Pescadores franceses e britânicos envolveram-se em confrontos durante a madrugada de terça-feira na Baía do Sena, a 22 quilómetros da costa da Normandia. Os pescadores trocaram insultos, atiraram pedras e pedaços de metal, lançaram bombas de fumaça e very-lights e fizeram colidir embarcações.

Segundo o jornal francês Le Point, entre 40 e 50 pescadores de vários portos da Normandia concentraram-se em protesto com o objetivo de impedir os britânicos de pescar naquela zona. “Estimamos em 35 as embarcações francesas e em cinco as britânicas“, disse à AFP a tenente-coronel Ingrid Parot, da Prefeitura do Canal [da Mancha] e do Oceanos francesa, que foi chamada a intervir. “Os franceses contactaram os britânicos para os impedir de trabalhar. As embarcações roçaram umas nas outras. Atiraram pedras, mas não há feridos ou danos registados. Os franceses quase que cercaram os britânicos.”

Por outro lado, a France 3 Normandie — que filmou os confrontos — relata que pelo menos três embarcações (duas britânicas e uma francesa) ficaram danificadas. A BBC refere que as duas embarcações britânicas regressaram ao porto de Brixham com janelas partidas.

“Para os britânicos, isto é um bar aberto: eles pescam o que querem, onde querem e tanto quanto querem”, queixa-se Dimitri Rogoff, presidente do Comité Regional das Pescas Marítimas da Normandia. De acordo com o The Guardian, os franceses acusam os britânicos de recorrerem a técnicas de arrastão e usarem embarcações que chegam aos 30 metros — cerca de o dobro das embarcações francesas, que utilizam técnicas mais artesanais.

A Federação Nacional das Organizações de Pescadores da Grã-Bretanha pediu que seja mantida a calma. “Já fizemos chegar o assunto ao governo britânico e pedimos proteção das nossas embarcações, que estão a pescar legitimamente”, afirmou o chefe executivo Barrie Deas. E acrescentou, referindo-se às filmagens que mostram as “embarcações a ser manobradas de forma muito perigosa”: “os problemas mais profundos por detrás dos confrontos devem ser resolvidos à volta da mesa, não no alto mar onde as pessoas se podem magoar”.

Já Mike Park, chefe executivo da Associação Escocesa de Peixe Branco, afirmou que o incidente foi “clara pirataria” e defendeu que os barcos — nomeadamente do barco escocês filmado pela France 3 Normandie a embater em embarcações de menores dimensões — estão no “pleno direito” de estar na área.

As embarcações britânicas têm direito, ao abrigo da lei comunitária, de pescar na região. Contudo, a tensão entre os pescadores dos dois países já se prolonga há quase 15 anos. Nos últimos cinco anos houve entendimentos entre as partes, nomeadamente o acordo que determina que as embarcações britânicas de maiores dimensões ficam fora da região em troca de mais direitos de pesca.

A disputa é agravada pelo facto de os britânicos poderem pescar durante todo o ano, enquanto a época de pesca dos franceses é limitada pela lei ao período de 1 de outubro a 15 de maio. “Não queremos que deixem de pescar, mas podiam esperar por 1 de outubro para que pudéssemos partilhar”, explica Rogoff. “As vieiras são um dos produtos principais da Normandia, um recurso primário e um problema muito sensível”, argumenta Rogoff.

Caso o Reino Unido saia da União Europeia sem conseguir um acordo (hard Brexit’), o assunto fica resolvido por si só. “Depois de 29 de março de 2019, [os britânicos] passam a ser tratados como uma terceira parte e deixam de ter acesso a estas áreas”, sublinha Rogoff. Mas a Fishing Leave — uma organização pró-Brexit — acusa os pescadores franceses de hipocrisia e alega que estes pescaram cerca de 60% do peixe nas águas britânicas ao longo das últimas quatro décadas.