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Biologia

A lenda é real: pantera negra foi fotografada pela primeira vez em 100 anos

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Uma pantera negra foi fotografada no Quénia pela primeira vez desde 1909. É um animal tão raro, sobretudo em África, que se julgava extinto. E alimentou várias lendas ao longo dos tempos.

San Diego Zoo

Afinal, a lenda é mesmo real: uma pantera negra foi fotografada a vaguear pelas savanas do Quénia pela primeira vez nos últimos 100 anos. Nick Pilfold, um cientista de conservação da natureza do Jardim Zoológico de San Diego, disse nas redes sociais que a última vez que um animal destes tinha sido visto foi em 1909, em Addis Abeba, Etiópia. São tão raros que se julgava que podiam nem sequer existir. Mas as fotografias, tiradas entre 2017 e 2018, põem um ponto final às dúvidas.

????Our researchers spotted rare black leopards–sometimes called black panthers–in Laikipia County, Kenya.???? Learn more:…

Posted by San Diego Zoo on Monday, February 11, 2019

As panteras negras têm esta cor por causa de uma mutação chamada melanismo, que é o contrário do albinismo. Ocorre quando um determinado gene sofre uma mutação que leva à produção excessiva de melanina. A última vez que um leopardo com essa coloração tinha sido visto foi na Etiópia. Agora foi encontrado mais a sul, no Quénia. Detalhe para fãs de super-heróis: segundo a Marvel Comics, o Quénia faz fronteira com a fictícia Wakanda, onde vive o super-herói Pantera Negra.

Estas imagens foram captadas no âmbito de uma investigação que procurava fazer uma contagem da população de leopardos perto do condado de Laikipia. Nick Pilfold, que liderava a equipa de biólogos, contou à CNN que os cientistas montaram mais câmaras nos locais onde havia histórias de avistamentos destes animais. A estratégia resultou: “Em alguns meses, fomos agraciados com múltiplas observações nas nossas câmaras”.

Esta pantera negra era uma fêmea ainda jovem e foi vista a passear ao lado de outro leopardo fêmea, provavelmente a mãe. As câmaras de visão noturna mostram que, apesar de o pelo do animal ser completamente preto, a pelugem continua a ter manchas, tal como um leopardo normal.

A lenda das panteras negras

Nick Pilfold acredita que as panteras negras sejam mais comuns do que julgamos. “Têm vivido sempre no Quénia, só que a imagética de alta qualidade para confirmar a existência delas tem faltado”, explica. Mesmo assim, este é um fenómeno raro, especialmente em África. “O melanismo ocorre globalmente em cerca de 11% dos leopardos, mas a maior parte vive no sudeste asiático. As panteras negras em África são extremamente raras“, concluiu Nick Pilfold.

O autor da fotografia que mostra a rara pantera negra a passear na savana é Will Burrard-Lucas, um artista que tentou encontrar animais destes o início da carreira. Para ele, “nenhum animal está envolto em tanto mistério, nenhum animal é tão indescritível e não há animal mais bonito“.

“Por muitos anos, eles permaneceram a matéria dos sonhos e das histórias improváveis contadas à volta das fogueiras num acampamento. Ninguém que eu conheça viu um em estado selvagem e eu nunca pensei conseguir”, descreveu ele no seu blog pessoal. Estas fotografias foram publicadas na revista científica African Journal of Ecology e representam a primeira documentação científica de uma pantera negra.

A fotografia de uma pantera negra publicada no estudo na revista African Journal of Ecology. Créditos: African Journal of Ecology

Isto é importante porque os leopardos são considerados uma espécie em perigo crítico de extinção pela União Internacional para a Conservação da Natureza. Em breve, estes animais podem desaparecer à conta da caça furtiva, da perda de habitat e da competição por presas. Na verdade, diz o Jardim Zoológico de San Diego, ninguém sabe a que ritmo é que a população de leopardos está a diminuir. Mas tanto Nick Pilfold como o fotógrafo Will Burrard-Lucas esperam que esta descoberta motive as organizações a tomarem mais medidas para proteger a espécie.

