Um jogo online, produzido propositadamente para o programa “Gente que Não Sabe Estar”, onde o juiz Neto de Moura tem de evitar ser atingido pelos dejetos enviados “pela opinião pública” para “chegar a casa limpinho para escrever mais acórdãos infames“. Foi assim que o humorista Ricardo Araújo Pereira reagiu este domingo ao anúncio de Neto de Moura, avançado pelo seu advogado ao jornal Expresso, de que irá avançar com um processo judicial contra várias figuras públicas que o criticaram, entre elas o próprio RAP.

No episódio do programa, exemplificando como se joga o jogo intitulado “Salva o Neto” com uma criança da audiência, Ricardo Araújo Pereira resumiu assim o seu objetivo: “A opinião pública manda imundas calúnias, aqui representadas por cocós. Se o Neto de Moura se abrigar debaixo do Conselho Superior da Magistratura, não leva com cocó, porque eles protegem-no. Se carregares no espaço, ele atira uma moca com pregos e destrói os rabos.

Quando o jogo é concluído com sucesso, a mensagem que aparece no ecrã é “Parabéns. Ganhaste. Graças a ti, o juiz ilibou mais um vil agressor. Boa!”. Em caso de derrota, diz apenas “Vemo-nos em tribunal, rabos!”

O jogo, proposto pelo humorista como um “exercício de empatia” por parte da opinião pública face ao juiz, não foi o único momento em que RAP comentou as notícias sobre os processos judiciais por ofensa que Neto de Moura quer levar adiante. Referindo-se às declarações iniciais que levaram à provável abertura de um processo, feitas a 10 de fevereiro, o humorista acrescentou:

Por causa de observações como esta, o juiz Neto de Moura ameaça agora processar-me (…) Portanto, na perspetiva dele rebentar o tímpano ainda é como o outro. Agora, escárnio? Sarcasmos? Poça, isso aleija.”

Em causa estava a sugestão para “enfiar uma advertência” no “rabo do juiz”, como sugerido “no Levítico 3:17”. “O Senhor disse a Moisés: e enrolarás a advertência e enfiá-la-ás no rabo do juiz”.

O humorista, que leu excertos dos acórdãos polémicos do juiz para sustentar a sua posição — nomeadamente o que se refere a um caso de violência doméstica em que o homem agrediu a mulher, furando-lhe um tímpano —, classificou assim Neto de Moura: “É um juiz que apela ao poder de encaixe das mulheres no que toca a socos, mas que tem dificuldade em encaixar paródia.” E deixou uma sugestão: “Para as próximas mulheres a serem julgadas pelo juiz, basta dizerem ‘Meritíssimo, ele realmente deu-me várias tareias, nada a dizer, mas contou-me três anedotas que me amesquinharam tanto… Fiquei mesmo macerada’.

Este sábado à noite, no programa “Governo Sombra”, onde participaram também Carlos Vaz Marques, Luís Aguiar-Conraria e João Miguel Tavares, RAP tinha aproveitado para continuar a fazer humor à custa de Neto de Moura:

Eu gostava de estar cinco minutos numa sala escura com o juiz, só para termos uma conversa sobre o que constitui violência a sério. (…) Eu não sei se este juiz não precisava de cinco minutos comigo, acho que eram pedagógicos e até medicinais. Mas depois, se calhar, [precisava de] um internamento numa sala toda ela almofadada”.

Joaquim Neto de Moura, juiz do Tribunal da Relação do Porto, é um dos autores de dois acórdãos que provocaram aceso debate na sociedade portuguesa. No primeiro, o juiz desvalorizou um episódio grave de violência de um marido contra a mulher justificando-o com o facto de esta ter sido adúltera, facto que colocaria em causa a “honra” de um homem. No segundo, retirou a pulseira eletrónica a um homem que rebentou o tímpano da mulher ao soco por entender que os colegas da primeira instância não fundamentaram bem a decisão — e acrescentando um parágrafo no qual alertava para o facto de, agora, uma normal discussão já ser tratada como violência doméstica, deixando o homem invariavelmente numa situação de fragilidade.

Ricardo Araújo Pereira já tinha deixado claro em declarações ao Público, este sábado, que continuaria a falar sobre o juiz, por ser o seu “trabalho”. “Ele tem o direito de se sentir ofendido, eu tenho o direito de dizer coisas que potencialmente o ofendem. Há pessoas que acham que têm o direito a não ser ofendidas. É impossível não ofender pessoas. Ele ofende-me com as considerações que faz nos acórdãos. E tem todo o direito de se sentir ofendido com o que eu digo. Vivemos numa sociedade aberta e isso é mesmo assim”, justificou o humorista. Agora, este domingo, RAP voltou a cumprir a promessa.