Desde que, nos últimos anos, as premiações de filmes nos EUA, com os Óscares naturalmente à cabeça, começaram a ser contaminadas e pressionadas pelas diversas componentes da agenda politicamente correcta e pelas causas da moda, que as respetivas listas de nomeados se tornaram mais previsíveis, e apresentam menos surpresas, do que nos tempos em que eram maioritariamente a expressão do “establishment” dos membros da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas. A embaraçosa controvérsia em redor do nome que irá apresentar a cerimónia dos Óscares deste ano, que ainda não foi definitivamente anunciado, mostra bem a confusão que vai lá por dentro. Eis confirmações, surpresas e ausências das nomeações deste ano.

Confirmações: “Roma”, “Black Panther”, “Assim Nasce uma Estrela”, “Vice”, “BlacKkKlansman” — Com 10 nomeações (entre as quais uma de Melhor Atriz e outra de Atriz Secundária, respetivamente para a amadora Yalitza Aparicio e para a única profissional do elenco, Marina de Tavira), “Roma”, de Alfonso Cuarón confirma o seu estatuto de um dos principais favoritos do ano, fazendo a Netflix entrar pela porta grande da história das estatuetas; a Academia mata dois coelhos com uma só paulada graças às sete nomeações de “Black Panther”, distinguindo uma fita toda ela da “diversidade” e recompensando o seu colossal sucesso nas bilheteiras – a contabilidade continua (ainda) a valer muito nos Óscares; as várias nomeações (oito) para “Vice” eram mais do que esperadas, dado ser, e independentemente da sua qualidade, violentamente crítico dos “neocons”, dos Republicanos e da administração de George W. Bush; “Assim Nasce Uma Estrela” (oito nomeações), é um caso clássico de filme talhado à medida para os Óscares: grande sucesso de público e de crítica, num género tradicional, o musical; e quanto a “BlacKkKlansman”, de Spike Lee (seis nomeações), surge como a fita “radical” institucional, e com mochila de mensagem anti-Trump, ideal para constar da lista.

Surpresas: “A Favorita”, Willem Dafoe, Pawel Pawlikowski – A Academia costuma gostar de produções históricas inglesas, mas mesmo assim, poucos esperavam as dez nomeações de “A Favorita”, que incluem as três principais atrizes (Olivia Colman, Emma Stone, Rachel Weisz) para as duas respetivas categorias; Willem Dafoe “intromete-se” na categoria de Melhor Ator pela sua interpretação de Van Gogh em “À Porta da Eternidade”, do também pintor Julian Schnabel (e talvez a expensas de John David Washington em “BlackKklansman”); o autor do magnífico “Guerra Fria” surge também na categoria de Melhor Realizador, além de ter a fita candidata a Melhor Filme Estrangeiro (esta é também a primeira vez que dois dos indicados a Melhor Realizador – Pawel Pawlikowski e Alfonso Cuarón — o são com dois filmes estrangeiros rodados e preto e branco).

Ausências: Robert Redford, Clint Eastwood, Bradley Cooper, Sissy Spacek, Emily Blunt – Dois dos melhores filmes, e das mais notáveis interpretações, de 2018, são “O Cavalheiro com Arma”, de David Lowery, com Robert Redford a despedir-se do cinema enquanto ator, e “Correio de Droga”, de e com Clint Eastwood. Que os multipremiados, mais que consagrados e lendas vivas de Hollywood e do cinema que são Redford e Eastwood não tenham desejado ou sentido necessidade que os seus filmes fossem devidamente promovidos para os Óscares, é natural; que, mesmo assim, a Academia os tenha ignorado por completo, é um lamentável sinal dos tempos; ator e realizador de “Assim Nasce Uma Estrela”, Bradley Cooper foi preterido da segunda categoria, mas surge na primeira, quando, ironicamente, a sua campanha foi apontada essencialmente àquela; Sissy Spacek merecia, de olhos fechados, um lugar em Melhor Atriz pelo seu encantador papel no referido “O Cavalheiro com Arma”;  e a esfuziante Mary Poppins de Emily Blunt em “O Regresso de Mary Poppins” mais do que justificava a sua presença na mesma categoria (Glen Close bem podia ter saltado para lhe dar lugar – só que “A Mulher” é um filme de fundo “feminista”…).