Este domingo, à margem das comemorações oficiais do centenário do Armistício da I Guerra Mundial em Paris, onde Donald Trump, Emmanuel Macron, Angela Merkel e dezenas de outros chefes de Estado se encontraram para assinalar os cem anos do fim do primeiro grande conflito à escala mundial, também a cidade de Manchester celebrou a data. O dia do armistício, dia onze do mês onze, calhou no dia do dérbi de Manchester: o United visitava o City para o jogo grande da jornada 12 da Premier League. Antes do início da partida, as equipas reuniram-se para um momento simbólico à volta de uma gigantesca faixa que dizia “Manchester Remembers”, Manchester Lembra-se, em português. Ao mesmo tempo, Bobby Charlton, um histórico dos red devils, colocou uma coroa de flores no relvado.

Pep Guardiola e José Mourinho cumprimentaram-se, sorridentes, antes do início da partida. Espanhol e português vinham ambos de resultados positivos na Liga dos Campeões: o City recebeu e goleou o Shakhtar Donetsk (6-0) e o United foi a Turim bater a Juventus de Ronaldo e Cancelo (1-2). A equipa de Guardiola — apesar de beneficiar do deslize do Chelsea, que empatou em casa com o Everton de Marco Silva (0-0) — precisava de vencer para regressar à liderança isolada do campeonato, já que também este domingo o Liverpool e recebeu e venceu o Fulham (2-0). Do outro lado, Mourinho podia aproveitar para ultrapassar de uma assentada Watford e Bournemouth e subir à sexta posição da Premier League. Mas o treinador português não tinha todas as armas carregadas.

Paul Pogba ainda passeou pelo relvado do Etihad Stadium mas não conseguiu recuperar a tempo de integrar o lote de convocados de José Mourinho: o francês tem tido algumas dificuldades físicas e treinou de forma condicionada na preparação da visita ao City. E se Pogba viu o jogo da bancada, quem regressou ao banco foi Romelu Lukaku, belga que tem falhado os últimos jogos do Manchester United não só por lesão mas também por opção de Mourinho, que já declarou que o avançado não está com os níveis de confiança necessários para ser uma mais valia em campo. Juan Mata, herói de Turim, e Alexis Sánchez, reforço que ainda não conquistou espaço, também começavam o jogo no banco. O meio-campo a três do United ficava então entregue a Matic, Fellaini e Ander Herrera; lá na frente, Martial, Rashford e Lingard eram os homens mais avançados.

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Ficha de jogo

Manchester City-Manchester United, 3-1

12.ª jornada da Premier League

Etihad Stadium, em Londres

Árbitro: Anthony Taylor

Manchester City: Ederson, Kyle Walker, John Stones, Laporte, Mendy, Bernardo Silva, Fernandinho, David Silva (Foden, 92′), Mahrez (Sané, 62′), Aguero (Gundogan, 75′), Sterling

Suplentes não utilizados: Kompany, Fabian Delph, Gabriel Jesus, Muric

Treinador: Pep Guardiola

Manchester United: De Gea, Ashley Young, Smalling, Lindelof, Luke Shaw, Ander Herrera (Mata, 73′), Fellaini, Matic, Lingard (Lukaku, 57′), Martial, Rashford (Alexis Sánchez, 73′)

Suplentes não utilizados: Sergio Romero, Phil Jones, Darmian, Fred

Treinador: José Mourinho

Golos: David Silva (12′), Sergio Aguero (48′), Martial (p, 58′), Gundogan (86′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Bernardo Silva (33′), Luke Shaw (42′)

Do lado de Pep Guardiola, Bernardo Silva, Mahrez, Aguero e Sterling começavam de início, enquanto que Gabriel Jesus – que assinou um hat-trick contra o Shakhtar — e Gundogan eram suplentes. O City entrou mais forte, com a noção de que era necessário vencer para não deixar escapar a liderança, e Bernardo Silva assinou o primeiro remate da partida logo aos dois minutos de jogo: o avançado português recebeu a bola mais descaído na direita, puxou para o centro, e atirou de fora de área para uma boa defesa de De Gea. Bernardo, peça importante no fluxo ofensivo dos citizens, foi solicitado várias vezes ao longo do jogo para realizar dobras a Mahrez, que se aventurava por investidas mais chegadas à ala direita do ataque e deixava vazios os terrenos mais interiores.

