Ao sexto dia, o incêndio em Monchique continua a não dar tréguas aos operacionais e meios de combate, havendo fortes reativações” geradas pelo vento. De acordo com os dados atualizados na manhã desta quarta-feira pela Proteção Civil, às 8h00, continuam no terreno mais de 1.400 operacionais, apoiados por dois meios aéreos e 450 viaturas.

O ponto da situação disponível na página da Proteção Civil indica que se regista “em todo o perímetro” do fogo fortes reativações que, associadas à intensidade do vento, “tomam de imediato grandes proporções”.

Desde ontem que os fogos na região de Monchique mantêm duas frentes ativas, obrigando a uma resposta reforçada das autoridades. O combate vai ser feito de forma “mais robusta”, anunciou esta terça-feira a segunda comandante nacional da Proteção Civil. “Existem duas frentes de incêndio onde existem mais pontos quentes e onde vamos entrar de forma mais robusta, sendo no lado virado para Silves e no lado virado para a zona da Fóia”, explicou Patrícia Gaspar.

A estratégia mantém a prioridade de defesa das pessoas. A opção tem sido a de preventivamente retirar rapidamente de lá as pessoas, com prejuízo para aquilo que são os seus bens”, frisou a segunda comandante nacional da Proteção Civil.

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Depois de alastrar até ao concelho de Portimão – cuja frente de incêndio já se encontra controlada -, o fogo dirigiu-se para Silves e destruiu várias casas à entrada da cidade. Diversas localidades do concelho de Silves foram já evacuadas e outras estão de sobreaviso, sendo a possibilidade de evacuação durante a noite bastante elevada. A localidade de Pinheiro e Garrado foi evacuada ainda antes da meia-noite desta quarta-feira. O presidente da Câmara Municipal de Monchique revelou ao Público que poderão chegar mais bombeiros vindos de Espanha. “Este incêndio já dura há tempo demais e tem de acabar rapidamente”, afirmou Rui André.

O fogo intenso, que entra hoje no sexto dia, já destruiu perto de 20 mil hectares. As últimas informações dão conta de que pelo menos 250 pessoas terão sido retiradas de casa, ao longo da noite, nas povoações em maior risco. Há ainda registo de 3 feridos, um deles em estado grave, mas com prognóstico favorável.

Coordenação passou para Comando Nacional

O ministro da Administração Interna anunciou que a coordenação passou para o comando nacional. Numa conferência de imprensa esta terça-feira ao final da manhã, Eduardo Cabrita admitiu concentrar a estratégia no Comando Nacional da Autoridade Nacional de Proteção Civil. Cabrita referiu ainda a “participação notável dos bombeiros portugueses” e da “intervenção local”. A operação passou assim da alçada do comando distrital de Faro para o comando nacional. 

Decidimos passar a coordenação desta operação, ao fim destes dias, para o nível nacional de coordenação, na dependência direta do senhor comandante nacional e da sua equipa. Isto permitirá reforçar a mobilização de meios. Queria transmitir aqui uma mensagem de serenidade, de tranquilidade, que é absolutamente necessária”, disse Eduardo Cabrita esta terça-feira.

Patrícia Gaspar considera a mudança do comando de operações em Monchique “normal”. A segunda comandante nacional da Proteção Civil rejeita qualquer ideia de “rotura” e justifica a alteração com a complexidade que se está a “estender no tempo e no espaço”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O combate ao incêndio que deflagra desde sexta-feira em Monchique tem sido dificultado pela intensidade e constantes mudanças de direção do vento e pela dificuldade de acesso dos meios terrestres ao terreno devido à densa vegetação existente, disse fonte do Comando Distrital de Operações de Socorro de Faro (CDOS). Uma previsão que não parece melhorar nas próximas horas, estando previstas temperaturas na ordem dos 35ºC e ventos fortes na região.

