Sempre que o perigo nos bate à porta, o nosso cérebro pensa em três opções: lutar, fugir ou ficar paralisado. Até aqui, nada de novo. Mas, como é que o cérebro decide qual destas estratégias levar em frente? Que variáveis o levam a tomar uma decisão? Foram estas as questões que um grupo de investigadores, incluindo Marta Moita e Luísa Vasconcelos, quis tentar responder, através de um novo estudo realizado no Centro Champalimaud e publicado esta quarta-feira na revista Nature Communications.

“Estes comportamentos são fundamentais, mas ainda não sabemos quais são as regras do jogo: em cada situação, como é que o cérebro decide qual das três estratégias implementar e como assegura que o corpo as aplica?”, questiona Ricardo Zacarias, o primeiro autor do estudo, citado em comunicado.

A resposta foi conseguida através da mosca-do-vinagre, cuja geração dura em média 15 dias. “Quando começamos a trabalhar nestas questões, a maioria das pessoas pensava que as moscas iriam fugir sistematicamente. Quisemos ver se isto era realmente verdade”, disse Marta Moita na nota enviada. Esta mosca é um modelo animal que tem sido muito utilizado para ajudar a esclarecer problemas da biologia, sendo agora utilizada para estudar “as bases neutrais dos comportamentos defensivos”.

O estado comportamental da mosca influencia a escolha da estratégia?

As moscas começaram por ser colocadas num prato coberto, ficando expostas a um círculo escuro em expansão, que funciona como uma ameaça. O objetivo era ver como reagiam numa situação em que não poderiam fugir. Resultado: as moscas ficaram paralisadas, tal como acontece com os mamíferos. Mas, nem todas tomaram esta decisão. Algumas moscas fugiam da ameaça a correr, o que “significava que, tal como os humanos, as moscas estavam a escolher entre estratégias alternativas”. 

Para ver mais de perto a reação das moscas-do-vinagre, a equipa de investigadores utilizou um software de visão artificial, que permite obter uma descrição ao pormenor do comportamento de cada mosca. E também aqui chegaram resultados: a reação das moscas dependia da velocidade a que estas se movimentavam no momento em que surgia a ameaça. Se a mosca estivesse a andar devagar, ficava parada. Pelo contrário, se estivesse a andar depressa, fugia da ameaça a correr. “Trata-se da primeira demonstração de que o estado comportamental do animal pode influenciar a escolha da sua estratégia defensiva”, explica Luísa Vasconcelos.

Desta forma, foram identificados dois neurónios essenciais para os comportamentos defensivos das moscas. “Existem centenas de milhares de neurónios no cérebro da mosca e, entre todos eles, descobrimos que a paralisação era controlada por dois neurónios idênticos, um de cada lado”, acrescentou a investigadora.

Se esses neurónios fossem desativados, as moscas deixavam de paralisar e começavam a fugir da ameaça. Quando os neurónios eram ativados sem qualquer ameaça, as moscas ficavam paralisadas, dependendo da sua velocidade de movimento. Este resultado coloca estes neurónios diretamente à entrada do circuito de escolha, acrescenta o comunicado.

“Estes neurónios são do tipo que envia comandos motores do cérebro para a estrutura equivalente à espinal medula da mosca, o que significa que eles poderão estar envolvidos não apenas na escolha, mas também na execução do comportamento”, explica Marta Moita.

Os investigadores chegaram a uma conclusão: “Podemos agora estudar diretamente como o cérebro faz escolhas entre estratégias defensivas muito diferentes e como os comportamentos defensivos são comuns a todos os animais”, acrescenta Marta Moita, sublinhando que as descobertas “fornecem um bom ponto de partida para conseguir identificar as ‘regras do jogo’ que definem a forma como os animais escolhem defender-se”.