Não, as lentes de contacto não se dissolvem na água, nem mesmo da água da sanita. E não, as estações de tratamento de águas residuais não as conseguem eliminar. Resultado: pedaços pequenos de lentes de contacto a juntar-se à poluição de microplásticos nos oceanos. Se o alerta lhe parece estranho, saiba que 15 a 20% das pessoas que usam lentes de contacto nos Estados Unidos as descartam na sanita, segundo um trabalho de investigação apresentado esta segunda-feira no 256.º encontro da Sociedade Americana de Química.

“Tenho usado óculos e lentes durante a maior parte da minha vida adulta. E comecei a interrogar-me se alguém tinha investigado o que acontecida a estas lentes de plásticos”, disse em comunicado Rolf Halden, investigador na Universidade Estadual do Arizona. A equipa do diretor do Centro de Engenharia de Saúde Ambiental, que já tinha feito outros trabalhos na área da poluição por plásticos, não conseguiu encontrar nenhum trabalho sobre o impacto das lentes de contacto descartadas.

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Quando começaram a sondar os utilizadores de lentes de contacto nos Estados Unidos, a equipa verificou que havia uma grande percentagem de pessoas descartava as lentes no balde do lixo, como deveria ser feito. “Este é um número muito alto considerando que cerca de 45 milhões de pessoas usam lentes no contacto só nos Estados Unidos”, disse em comunicado Varun Kellar, investigador na mesma equipa. São 6,75 a 9 milhões de pessoas a descartar lentes de contacto na pia. Ou cerca de seis a 10 toneladas de lentes de contacto nas estações de tratamento todos os anos.

Uma vez nas estações de tratamento, as lentes de contacto acabam por ser parcialmente degradadas por microorganismos que as quebram em pedaços mais pequenos, juntando-se assim a outros microplásticos. A partir daí seguem o caminho que outros microplásticos, são ingeridos por animais aquáticos que não os conseguem digerir, entram na cadeia alimentar e, eventualmente, acabam no seu prato. Isto significa que todos os poluentes que ficaram agarrados aos plásticos durante a passagem pela estação de tratamento também acabam na barriga dos peixes e, por fim, na sua.

As lentes não são o único plástico a ser descartado incorretamente na sanita. Os cotonetes, por exemplo, são o segundo maior poluente das praias portuguesas. Também não deve colocar na sanita: fio dental, preservativos, pensos higiénicos, tampões, toalhitas húmidas de limpeza, aplicadores de maquilhagem, areia do gato, beatas de cigarro, borra de café, molhos e restos de comida e, claro, medicamentos.