Passou quase uma década desde que Sacha Baron Cohen fez algo de pertinente. A última vez foi com “Brüno” (2009) a terceira e última personagem que adaptou ao cinema saída de “Da Ali G Show” (2000), série cómica que inspirou outros dois filmes baseados em personagens, “Ali G” (2002) e “Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão” (2006). Depois de “Brüno”, Baron Cohen criou outras personagens que foram diretamente para o cinema, como Admiral General Aladeen em “The Dictator” (2002) ou o mais recente Nobby, em “Grimsby” (2016), um ato absolutamente falhado de misturar um jogo de espiões com um espírito bronco britânico muito 1990s.

A amostra a partir destas referências diz de imediato que Sacha Baron Cohen é muito melhor enquanto explorador de personagens que se instalam e vivem no mundo real. Quando é pura ficção, não tanto. É um tipo de humor que já teve o seu momento e que Baron Cohen explorou no seu tempo áureo – início do século XX – quando ainda lhe era permitido criar as personagens e colocá-las no mundo de um modo despercebido. Talvez por isso a coisa tenha estacionado no final da década passada: Baron Cohen parecia saber o seu limite, de que o confronto que o seu tipo de humor procura seria muito mais difícil – senão impossível – de funcionar.

Em 2018 Sacha Baron Cohen resolveu reentrar neste seu universo de ação, quando já se julgava impossível. O resultado é “Who Is America?”, série da Showtime que foi mantida em segredo até pouco tempo antes da sua estreia e que chega neste domingo a Portugal, uma semana após a sua estreia nos Estados Unidos, ao TVSéries às 21h30. “Who Is America?” encontra o humorista a voltar ao seu estado natural, num mundo em que se julgava impossível ele existir.

[O primeiro teaser revelado:]

Primeiro: porque é uma cara mais conhecida. Segundo: porque o momento atual nos Estados Unidos coexiste com uma sobrelotação nos média de pessoas que insistem em defender pontos de vista que estão mesmo a pedir uma caricatura. Terceiro: é mais difícil o seu humor sobreviver num contexto em que o público, no geral, se sente invadido pela ofensa e pareceu desaprender a importância da comédia enquanto arma. E, por último: porque a moda já tinha passado. A América que Borat conheceu já não existe e, mesmo se existisse, o mundo já não se ri da mesma forma dessa América.

Por causa de Donald Trump? Em parte, mas talvez seja também por causa de Donald Trump que Sacha Baron Cohen decidiu regressar aos seus métodos antigos. E isso é tangível pelo segmento do primeiro episódio que foi lançado para promover a estreia da série:

Daí advém o mais chocante após o visionamento do primeiro episódio de “Who Is America?”. Baron Cohen não mudou assim tanto. As pessoas reais que usa para o seu humor também não. Como foi dito, a série foi mantida em segredo, para manter o campo de atuação de Baron Cohen fora de contaminação, surpreender as pessoas que queria usar e entrevistar com novas personagens. E, sim, a pergunta surge: como é que alguém ainda cai nisto? A resposta parece simples – como sempre foi: a necessidade de protagonismo. Isso nota-se nas entrevistas que alguns dos apanhados deram antes da estreia da série, com medo de como iriam ser representados no trabalho do comediante. Basta ver as entrevistas de Joe Walsh e Sarah Palin para ver como isso aconteceu. O ego deles, a oportunidade de se mostrarem, falarem sobre temas que lhes convém, tudo isso cegou-os e tornou fácil serem apanhados.

No primeiro episódio nota-se que esse ainda é essa a vantagem de Baron Cohen. Os entrevistados caem na armadilha porque podem dizer o que quiserem através de um canal que o humorista cria. Esse canal é sempre uma personagem com um ponto de vista que deixa os entrevistados à vontade para morderem o seu isco.

Tal como noutros momentos, especialmente nos filmes (“Borat” e “Brüno”), as personagens de Baron Cohen são melhores quando sentadas em frente de pessoas que representam um ideal, uma solução, uma classe social. No primeiro episódio os dois melhores segmentos não serão, certamente, os mais populares (ou seja, aqueles que metem políticos ao barulho), mas os que exploram pessoas no seu habitat natural, perfeitamente confortáveis para discursar sobre algo que concordam ou discordam quando confrontadas com isso. O primeiro é num jantar à mesa com dois apoiantes de Trump (o cenário da refeição é um dos favoritos de Baron Cohen, no qual costuma apanhar as pessoas mais desprevenidas); o segundo, quando visita uma galerista e testa os limites daquilo que ela está disposta a aceitar como arte.

[Um excerto com Bernie Sanders:]

Soa a velho? Talvez. Numa altura em que os média estão saturados de exagero, é bem possível que a primeira reação a um programa assim vindo de Baron Cohen seja de que perdeu o seu espaço e de que se baseia em táticas antigas para explorar algo que tem um resultado gratuito. É verdade. Mas também é verdade que Baron Cohen no seu melhor sabe ferir e explorar esse exagero. E é isso que faz em “Who Is America”, a caracterização física das personagens é exageradíssima, as próteses ultrapassam o limite do real, como modelos do que vai errado quando se fazem demasiadas cirurgias plásticas, botox e muita maquilhagem. São bonecos, parecem bonecos, mas como muitas pessoas que aparecem na televisão, ou que querem ser vistas, se vestem também de bonecos, Baron Cohen passa mais despercebido do que nunca: em 2018 estamos mais à vontade para dizer o que pensamos e ter apoiantes, do quem em qualquer momento da primeira década deste século.

E é aqui que “Who Is America?” se torna relevante. Pensávamos que já não era bem assim. Baron Cohen não está a provar que estávamos errados, apenas continua a dizer que, por vezes, preferimos ser caricaturas do que dizer “não”. E isto nesta América de Trump, do pós-verdade e do politicamente correto funciona com pertinência e, claro, com humor.