Já depois de ver a Juventus sofrer o segundo golo no Wanda Metropolitano, Massimilano Allegri olhava para o relvado, colocava o dedo indicador na cabeça e pedia serenidade à equipa. A perder por 2-0, num resultado tão improvável como a forma de sofrer e os respetivos marcadores (os dois centrais, Giménez e Godín), o técnico italiano ainda viu Oblak afastar para canto uma bomba ao ângulo de Bernardeschi e um cabeceamento ao segundo poste de Ronaldo sair por cima mas estava mais preocupado nessa fase com a forma como as transições defensivas eram mal feitas do que com as movimentações reduzidas para reduzir a desvantagem. Aquele resultado, muito negativo, era o limite para manter a ténue esperança de reviravolta no jogo da segunda mão.

Os adeptos perceberam a importância da partida e responderam de forma massiva ao apelo dos bianconeri para que se criasse um ambiente infernal capaz de dar a superioridade numérica para a Juve se agigantar. Os jogadores perceberam a importância da partida e até os não convocados por castigo, lesão ou opção (casos de Alex Sandro, Khedira, Cuadrado, Douglas Costa ou De Sciglio) foram ao balneário antes da entrada das equipas em campo. Allegri percebeu a importância da partida e montou uma estratégia mais cerebral para ter a tal cabeça rumo a uma reviravolta que, no contexto da Champions, ficaria entre as mais históricas da prova (que só esta temporada já teve exemplos de superação nas passagens do Ajax e do Manchester United).

Falou-se muito da possibilidade de haver um regresso da Vecchia Signora a um sistema de 3x5x2, tentando encobrir a ausência de Alex Sandro com a colocação de Bernardeschi a fazer todo o corredor esquerdo (com João Cancelo a fazer o mesmo na direita). Pela forma como os colchoneros jogam, com dois avançados móveis na frente, até poderia fazer sentido. Mas o técnico preferiu manter o habitual esquema, com Pjanic e Emre Can à frente de uma linha de quatro que tinha Bernardeschi e Matuidi (a andar entre terceiro médio ou ala) entre os movimentos mais interiores ou a dar largura e a dupla Ronaldo-Mandzukic mais móvel na frente. Dybala, titular em Espanha, começou no banco. Tal como o médio Betancur.

Com a formação de Simeone com linhas mais juntas e baixas do que é normal, Pjanic voltou a ter maior protagonismo de jogo e a mobilidade das unidades mais ofensivas fez o resto: os campeões italianos entraram a todo o gás, em cima do Atl. Madrid e com Ronaldo a aproveitar o primeiro canto cedido pelo antigo lateral leonino Santiago Arias para levantar os braços e pedir ainda mais apoio das bancadas. E podia ter sido mesmo um início de sonho porque, na sequência do lance, Chiellini (a fazer o jogo 500 pela Juve) marcou mas o lance estava anulado por falta de Ronaldo sobre Oblak (4′). Os espanhóis não saíam do seu meio-campo com bola controlada mas, com o passar dos minutos, ganharam a serenidade suficiente para irem acertando marcações e confirmarem os elogios como uma das melhores organizações defensivas da Europa – e aqui é mesmo organização defensiva e não defesa porque, aos 20′, Griezmann andava em carrinhos ao pé da área para tirar a bola aos português…

No entanto, Ronaldo estava mesmo apostado em conseguir deixar marca nestes oitavos da Champions e inaugurou o marcador com apenas 25 minutos de jogo, surgindo ao segundo poste a ganhar vantagem a Juanfran depois de um cruzamento largo de Bernardeschi. Os italianos ficavam apenas a um golo de igualarem a eliminatória sem que o Atl. Madrid esboçasse reação ao que se passava em Turim e o cenário só não ficou pior para os espanhóis pouco depois porque o livre direto batido por Bernardeschi passou a rasar a trave de Oblak (32′) – tal como um pontapé de bicicleta na área, três minutos depois.

Cristiano Ronaldo marcou então o 23.º golo em 33 jogos realizados contra o Atl. Madrid, sendo que apenas duas equipas espanholas consentiram mais remates certeiros do português (Sevilha). Em paralelo, passou a somar tantos golos nas fases a eliminar da Liga milionária como na fase de grupos (61). Mas havia outro dado curioso que se retirava deste golo inaugural de CR7: passou a somar 122 golos na Liga dos Campeões… mais quatro do que os colchoneros têm na competição. E o registo só não aumentou porque, em cima do intervalo, um novo cruzamento da esquerda puxado ao segundo poste para entrar na zona de Juanfran foi desviado pelo capitão da Seleção Nacional ao lado (42′). O intervalo chegaria com 1-0 e a melhor oportunidade dos visitantes, com um desvio de cabeça no coração da área de Morata a sair pouco por cima da trave.

Não seria complicado imaginar o que ambos os técnicos tinham referido ao intervalo. “Já podíamos ter igualado a eliminatória nesta primeira parte, como veem é possível”, argumentaria Allegri. “Não podemos continuar com esta atitude, temos de subir as linhas para não sermos tão pressionados”, diria Simeone. A caminho do relvado, ainda no túnel de acesso aos balneários, houve ainda um pormenor da realização do jogo, que apanhou (dentro do possível, até mais por gestos) a explicação do golo anulado por Björn Kuipers a Ronaldo. “De certeza, a 100%?”, questionou o português. O holandês acenou que sim com a cabeça. Ronaldo entrou em campo e, ainda antes dos primeiros cinco minutos, bisou, empatando as contas da eliminatória com um cabeceamento de novo ao segundo poste que Oblak defendeu para lá da linha desta vez após cruzamento da direita de Cancelo.

Simeone, que claramente tinha dado indicações à equipa para ter zonas de pressão mais altas no segundo tempo, lançou Correa no lugar de Lemar para tentar mexer com as transições ofensivas mas era visível a preocupação do argentino perante o que via em campo, percebendo que necessitava de algo mais para sobreviver ao inferno de Turim onde viu a eliminatória igualada em pouco mais de uma parte. Allegri também mexeu e com o segredo que algumas vezes lhe deu crédito saído do banco: Dybala foi lançado a meio do segundo tempo e para o lugar de Spinazzola, recuando Bernardeschi para… lateral esquerdo. A aposta era no jogo corrido mas seria de bola parada que Mandzukic, a cabecear junto ao relvado, ficou perto da reviravolta (75′). E Simeone quis ir também por essa fórmula, lançando Vitolo no lugar de Arias e recuando Saúl Ñíguez para falso lateral esquerdo, depois de Juanfran, que entretanto vira amarelo por entrada dura sobre Ronaldo, passar para a direita.

As substituições, as mudanças táticas e o desgaste físico começaram a partir mais o jogo e foi essa anarquia que proporcionou ao jovem Moise Kean, que entretanto tinha substituído Mandzukic (que parecia condicionado desde o final da primeira parte), a grande oportunidade para “matar” a eliminatória de vez: Chiellini saiu com bola controlada, lançou em profundidade o agora internacional A italiano mas o remate acabou por sair a rasar o poste, apenas três minutos antes do momento decisivo: penálti sofrido por Bernardeschi (com Correa a cometer uma falta infantil, ainda para mais na grande área) e hat-trick do português, que voltou a desafiar o impossível com sucesso e colocou a Juventus nos quartos, a sonhar com a conquista da Champions. Ele que, como tinha contado a Marca esta tarde, tinha comentado com algumas pessoas mais próximas que marcaria… três golos.