As panteras negras são tão respeitadas que, mesmo quando a caça de leopardos era legal, nos anos 50 e 60, ninguém se atrevia a matar uma se a visse. “Quase toda a gente tem uma história em que diz ter visto uma pantera negra, é uma coisa muito mítica. Mesmo quando falamos com homens mais velhos que eram guias no Quénia há muitos anos, quando a caça era legal, era um dado adquirido que ninguém devia caçar uma pantera negra. Se vissem uma não a matavam”, conta Nick Pilfold.

As panteras negras na História

Esse misticismo que envolve as panteras negras inspirou aquele que foi considerado um dos melhores filmes de 2018. “Black Panther” (em português, “Pantera Negra”) está nomeado para os Óscares de Melhor Filme, Melhor Edição de Som, Melhor Mistura de Som, Melhor Direção de Arte, Melhor Banda Sonora Original, Melhor Canção Original (“All the Stars”, de Kendrick Lamar e SZA) e Melhor Guarda-Roupa. No enredo, Pantera Negra é um homem com capacidades sobre-humanas adquiridas quando comeu uma erva afetada por um metal trazido para a Terra por um meteorito. Ele conseguiu unir quatro das cinco tribos africanas que entraram em conflito por quererem esse metal e formou o Reino de Wakanda.

O filme estreou em 2018, mas a personagem surgiu pela primeira vez numa história de banda desenhada do Quarteto Fantástico, do universo Marvel, em julho de 1966. Nesse mesmo ano, surgiu nos Estados Unidos o Partido dos Panteras Negras. Os membros desse partido eram cidadãos armados, quase todos afro-americanos, que patrulhavam as ruas dizendo que pretendiam acabar com a brutalidade policial levada a cabo pelos agentes do Departamento de Polícia de Oakland.

J. Edgar Hoover, à época diretor do FBI, disse que este partido era “a maior ameaça à segurança interna do país” porque os seus membros estiveram envolvidos em conflitos com agentes da polícia, alguns dos quais provocaram mortes dos dois lados da barricada. Uma das mais famosas manifestações de apoio aos Panteras Negras foi nos Jogos Olímpicos em 1968, quando  Tommie Smith e John Carlos, dois atletas afro-americanos, vencedores de medalhas pelos Estados Unidos, levantaram o braço com o punho cerrado — a saudação “black power” — enquanto tocava o hino.

Membros dos Panteras Negras nos Estados Unidos. Créditos: Getty Images

Anos mais tarde, no intervalo do Super Bowl de 2016, Beyoncé recordou as Panteras Negras quando ela e as bailarinas se vestiram de couro preto e de forma semelhante aos membros desse partido dos anos 60. O fato das artistas incluía uma peça metálica dourada que formava um “X” no peito e fazia referência ao ativista afro-americano Malcolm X. Essa escolha foi vista como uma forma de protesto à época por chamar à atenção para a violência policial que vitimou, por exemplo, Mario Woods, um jovem que foi morto em São Francisco pela polícia.

Outra incontornável referência ao mítico animal fotografado no Quénia é a alcunha dada a Eusébio da Silva Ferreira. Eusébio, considerado o melhor futebolista de sempre do Benfica, era conhecido pela eficácia na marcação de golos — marcou 807 em 813 partidas oficiais — e pela velocidade dentro de campo. À conta dessas características, foi apelidado de “Pantera Negra”.

Eusébio, a “Pantera Negra” (Créditos: Getty Images)

Os outros felinos negros

De acordo com a National Geographic, o termo “pantera negra” refere-se a qualquer grande felino que tenha pelugem negra. Dentro dessa categoria cabem não só os leopardos — que é o caso deste avistamento — mas também os jaguares pretos, que existem no Brasil, Venezuela, Paraguai, Peru, Guiana e Equador. Enquanto os leopardos precisam de ter mutações em quatro genes diferentes e independentes para que sejam negros — daí serem tão raros — no caso dos jaguares essa é uma característica dominante associada a uma mutação no gene que regula a síntese de melanina na epiderme.

Além disso, também se usa a expressão “pantera negra” para falar dos jaguarundis, um felino americano que pode assumir várias cores dependentes do mesmo gene que causa a pelugem nos jaguares. Também existem os gatos domésticos pretos — sim, aqueles que a superstição diz que dão azar — que só têm essa cor quando há uma mutação em duas partes relacionadas entre si dentro do mesmo gene. Esta mutação é exclusiva dos gatos domésticos e nunca foi observada em felinos selvagens.

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