O Presidente norte-americano, Donald Trump, reagiu oficialmente aos resultados das eleições intercalares da noite de terça-feira e a mensagem que quis passar foi apenas uma: o resultado no Senado foi “histórico” e os bons resultados de candidatos republicanos devem-se todos às ações do Presidente na campanha.

“Ontem foi um grande dia”, começou por dizer Trump na sua comunicação, reforçando logo de seguida que a vitória republicana no Senado foi “um tremendo sucesso”. “Esta eleição regista o maior ganho no Senado para um Presidente no cargo, desde Kennedy em 1962”, declarou o Presidente. Isto antes de atirar novos dados para cima da mesa: maior número de senadores republicanos dos últimos 100 anos (55, embora apenas 35 estivessem em disputa) e um resultado mais favorável do que o de Barack Obama, que nas suas primeiras intercalares viu os democratas perderem seis senadores.

O Presidente deixou claro quais considera terem sido as maiores vitórias da noite: os lugares roubados aos democratas no Senado nos estados do Indiana (Mike Braun), Dakota do Norte (Kevin Cramer), Flórida (Rick Scott) e Missouri (Josh Hawley) e as duas conquistas nos lugares que estavam em aberto no Tennessee (Masha Blackburn) e no Utah (Mitt Romney) — a que se pode somar o Arizona (Martha McSally).  E não teve pejo em reclamar para si os louros dessas vitórias: “Dos 11 candidatos por quem fizemos campanha, 9 ganharam”, afirmou. “Se não tivéssemos feito campanha talvez tivesse havido a tal ‘onda azul’.”

Trump recordou ainda que alguns dos seus candidatos favoritos conquistaram o cargo de governador — como Ron DeSantis na Flórida ou Brian Kemp na Geórgia (muito embora a adversária, Stacey Abrams, se tenha recusado a reconhecer o resultado). Sobre este último ponto, Trump fez um aparte referindo-se ao apoio da apresentadora Oprah Winfrey à candidata adversária, que poderia tornar-se a primeira governadora negra do país — “eu gosto muito da Oprah Winfrey, achava que ela também gostava de mim, mas se calhar já não.” “Eu não tive ninguém a fazer campanha na Geórgia a não ser eu”, disse, mais tarde, referindo-se aos apoios de Winfrey e do ex-Presidente Barack Obama a Abrams. “E eu ganhei.”

A tentativa do Presidente de se pintar como o grande responsável pelos bons resultados dos republicanos também ficou claro quando Trump explicou que fez pouca campanha pelos candidatos a representantes — onde os republicanos, na sua maioria, perderam —, acrescentando que uma das exceções, Andy Barr, ganhou. O candidato do 6º distrito da Georgia teve uma corrida competitiva contra a militar democra Amy Knight, mas conseguiu sair por cima. Trump chegou mesmo a deixar claro que muitos candidatos que recusaram a sua ajuda, perderam. E Trump identificou-os, um a um: “Alguns disseram ‘vamos manter-nos afastados’ e tiveram um terrível resultado. Não sei se deveria ficar triste ou não. Carlos Curbelo, Mike Coffman, Mia Love…”, enumerou. “Azar”, acrescentou.

Apelos ao bipartidarismo e irritação com a imprensa

Com os olhos postos no futuro, o Presidente aproveitou para sublinhar que quer criar um clima de compromisso e negociação com os democratas no Congresso — embora, ao responder mais tarde às perguntas dos jornalistas deixou claro que não cederá uma vírgula nas matérias que lhe são queridas como a imigração e a construção do muro.

“Respeito muito o que Nancy [Pelosi, líder dos democratas na Câmara] disse ontem à noite sobre o bipartidarismo e a união”, declarou o Presidente. “É o que devíamos estar a fazer.” “Podemos optar por andar a atacarmo-nos, e eu consigo imaginar que seria muito vantajoso politicamente para mim porque faço isso melhor do que eles, mas não é o que vamos fazer.” O Presidente reforçou ainda crer que “haverá agora muito menos impasse” no Congresso.

Trump aproveitou para deixar claro quais os temas onde crê haver espaço para a colaboração: sistema de saúde, infraestruturas, economia. Nesta última área, o Presidente aproveitou para abordar os bons resultados económicos — com um crescimento do PIB e uma taxa de desemprego altamente positivos, registados nas últimas semanas. “Os acordos comerciais estão a resultar”, acrescentou, somando a isso o regresso da “indústria do aço” e da indústria mineira.

Quando as perguntas dos jornalistas chegaram, contudo, Trump regressou ao seu estilo adversarial. Questionado inicialmente sobre qual a reação que terá se os democratas decidirem abrir investigações na Câmara em temas como as suspeitas de conluio com a Rússia ou a entrega das declarações de impostos do Presidente, o milionário tentou inicialmente sublinhar que está disponível para colaborar em outras matérias. “As declarações [de impostos] estão a ser auditadas, são extremamente complexas e as pessoas não as compreenderiam”, acabou por dizer.

Relativamente às perguntas feitas por Jim Acosta, repórter da CNN na Casa Branca, Trump irritou-se ao ponto de levar a conferência de imprensa ao seu ponto de tensão mais alto. Quando Acosta lhe perguntou que reação teria a uma possível investigação dos democratas às suspeitas de conluio com a Rússia, Trump respondeu que não está preocupado porque essa investigação é “uma fraude”. “Pouse o microfone”, ordenou de seguida. “A CNN devia ter vergonha de ter você a trabalhar como jornalista, você é um mal educado.” E, por fim, acrescentou o mantra que tem repetido nos últimos tempos: “Quando vocês reportam fake news, vocês sao o inimigo do povo.”

“Eu podia acabar com essa investigação amanhã”, acrescentaria mais à frente sobre a investigação de Robert Mueller às suspeitas de colaboração da sua campanha presidencial com o Kremlin, insinuando que pode intervir nela caso os democratas coloquem pressão nessa frente. “Essa investigação é uma vergonha”, rematou.