Procurar a etiqueta certa às vezes pode ser um erro, e no caso do novo romance de Marlon James parece ser um erro crasso. Black Leopard, Red Wolf, que foi publicado nos Estados Unidos da América esta semana, é o primeiro volume de uma trilogia inspirada na mitologia africana que irá contar a mesma história de diferentes perspetivas. As personagens são bruxas, homens capazes de mudar de forma e gigantes; mas, apesar de cair facilmente na categoria da fantasia, Black Leopard, Red Wolf não é bem um livro de fantasia. Segundo o The New York Times, parece ter qualquer coisa de Gabriel García Márquez, de Stan Lee e de Hieronymus Bosch, mas há quem continue a insistir na comparação com A Guerra dos Tronos, que James referiu numa entrevista em jeito de piada.

De um modo geral, o romance tem recebido boas críticas — até por aqueles que admitem não ter percebido nada de nada. É esse o caso de Constance Grady, da Vox, que descreveu Black Leopard, Red Wolf como “opaco”, tanto no que diz respeito à linguagem como ao enredo. Segundo Grady, este gira em torno do desaparecimento de um rapaz cujo nome nunca é referido e cuja morte é logo anunciada, aparentemente destruindo à partida todo o sentido da história. “Uma misteriosa figura contratou várias pessoas para tentar encontrar o rapaz por causa de qualquer coisa relacionada com o destino do reino qualquer coisa. O grupo contratado consiste num variado conjunto de aventureiros — um gigante, um leopardo capaz de mudar de forma, uma bruxa, um búfalo, uma deusa da água que periodicamente se transforma num charco — e um deles é Tracker, um homem que toda a gente cumprimenta dizendo ‘diz-se que tens um nariz’.”

O enredo parece confuso, e Grady garante que é, mas se este Black Leopard, Red Wolf tiver alguma coisa do romance anterior, Breve História de Sete Assassinatos, então há-de ser apenas um pormenor nas mais de 600 páginas que Marlon James escreveu. Na sua crítica, Constance Grady parece dar a entender isso mesmo ao referir que o romance, deliberadamente “opaco”, só ganha verdadeiro interesse quando a história da busca pelo rapaz desaparecido se expande de modo a incluir a de Tracker, o homem do nariz milagroso com um olho de lobo. Só que “existem tantas páginas tanto disso”, lamentou. Uma crítica que, convém dizer, não teve eco noutras publicações.

Há, contudo, um ponto em que todos parecem estar de acordo — é a história de Tracker que faz o livro. Essa história é surpreendentemente comovente quando comparada com o ambiente violento em que o romance de James se desenrola. E a violência é tal que Ron Charles, do The Washington Post, aconselhou os leitores a lerem Black Leopard, Red Wolf com “uma bata” por causa do sangue.

O escritor jamaicano, que foi tantas vezes acusado de ter criado um enredo excessivamente violento em Breve História de Sete Assassinatos, parece ter voltado ao mesmo registo neste novo livro. Curiosamente, James sempre defendeu que o romance que lhe valeu o Man Booker Prize em 2015 não era assim tão violento. Foi exatamente isso que disse ao Observador em março de 2017, pouco tempo depois de ter saído a versão portuguesa: “Não acho que haja assim tanta violência”.

A questão é que há muito mais do que violência, e James queixa-se de os críticos muitas vezes não são capaz de ver mais nada além disso: “É uma história extraordinariamente violenta, e inclui ataques sexuais em abundância. O mundo antigo não é bonito ou simpático: homens, mulheres e crianças são torturados e violados até à morte. Mas isso só torna a ternura escondida de Tracker mais pungente”, defendeu Ron Charles. Até nos piores cenários é possível encontrar beleza.

Outro conceito a que James parece ter voltado é o de verdade. A história de Breve História de Sete Assassinatos é contada por múltiplas personagens; a trilogia inaugurada por Black Leopard, Red Wolf, a Dark Star Trilogy, parece que não vai andar muito longe disso. Cada livro vai contar a mesma história, mas e perspetivas diferentes. Qual será a verdadeira? Será que alguma é mentira? “Não vou dizer em qual acreditar”, disse o escritor jamaicano à New Yorker. Caberá ao leitor decidir.

Black Leopard, Red Wolf é ou não é A Guerra dos Tronos africana?

