLX”, onde surgiram os primeiros rabiscos e “as ideias sobre aquilo que poderia ou não ser útil para os estudantes”.

Foi o nosso primeiro contacto com o mundo do empreendedorismo. O primeiro contacto que tivemos com isto de criar uma empresa na hora foi mais criar uma empresa num mês. Primeiro tivemos de descobrir um balcão que de facto abrisse uma empresa na hora, com o nosso contrato de sociedade”, explica Ricardo.

A app foi lançada em junho e conta com mais de 1.100 utilizadores registados e cerca de 7.000 pesquisas realizadas. Tudo isto “sem qualquer tipo de divulgação”, acrescenta Ricardo. O público alvo são os estudantes, mas a aplicação destina-se também a freelancers ou a qualquer pessoa que esteja à procura de um espaço para trabalhar. “Queremos também concentrar-nos no que é hoje em dia o nómada digital e o trabalho freelancer. Há muita gente que não precisa de um espaço para estudar, mas sim de um local para escrever, para trabalhar e estar no computador”, reforça Guilherme.

A procura por cada local incluído na plataforma é um processo que está em constante atualização e foram os próprios estudantes que dedicaram vários dias a andar pelas cidades para ver o que existia em termos de espaços. Guilherme chegou a fazer “15 quilómetros por dia a pé”. E a tarefa não foi fácil.

Tínhamos de analisar todas as características. Quantas tomadas têm, quantos lugares têm, se as tomadas estão nas paredes e não dão para as pessoas no centro, e de alguma forma ter essa informação disponível na app para quem quiser ver.”

Uma biblioteca “pode ser um sítio 100% conectado aos utilizadores”

Foi a partir desta recolha que o grupo concluiu que “a ideia de só ter uma app para locais de estudo era muito mais que isso”. Havia outros aspetos que também interessavam aos utilizadores, como a lotação em tempo real dos espaços. E esses aspetos exigem um processo mais complexo de acesso a dados, que está a ser planeado através de parcerias estabelecidas com várias instituições, como as bibliotecas de Lisboa, Loures e Cascais e a Universidade de Coimbra.

Queremos usar o que as tecnologias permitem numa coisa muito banal e quase à antiga que é, por exemplo, uma biblioteca, porque uma biblioteca não tem de ser um conjunto de livros em prateleiras, pode ser um sítio 100% conectado aos utilizadores, dando informações em tempo real, como a lotação, a temperatura do espaço, etc.”, refere Ricardo ao Observador.

Estas entidades foram a grande surpresa quando começaram a estabelecer contactos. Muitas quiseram saber mais sobre o projeto. Porquê? “Imaginem, se eles têm uma biblioteca que foi pesquisada às 19h e fecha às 18h, talvez possam ter um horário que se adeque melhor àquilo que os utilizadores efetivamente procuram e precisam”, explica João.

A ideia para o modelo de negócio da Uniphi passa precisamente pelas parcerias. “Para já, é um serviço gratuito e para os utilizadores sempre será. Nós pretendemos é que as nossas parcerias cresçam a partir daqui, ou seja, com a qualidade da informação que podemos transferir e transmitir e as conclusões que eles podem tirar, transformar essa mais valia em valor”. Aumentando a qualidade da informação, sublinha, os protocolos começam a ser pagos, ainda que o grupo ainda não tenha um valor definido.

Nós não começamos com um modelo de negócio, nós começamos como uma ideia. Somos estudantes e a lógica foi essa: vamos começar com um projeto e depois vamos tentar fazer um modelo de negócio para ele. Temos algumas ideias que podem tornar a Uniphi rentável, mas precisamos de mais tempo, de mais dinheiro e de uma equipa a trabalhar em full-time“, referem.

Uma campanha de crowdfunding e novas funcionalidades

Ricardo, João e Guilherme pretendem agora alargar a aplicação a mais cidades, mas essencialmente “deixar cair o Beta à frente de Uniphi e desenvolver mais funcionalidades”, refere João. Para isso acontecer, “é preciso mais financiamento” e, por isso, o grupo lançou uma campanha de crowdfunding, onde pretende angariar 5.000 euros para desenvolver novas funcionalidades como a lotação dos espaços em tempo real, o agendamento do estudo nos vários locais, a informação de atividades que existam em redor dos espaços, uma pesquisa por mapa e até a oportunidade de marcar estudo em grupo através da aplicação.

O financiamento, explicam, é essencial para o desenvolvimento da Uniphi e tem sido o maior desafio dos três estudantes: “É um bocado uma pescadinha de rabo na boca ou uma bola de neve: nós tendo dinheiro conseguimos contratar pessoas, ficando com as pessoas conseguimos desenvolver o nosso modelo de negócios, conseguindo depois tornar a Uniphi rentável”, explica Guilherme. Atualmente, a equipa da Uniphi é constituída por seis pessoas e alguns colaboradores externos.

A Uniphi está disponível para download em Android e Iphone

Os criadores planeiam também concorrer a vários apoios para startups, seja a nível financeiro ou outro tipo de ajudas. “Nós não queremos ser uma rede social. Nós somos um Excel bonito numa aplicação”, sublinha Ricardo, reforçando a importância da personalização para que cada utilizador possa escolher o seu local ideal para estudar ou trabalhar. “Discordarmos da abordagem de rede social porque senão caímos no mesmo problema: eu só conheço locais em Lisboa se tiver 30 amigos sociais. Apostamos um bocadinho numa vertente anti-social”, acrescentou.

O medo de falhar é inevitável, mas não faz diferença, garante Guilherme. “Já conversámos e não há tabus entre nós, e se isto fechasse amanhã eu não estava minimamente arrependido de ter gasto um ano da minha vida e dinheiro da minha parte, porque a experiência, aquilo que temos aprendido, as pessoas que conhecemos, todos os momentos altamente agradáveis valeram a pena.”

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.

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