Um monge budista, responsável máximo pela Associação Budista na China e uma figura próxima do círculo político do país, está a ser acusado de assédio sexual por várias freiras, segundo um relatório divulgado por dois outros monges membros do mesmo templo. O caso surge num momento em que o movimento #MeToo começa a ser discutido — e censurado — dentro da China.

Dois monges do templo Longquan, em Pequim, apresentaram um relatório de 95 páginas às autoridades chinesas em julho onde acusavam o monge Shi Xuencheng, abade do templo, de assédio sexual. No relatório, que acabou por ser divulgado nas redes sociais, os monges Du Qixin e Liu Xinjia escrevem que “grandes crises sociais estão por detrás das ações ilegais de Xuecheng”, pode ler-se no New York Times. O relatório inclui ainda documentação que sugere que o monge desviou quase 1,5 milhões de dólares. 

A Associated Press explica que os dois monges autores do relatório, que dizem ter entrado na vida monástica há mais de uma década, compilaram capturas de ecrã de mensagens de texto trocadas entre o monge e as freiras para servir de prova. Segundo o relatório, Xuecheng usava as mensagens de texto para controlar as freiras, dizendo-lhes que o estudo da doutrina budista a que estavam sujeitas incluía sujeição sexual ao monge. Seis freiras terão sido visadas e quatro delas terão cedido aos avanços de Xuecheng. A Time diz que uma das freiras apresentou queixa na polícia em junho.

“O templo de Longquan está sob o feitiço dele”, pode ler-se no relatório. “Xuecheng manipulou os seus discípulos para servirem o seu ‘império budista’.”

Xuecheng não só é um respeitado monge budista com vários livros publicados, como é o presidente da Associação Budista chinesa e é conselheiro político em vários organismos que aconselham o Governo chinês. O monge reagiu às acusações na sua conta da Weibo, a rede social chinesa mais conhecida, negando por completo o conteúdo do relatório. O templo também reagiu, acusando os autores do relatório de terem “distorcido factos e espalhado acusações falsas”, segundo a CNN.

As autoridades chinesas declararam na quinta-feira que vão investigar as acusações. No entanto, o assunto foi rapidamente censurado nas redes sociais chinesas, à semelhança do que tem acontecido com outros casos no país. Desde janeiro que têm surgido algumas acusações na senda do movimento #MeToo, mas limitadas ao meio académico, dos media e das ONG, como explica o Times. A China tem bloqueado a hashtag do movimento e censurado frequentemente o assunto nas redes.