Longe das luzes da ribalta, do tronco nu de Adam Levine, das mensagens de apoio a Colin Kaepernick e da partida em que os Patriots venceram com menos pontos de sempre, a Super Bowl também tem outras histórias para contar.

Usain Bolt esteve em Atlanta e conseguiu bater um recorde sem sequer estar equipado. Donald Trump disse ter receio que o filho jogue futebol americano e a ciência diz que tem motivos para isso. O preço da cerveja baixou e as visitas à Netflix também. E Martin Luther King Jr. foi elogiado, o que em outros tempos foi tarefa difícil.

Virámos costas ao campo do Estádio Mercedes-Benz e fomos em busca das histórias que passaram ao lado durante a partida. .

Donald Trump

Tem medo que o filho jogue futebol americano. E tem razões para isso

O presidente norte-americano admitiu que teria dificuldade em aceitar se o filho quisesse jogar futebol americano: “Quer dizer, é um desporto perigoso e acho que é muito duro”. As palavras de Donald Trump estão a dar que falar porque, em setembro de 2017, disse que o facto de as regras do jogo estarem a ser modificadas para tornar o futebol americano menos duro estavam a arruinar a prática desportiva.

Donald Trumo com o filho Barron e a mulher Melania Trump a caminho de uma festa no International Gulf Club, onde viu o Super Bowl. Créditos: Getty Images

Apesar das contradições, Donald Trump tem motivos para ter medo. A ilustrar esses receios está a história de Dave Duerson, uma estrela do futebol americano que se suicidou, mas deixou uma carta a pedir à comunidade científica que analisasse o cérebro dele. Foi assim que os médicos descobriram que Dave Duerson tinha o cérebro demasiado pequeno para um homem adulto, que estava atrofiado e que tinha três buracos. Tudo isso era produto das pancadas que tinha levado enquanto jogava futebol americano.

Vários estudos científicos sublinham as consequências das pancadas do futebol americano para a saúde dos atletas. Um estudo da universidade de Boston encontrou sinais de encefalopatia traumática crónica nos cérebros de 60 jogadores depois de morrerem. Essa doença, que também recebe o nome de “demência pugilística”, leva ao declínio cognitivo, alterações de comportamento e problemas de memória e de fala à conta das pancadas que a cabeça sofre.

Usain Bolt

Esteve no Super Bowl e bateu um recorde

Dois meses depois de o campeão ter saído do clube australiano de futebol Central Coast Mariners, Usain Bolt esteve no Estádio Mercedes-Benz para experimentar outro futebol: o americano. E como se não lhe bastasse ter na prateleira nove prémios olímpicos que lhe garantem o título de humano mais veloz do mundo, Usain Bolt decidiu bater outro recorde na visita: o das 40 jardas da National Football League (NFL).

Usain Bolt participava numa atividade chamada Super Bowl Experience no sábado quando completou 40 jardas — qualquer coisa como 36,5 metros — em 4,22 segundos. Foi assim, sem sequer estar convenientemente equipado, que Usain Bolt igualou o resultado de John Ross, wide receiver dos Cincinnati Bengals. E que mostrou que a reforma não o desacelerou.

Martin Luther King Jr.

Foi homenageado, mas nem sempre foi assim

Numa época em que o Super Bowl está a ser alvo de críticas após o desaparecimento de Colin Kaepernick, que se manifestou contra a brutalidade policial em 2016, a produção fez uma homenagem a Martin Luther King Jr., natural de Atlanta. O momento aconteceu logo a seguir ao hino nacional norte-americano e poucos segundos antes da moeda ao ar ter sido feita pela filha do ativista pelos direitos civis. Mas nem sempre foi assim.

Em 1991, os organizadores do Super Bowl decidiram que o evento desportivo dali a dois anos não devia acontecer em Phoenix depois de o estado do Arizona não ter conseguido fazer do Dia de Martin Luther King Jr. um feriado remunerado.  “Devemos retirar o jogo da controvérsia política e evitar ser um alvo”, disse Paul Tagliabue, comissário da liga de futebol americano, ao Chicago Tribune. “Enquanto estiver no Arizona e a alegada controvérsia não for resolvida, as pessoas vão usar-nos”.