Presidente da Câmara de Monchique: “Prolongamento do incêndio é anormal”

Rui André, o presidente da Câmara Municipal de Silves, atribui as culpas do prolongamento do incêndio – que considera “anormal” – à má gestão florestal. “Todos sabemos que o mau ordenamento florestal está na base dos grandes incêndios e na dificuldade do seu combate, embora todos os anos se fale na mesma coisa, mas com pouca ação”, disse à Lusa o autarca.

Já começo a questionar tudo. Até um certo ponto parece que os meios seriam os suficientes mas, entretanto, foram levantadas uma série de questões ligadas à inoperância dos meios que não podiam trabalhar por uma razão ou outra. Passado este tempo todo o fogo não para, situação para a qual não encontro explicação”, destacou.

Rui André acrescentou que muitas casas de primeira habitação foram destruídas pelo fogo, “um número que não está ainda quantificado, embora as previsões apontem para mais de duas dezenas”.

Numa imagem partilhada no Facebook da Agência Espacial Europeia, o astronauta Alexander Gerst descreveu a vista para Portugal a partir do espaço. “Padrão meteorológico dramático por cima de Portugal. Parece uma mistura de pó, areia e fumo”, escreveu o astronauta.

Awesome view from ESA astronaut Alexander Gerst, taken yesterday 6 August 2018, froim the International Space Station. "…

Posted by ESA – European Space Agency on Tuesday, August 7, 2018

Há ainda outra zona preocupante para as autoridades, nas Caldas de Monchique, onde o fogo também está a lavrar “com muita intensidade”, acrescentou, referindo-se às termas, uma zona situada a cerca de quatro quilómetros da vila de Monchique e onde existem várias unidades hoteleiras, embora todas já tivessem sido evacuadas pelas autoridades no domingo. Este foco de incêndio obrigou inclusivamente ao corte da Estrada Nacional 266, disse à Lusa fonte da GNR. Esta estrada liga Monchique a Porto de Lagos, de onde depois se segue até Portimão, via Estrada Nacional 124. A fonte do CDOS referiu também que cerca das 00h chegou a haver um corte de energia em Monchique, mas disse desconhecer a causa.

Cerca das 20h de segunda-feira, o segundo comandante operacional distrital da Proteção Civil de Faro, Abel Gomes, admitiu no briefing aos jornalistas que o incêndio que pelo quarto dia lavra em Monchique voltou a agravar-se sendo o quadro geral da operação considerado “muito complexo”. Segundo o responsável, os locais mais preocupantes são a zona da Fóia e o sítio da Cascalheira, ambos em Monchique, e a barragem de Odelouca, já no concelho de Silves.

“A situação infelizmente alterou-se, tínhamos uma situação mais favorável e registaram-se várias projeções, as quais tiveram um comportamento bastante violento”, assumiu o segundo comandante operacional distrital da Proteção Civil de Faro, Abel Gomes. Segundo o responsável, o quadro meteorológico “não é favorável”, porque vão manter-se temperaturas altas e a humidade relativa vai continuar baixa, o que fazia antever “uma noite dura de muito trabalho”.

Fogo entrou no perímetro da vila de Monchique. “Operação é muito complexa”

Várias localidades na serra de Monchique com falhas nas redes móveis

Várias localidades na serra de Monchique estão sem telecomunicações móveis, estando as operadoras a aguardar autorização da Proteção Civil para intervir no terreno e restabelecer a totalidade das comunicações, afirmaram hoje as empresas. Contactada pela agência Lusa, fonte da NOS confirmou que o incêndio afetou “um ‘site’ móvel e alguns dos serviços fixos”, estando a empresa a aguardar autorização para poder reparar os danos causados.

Neste momento, os serviços que ainda não estão repostos — um ‘site’ móvel e alguns serviços fixos -, dependem apenas de autorização da Proteção Civil para que possamos iniciar os trabalhos de reparação da infraestrutura danificada e restabelecer, o mais rápido possível, os serviços aos clientes que foram afetados”, informou.

Fonte da Vodafone disse à agência Lusa que “desde esta manhã há duas estações em baixo”, devido à falha de energia que “poderão causar interrupções no serviço”. “Não conseguimos prever quando será solucionado o problema porque estamos dependentes do parceiro. Não se trata de serviços nossos queimados, mas sim de falta de energia que coloca as nossas estações em baixo”, afirmou. As duas estações localizam-se nas Caldas de Monchique, no concelho de Monchique.