O novo romance de Marlon James tem sido constantemente descrito como a “A Guerra dos Tronos africana” mas, numa entrevista à Vulture, o escritor afastou por completo essa comparação, admitindo ter dito isso em jeito de piada durante uma entrevista. “Disse isso a uma revista como uma piada mas ganhou tanta dimensão que até o [George R.R.] Martin me enviou um email a dizer que estava ansioso por ler o livro”, disse o escritor jamaicano.

James reconheceu que gostou de trabalhar com as características clássicas da “fantasia medieval” mas que também gostou de as atualizar, transformando-as numa outra coisa, completamente diferente. “Sim, existem fadas, bruxas, um grande mal, heróis e personagens capazes de mudar de aparência. Mas muitas das mitologias africanas derrubam o que essas figuras representam porque não são histórias europeias. Não são, secretamente, alegorias cristãs. Por exemplo, há um mito da África central sobre uma bruxa canibal que não segue nenhuma narrativa convencional. A bruxa não é castigada. A única pessoa capaz de a superar é a sua própria filha e a melhor amiga da sua filha. Quando ela percebe que a superaram, diz: ‘Está bem, agora vou morrer’. E é isso que torna o mito tão bom”, explicou à Vulture.

No género fantástico, parte-se sempre do princípio que as personagens são fiéis à demanda que constitui a narrativa central. No livro de James isso não acontece: “Quando uma pessoa trai a demanda, é uma coisa importante. Mas o meu romance fala da traição. Na narrativa africana, é o vigarista que conta a história, então temos de lidar com um narrador que não é fiável”, afirmou o jamaicano, que tem já quatro romances publicados (o primeiro saiu em 2005).

São essas e outras características que fazem com que Black Leopard, Red Wolf não seja o típico romance de fantasia mas também com que Marlon James tenha tido alguma dificuldade em publicá-lo no Reino Unido onde, curiosamente, a edição de Breve História de Sete Assassinatos permitiu a James ganhar o Man Booker Prize e tornar-se mundialmente famoso. “Muitos editores, que vão permanecer anónimos, disseram a mesma coisa: ‘É demasiado literário para sci-fi e demasiado sci-fi para literário. E nenhuma audiência o vai ler’. Achei que era ridículo, porque essa foi exatamente a razão que a editora norte-americana [Riverhead Books] usou para defender que toda a gente o devia ler. Interrogo-me se o problema não é que as editoras e os críticos acabam por limitar a audiência. Não existe razão para um leitor de Toni Morrison não ler Octavia Butler”, disse.

Pode soar estranho, mas parece ser essa a força do novo romance de James. David Fear da The Rolling Stone chamou ao romance uma “versão deslumbrante das sagas de espada e feitiçaria”, Michiko Kakutani do The New York Times garantiu que James criou personagens que “convincentes e icónicas que irão ocupar o seu lugar no panteão dos super-heróis memoráveis” e Ron Charles do The Washington Post deixou uma mensagem ao herói anglo-saxónico Beowulf: “Sai do caminho. Há um novo herói épico a cortar caminho em direção aos nossos corações, e é provável que nunca consigamos lavar o sangue das nossas mãos”.

Romance vai ter edição portuguesa e vai dar origem a um filme

Black Leopard, Red Wolf vai ter edição portuguesa ainda este ano, pela Relógio d’Água, revelou ao Observador fonte editorial. Breve História de Sete Assassinatos, o primeiro livro de Marlon James publicado em Portugal, também saiu por esta editora, no final de 2016. Ainda não é possível dizer, no entanto, em que data o novo livro de James chegará às livrarias portuguesas.

Na semana em que a edição em inglês foi posta à venda, foi noticiado que Black Leopard, Red Wolf vai ser adaptado ao cinema. Os direitos do romance foram adquiridos pela Outlier Society, que pertence ao ator e realizador Michael B. Jordan, e pela Warner Bros. Este é a primeira produção da Outlier desde que Jordan firmou uma parceria com os estúdios no mês passado. De acordo com a Variety, Marlon James será o produtor executivo.

Uma adaptação de Breve História de Sete Assassinatos está, alegadamente, em produção. O romance esteve para ser transformado numa série pela HBO mas, por razões que se desconhecem, o negócio não andou para a frente. A adaptação estará agora a cargo da Amazon, mas ainda nada foi anunciado oficialmente.