A coexistência dos mesmos objetivos de vida entre irmãos não é ideia nova. Nos relvados não é tão incomum que filhos dos mesmos pais se cruzem, ainda que possam não ter carreiras igualmente tituladas. Vejam-se os exemplos dos ingleses Jack e Bobby Charlton, os costa-marfinenses Kolo e Yaya Touré ou os brasileiros Sócrates e Raí. Também do Brasil chega um exemplo recente, que tem Portugal como pano de fundo: Alisson e Muriel Becker. O primeiro é o titular do Liverpool e o segundo guarda-redes mais caro da história. O segundo, mais velho, toma conta das redes do Belenenses SAD desde 2017. Esta semana encontraram-se no Porto, onde Alisson vai defender a baliza da canarinha no sábado, frente ao Panamá.

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Qual irmão mais velho, Muriel não perde uma oportunidade de ver o “benjamin”. Com um jogo da seleção brasileira no Estádio do Dragão, Muriel, feliz pela vinda do irmão à sua “terrinha”, não tardou em deslocar-se para o ver. À margem do treino dos brasileiros, conversou com os jornalistas presentes e não escondeu o orgulho no irmão mais novo. “É a concretização de um sonho”, diz Muriel quando lhe perguntam o que sente por ver Alisson na seleção brasileira. Perfeitamente adaptado a Portugal e à facilidade em “encontrar picanha e feijão em qualquer lugar”, o guarda-redes do Belenenses SAD já joga em casa e quando tem de defender o irmão não se faz de rogado. Alisson tem visto o seu lugar na baliza do Brasil posto em causa, mas para Muriel a qualidade do irmão é unânime. “Aqui na Europa há unanimidade. Se conversares com qualquer treinador de guarda-redes ou guarda-redes de topo mundial, todos colocam o Alisson entre os melhores”, disse aos jornalistas.

Muriel Becker está no Belenenses SAD desde 2017. Foto: Filipe Amorim / Global Imagens

Alisson continua de pedra e cal no Liverpool e, depois do jogo pela seleção brasileira no Porto, terá nova viagem marcada para Portugal e para o mesmo estádio. O sorteio dos quartos-de-final da Champions colocou, frente a frente, Liverpool e FC Porto e, mais uma vez, uma desculpa perfeita para o irmão Muriel poder ver o mais novo, Alisson. Tal como é suposto acontecer, o mais velho mete água na fervura e tenta avisar o mais novo para as eventuais dificuldades que pode encontrar frente a uma equipa que está habituado a enfrentar em Portugal. Os avisos, no entanto, não vêm com os habituais conselhos de irmão mais velho. “Vai ser um jogo muito difícil, mas ele não precisa das minhas dicas. Eu é que tenho de pedir-lhe dicas. O Liverpool tem feito uma grande época, o FC Porto também. Espero poder ver esse jogo. Sem dúvida que vai ser um grande jogo”, disse Muriel.

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As realidades não podiam ser mais contrastantes. Se a casa de Muriel, Lisboa, é a capital portuguesa, Liverpool, onde Alisson mora, é apenas a nona cidade mais populosa de Inglaterra. Porém, quando a conversa chega ao futebol, tudo se inverte. Segundo dados do Transfermarkt, o valor de mercado do Liverpool equivale a quase 70 Belenenses SAD. Por isso não é de estranhar que os reds não tenham pestanejado quando assinaram um cheque de 72,5 milhões de euros por Alisson, enquanto que o Belenenses SAD recrutou o irmão mais velho sem custos.

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Se os destinos não podiam ser mais diferentes, o ponto de partida foi o mesmo. Os irmãos Becker nasceram na cidade de Novo Hamburgo, no estado de Rio Grande do Sul, e a baliza parecia destinada a ambos. Muriel e Alisson não esconderam os pergaminhos da família, especialmente no que toca à tradição das luvas. “A minha mãe era guarda-redes na equipa de andebol da escola. O meu bisavô era guarda-redes numa equipa amadora de Novo Hamburgo. E o meu pai era guarda-redes na equipa da empresa”, disse Becker ao Players’ Tribune. Descendentes de uma linhagem de guardiões de balizas, a escolha parece ter sido natural. “Não sei se está no ADN, mas a família Becker gosta de jogar na baliza”, confessa Muriel.

Com mais cinco anos, Muriel foi a verdadeira razão para que Alisson começasse a ganhar gosto pela baliza. “Jogava com os amigos dele e eram todos mais velhos e maiores que eu. Quando chegava a altura de escolher equipas… claro que o miúdo baixo ia para a baliza”, confessa Alisson. Quando o atual guarda-redes do Liverpool chegou às camadas jovens do Internacional de Porto Alegre em 2006, Muriel já lá estava há três anos. E continuou assim até aos seniores: Alisson sempre foi suplente do irmão, “o melhor guarda-redes da família”, como chegou a dizer o mais novo ao Players’ Tribune, e a “pessoa mais importante” da história de Alisson.

Muriel chega aos 200 jogos pelo Internacional e Alisson aos 100. Foto: Instagram

A ascensão de Alisson só começa com uma infelicidade do irmão. Muriel lesiona-se e Alisson avança para render o irmão. O mais novo nunca mais sai da baliza e a geração renova-se. A partir daí o rumo das carreiras dos irmãos conhecem caminhos distintos. Depois de uma lesão, Muriel acaba emprestado ao Bahia em 2016. No mesmo ano vê o irmão mais novo a partir para a Europa. Com 26 anos, Alisson voa para Roma com os italianos a pagarem oito milhões de euros ao Internacional. Enquanto o mais novo procurava afirmar-se em Itália, Muriel viu o seu percurso de mais de 13 anos no Internacional chegar ao fim.

Em 2017 e depois do fim do empréstimo ao Bahia, Muriel vê a chamada da Europa. Destino? Portugal, mais concretamente, o Belenenses. Voltam a partilhar o mesmo continente, mas Alisson continua a crescer a olhos vistos, tal qual os irmãos mais novos costumam fazer. Em 2017, o Roma realizou uma temporada de sonho: terceiro lugar do campeonato italiano e meias-finais da Liga dos Campeões com a eliminação do Barcelona pelo caminho. Alisson foi a figura maior. O resultado foi a chamada à seleção do Brasil, a titularidade no Mundial 2018 e a transferência para o Liverpool por 72,5 milhões de euros. Muriel continua o seu percurso em Portugal, como dono e senhor da baliza do Belenenses SAD.

O capitão da Roma, Danielle de Rossi, abraça Alisson depois da vitória frente ao Barcelona. Foto: Getty Images

Apesar das viagens terem seguido velocidades e rumos diferentes, o laço que une Alisson e Muriel é muito maior do que o nome que têm em comum. Os irmãos Becker continuam as suas carreiras e até as dinâmicas tradicionais entre mais velho e mais novo prosseguem. Apesar de Alisson contar com uma carreira mais notável e Muriel ser o adepto número um, o irmão mais velho continua a inspirar o mais novo. “Tenho de agradecer ao meu irmão por tudo o que conquistei”, reconhece Alisson Becker.

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