Rapidamente se percebeu que Ashley Young, dono da direita da defesa do Manchester United, teria uma missão difícil face a um endiabrado Sterling (que está num pico de forma impressionante). Aos seis minutos, um grande passe do maestro Silva descobriu o inglês em direção à baliza de De Gea: Sterling ganhou as costas a Young e ficou em posição perigosíssima para fazer o primeiro do jogo, não fosse Smalling a fazer um grande corte que evitou o remate. Os primeiros minutos de jogo foram de total reclusão para os red devils, que pouco mais conseguiram fazer do que ir defendendo as investidas dos citizens. Esta operação de insistência da equipa de Pep Guardiola só precisou de durar, porém, doze minutos: David Silva voltou a encontrar Sterling na esquerda, o inglês fez uma grande abertura a rasgar toda a defesa do United, Bernardo Silva surgiu ao segundo poste a fazer um passe atrasado e Silva, que tinha iniciado a jogada, surgiu a bater De Gea pela primeira vez na partida. Destaque, sublinhe-se, para o magistral jogo sem bola de Aguero, que se alheou das movimentações mas levou dois defesas do United com ele.

Com o golo de David Silva, Guardiola tinha o primeiro objetivo cumprido: estar em vantagem. O City tirou o pé de acelerador e o United ganhou espaço, ganhou terreno e ganhou confiança para começar a chegar à baliza de Ederson. A ausência de Lukaku é também a ausência de uma referência ofensiva que muita falta fez ao Manchester United: Lingard e Martial atuavam abertos nas alas, apoiados na retaguarda por Matic, Herrera e por uma boa exibição de Fellaini, mas Rashford não conseguia impor-se no terreno central. Os red devils conseguiram controlar e gerir o jogo a partir dos 20 minutos, ainda que sempre muito recuados para quem está em desvantagem e sem criar oportunidades dignas desse nome, e deixavam um bom augúrio para a segunda parte, que prometia um United com vontade de chegar ao golo e as entradas de Lukaku, Mata e Alexis Sánchez.

E a segunda parte trouxe tudo isso. Mas já lá vamos. Antes, a segunda parte trouxe o ímpeto vitorioso absolutamente louvável de Pep Guardiola. O que o espanhol disse aos seus jogadores no balneário do Etihad Stadium, só eles sabem; mas Guardiola consegue motivar como ninguém, incentivar como poucos e, como nenhuns, apontar a vitória como o único resultado possível. Na entrada para a segunda parte, os jogadores do Manchester City voltaram ao relvado com a noção evidente de que era necessário fazer mais um ou dois golos para descansar, pôr gelo na partida e não deixar o United ganhar terreno e confiança como tinha acontecido no final dos primeiros 45 minutos. De Gea ainda mal tinha pousado a garrafa de água que trouxe do balneário quando Herrera perdeu a bola no meio-campo, Aguero conduziu, fez tabelinha com Mahrez e rematou quase sem ângulo para o segundo do City (48′). O argentino, naquele que será com toda a certeza um dos golos da jornada, marcou mais uma vez e voltou a fazer a claque dos citizens gritar pelo melhor marcado da história do clube.

E Mourinho levantou-se. Depois de passar grande parte dos primeiros 45 minutos sentado, a tirar notas, o português levantou-se e olhou para o jogo que perdia por 2-0. Olhou para o jogo, olhou para o banco e viu aquilo que era evidente desde que Anthony Taylor tinha apitado para o início da partida: era necessária uma referência ofensiva. Lukaku saltou do banco para render um apagado Lingard e na primeira vez que foi chamado a intervir sofreu grande penalidade do guarda-redes Ederson. Na conversão, Martial confirmou o momento goleador por que está a passar, marcou o sexto golo em cinco jogos consecutivos e reduziu a desvantagem do United (58′).

Mourinho colocou tudo o que tinha — Mata e Alexis entraram para os lugares de Herrera e Rashford — e Guardiola decidiu colocar Sané para preencher espaços e criar desequilíbrios e Gundogan para segurar um meio-campo que começava a ser perturbado por algumas instabilidades. O jogo perdeu qualidade, perdeu carinho no toque de bola e o Manchester United ia tentando, à sua maneira, criar perigo e chegar perto da baliza de Ederson. A verdade é que os minutos iam passando, as oportunidades foram nulas e o City foi implementando uma calma no jogo que também lhe convinha. O jogo não estava decidido, longe disso, mas Alexis não teve qualquer impacto na partida, Lukaku mal tocou na bola, Martial nada mais fez para além do golo e Mata não teve espaço para mexer. E os citizens resolveram.

Numa jogada de jogo coletivo que devia estar nos livros de teoria do futebol, o Manchester City trocou a bola durante mais de três minutos sem perder a posse, fez mais de 40 passes, Bernardo Silva descobriu Gundogan sozinho na área e o alemão bateu De Gea pela terceira vez. O City matou o jogo com um tikitaka de Guardiola que ainda não está morto.

O Manchester City venceu, ultrapassou o Liverpool e volta a estar na liderança isolada da Premier League. O Manchester United não aproveitou o deslize do Arsenal, que empatou em casa com o Wolverhampton de Nuno Espírito Santo (1-1), e fica agora a 12 pontos do primeiro lugar do campeonato.