A decisão tinha argumentação na estatística. Apesar de apenas 3% da população do Arizona ser negra — o que pode ter levado aos referendos falhados para fazer desse dia um feriado, apesar de o presidente ter legislado essa questão nos anos 80 –, a maior parte dos jogadores na NFL era afro-americana. “Acho que é trágico para as pessoas que trabalharam tanto para conseguir o jogo”, disse Norman Braman, o então proprietário dos Philadelphia Eagles, ao The Washington Post. “Mas acho que seria uma afronta ao nosso público e aos nossos jogadores se o jogo fosse lá”, concordou.

Cerveja

Foi cinco dólares mais barata do que no ano passado

Fazer contas ao Super Bowl significa passar muito tempo a contar zeros à direita, mas nem tudo foi tão mau assim dentro do Estádio Mercedes-Benz onde o jogo entre os Patriots e os Ramos aconteceu. Paolo Bandini, jornalista especialista em futebol americano, publicou  no Twitter que uma cerveja custava entre sete e nove euros durante o Super Bowl. E que esse valor estava cinco dólares (cerca de 4,36 euros) abaixo dos praticados no Super Bowl do ano passado.

No que toca a preços, qualquer desconto é bem-vindo no evento desportivo mais aguardado dos Estados Unidos. No que toca ao álcool, as estatísticas dizem que os norte-americanos gastaram 1,3 mil milhões de dólares (1,1 mil milhões de euros) em cerveja, 979 milhões de dólares (854 milhões de euros) em refrigerantes, 597 milhões em vinho (520 milhões de euros) , 405 milhões noutras bebidas alcoólicas (353 milhões de euros) e 348 milhões em água engarrafada (303 milhões de euros).

Se falarmos de comida, os Estados Unidos gastaram 278 milhões de dólares em batatas fritas (242 milhões de euros),  224 milhões de dólares em nachos (195 milhões de euros), 198 milhões em pizzas congeladas (172 milhões de euros), 81 milhões em saladas (71 milhões de euros), 80 milhões em asas de frango (70 milhões de euros), 62 milhões em abacates (54 milhões de euros) para fazer guacamole e 60 milhões em sandes (52 milhões de euros). Mais: a quantidade de asas de frango que os americanos comeram durante o Super Bowl ascende às 1, 38 mil milhões (1,20 mil milhões de euros) — uma por cada cerveja.

Netflix

Esteve com menos 32% de visitantes do que o habitual

Tudo começou quando a página oficial da Netflix no Twitter aproveitou os holofotes do Super Bowl para oficializar o lançamento de um documento de consciencialização ambiental chamado “Our Planet”, que chega à plataforma a 5 de abril. Depois de um trailer ter sido exibido durante o intervalo do jogo, a página da Netflix nas redes sociais começou a ser invadida por memes.

Um deles dizia que as pessoas responsáveis pelo Twitter estavam demasiado ocupadas a ver futebol americano, portanto quem qer que estivesse do outro lado do teclado não tinha outro remédio senão limitar-se a publicar gifs — imagens animadas sem som. Foi assim, debaixo de uma imagem de pinguins, que a Netflix soltou um pouco da estatística da noite: à conta do Super Bowl, a plataforma estava com 32% menos visualizações do que num domingo normal.

Isto significa que de nada valeu a mensagem que Guillermo del Toro, o realizador de “A Forma da Água”, publicou ainda este domingo nas redes sociais: “Um lembrete para o facto de Pacific Rim e Pan’s Labrynth estarem na Netflix agora”, disse o artista através do Twitter. Esses filmes, o primeiro de 2013 e o segundo de 2007, estão disponíveis na plataforma de streaming. Mas não bastaram para desviar a atenção dos amantes do Super Bowl.