Fonte da Altice Portugal afirmou que “está ativamente a colaborar com todas as autoridades” tendo alocado a Monchique, desde sexta-feira, “cerca de uma centena de técnicos especializados que acompanham o evoluir da situação no terreno”. Na madrugada desta terça-feira foram “danificadas estruturas de comunicação móvel”, estando a ser feita a reposição do serviço.

A Altice Portugal informou ainda que se “mantém atenta à operacionalidade da rede SIRESP” (utilizada pelas forças de segurança e socorro), que “até ao momento se encontra operacional e sem falhas relevantes”.

40 km de linha da EDP danificados; 3 localidades ainda sem eletricidade

Entretanto, pelo menos 40 quilómetros de linha da EDP ficaram danificados na sequência deste incêndio e 17 localidades sem abastecimento de energia elétrica, de acordo com a empresa. Por volta das 18:00 desta terça-feira, a energia já tinha sido reposta em 14 destas localidades, permanecendo três sem eletricidade (Melão, Açor e Umbria).

Segundo a diretora de comunicação da EDP Distribuição, Fernanda Bonifácio, mais de 30 quilómetros de linha de baixa tensão ficaram danificados e outros cerca de 10 quilómetros de linha de média tensão foram igualmente afetados pelo fogo na zona de Monchique. Atualmente, há 17 localidades na serra de Monchique sem abastecimento de energia elétrica, seja porque as linhas ficaram destruídas, seja por questões de segurança determinadas pela Proteção Civil.

Apesar de serem 17 as localidades sem energia elétrica, o número de pessoas afetadas “não é muito significativo”, segundo disse à agência Lusa a diretora de comunicação da EDP Distribuição. A empresa adianta que foram colocados dez geradores em várias localidades, mas só dois ainda se encontram ligados, porque se aguarda que estejam reunidas condições de segurança para ligar os restantes oito.

A EDP Distribuição decidiu prolongar o “estado de alerta” em toda a região do Algarve pelo menos até esta quarta-feira, tendo todas as equipas da região mobilizadas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ministério Público e Polícia Judiciária investigam fogo de Monchique

O Ministério Público (MP) e a Polícia Judiciária (PJ) estão a investigar o incêndio que deflagrou na sexta-feira no concelho de Monchique, distrito de Faro, disseram esta terça-feira à agência Lusa os dois organismos.

O Ministério Público do DIAP [Departamento de Investigação e Ação Penal] de Faro vai investigar os incêndios de Monchique, para determinar as suas causas e o seu eventual enquadramento legal”, refere a Procuradoria-Geral da República, numa resposta escrita.

Fonte oficial da PJ confirmou que a polícia “está a investigar” o incêndio, no âmbito desta investigação titulada pelo DIAP de Faro.

Plano de intervenção parado há meses

Há sete meses que a Associação dos Produtores Florestais do Barlavento Algarvio (Aspaflobal) está à espera que o Instituo de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) aprove um projeto de intervenção para a Zona de Intervenção Florestal (ZIF) da Perna da Negra, precisamente o local onde deflagrou o incêndio da passada sexta-feira na Serra de Monchique. Segundo a edição desta terça-feira do Público, o projeto em causa prevê a “criação de pontos de água, aceiros e de caminhos de acesso” para combater incêndios na serra.

Monchique. Plano de intervenção parado há meses

Emílio Vidigal, presidente da Aspaflobal, assegurou ao jornal que “nada foi feito” e que o plano estruturante enviado para o ICNF está “embrulhado na burocracia”.

O trânsito na Estrada Nacional (EN) 266 em vários locais, junto a Monchique, e a EN 267, que liga Portimão àquela cidade foi cortado, disse à agência Lusa o comando-geral da GNR. O trânsito foi cortado em vários locais da EN266, nomeadamente na Nave Redonda, na Fóia e em Monchique e na EN267, na zona de Monchique.